O orador falante | Fernando Venâncio

É um pretexto. Mas pode servir. A Revista do penúltimo “Expresso” inseria um artigo de Henrique Raposo sobre Vasco Pulido Valente, de quem prepara uma biografia. No sábado passado, o semanário incluiu uma réplica de Diogo Ramada Curto ao artigo de Raposo. E eu, que, vai para 30 anos, me ocupei do célebre cronista, tenho esta marginália (mas, bom, tome o seu tempo, e deguste relaxado), de novo aqui oferecida ao mundo.
*
Há duzentos anos, a prosa não prestigiava ninguém. Altas, garantes de fama, eram a poesia e a oratória. Tinha de ser poeta ou orador quem, por essa altura, quisesse andar nas bocas do mundo. Bocage e o padre Macedo correspondiam-se publicamente em verso. Filinto ritmava torturadamente os seus ensaios. E as multidões iam, em dia de santo, ouvir quantos, dos púlpitos, se excediam em sonoridade e arredondamentos.
Alinhar parágrafos, como suficientemente mostravam umas poucas de novelas alegóricas e ‘exemplares’, era ofício menor. A ele se entregavam os historiadores, os criadores de leituras edificantes, os autores de compêndios, os de memórias (assim se designava, por então, os ensaios), os ditantes de boas maneiras. Gente séria, mas dificilmente citável. Sobretudo, se se exceptuar o bilioso Macedo, que também polemizava em prosa, gente que a ninguém divertia. Para recreio, para descontracção, a literatura marcava encontro nos templos ou nos saraus.
Meio século mais tarde, por 1830, esse estado de coisas, no essencial, mantinha-se. Se novidade havia, eram as traduções de novelas francesas. Traduções péssimas, de efabulações de pacotilha, mas que no seu conjunto afiançavam uma movimentação editorial nada despicienda. Era patente: a prosa conservava-se um exercício sem especial magia, e não admira que os manuais a considerassem um subdomínio da eloquência. Nos casos mais felizes, a prosa discursava.

É Herculano quem vem mexer com o que estava parado, ao fundar em 1837 uma revista, O Panorama, onde a língua se aligeira. Mas Herculano, ele próprio, há-de ser por longo tempo ainda um orador. É ao folhetinista Garrett que está reservada a invenção de uma prosa não oratória. Em Julho de 1843, ao iniciar aquilo que irá chamar Viagens na minha terra, cria a prosa moderna portuguesa. Ela troca a redondez do período clássico pela claridade da linguagem diária. Com ela o prosador despedia-se da sua condição de orador e reaprendia a falar.
Era característico nessa nova prosa o ritmo, que se diria ter-se acelerado. Ao período amplo, trabalhoso, assente em robustos paralelos e oposições, sucedia agora a afirmação singela, irrequieta, de avanço imprevisível. A frase encurtava-se ou, efeito curioso, parecia encurtar-se. Leia-se Garrett, nas Viagens: «Eu não gosto de frades. Como nós os vimos ainda os deste século, como nós os entendemos hoje, não gosto deles, não os quero para nada, moral e socialmente falando. No ponto de vista artístico porém o frade faz muita falta.» Era uma linguagem refrescante, e ao tempo a teriam chamado ‘minimalista’. Estava aberto o caminho que, sobretudo através de jovens folhetinistas, iria em começos de 70 desembocar na prosa flexível e sábia, galhofeira e despiedada de Uma Campanha Alegre de Eça de Queirós. A estética clássica, essa, ficara entretanto bem entregue nas mãos de Castilho e do seu discípulo Antero.
Como era esse novo som? Observe-se este comentário de Eça ao assassinato duma esposa, em Gouveia, brandamente penalizado por um juiz: «De modo nenhum queremos limitar os maridos no direito de decepar suas mulheres. São miudezas domésticas em que não intervimos. (…) Que os maridos, quando lhes convenha, para melhor organização do seu interior, partam suas mulheres aos pedaços ‒ coisa é que nem nos escandaliza, nem nos jubila! Talvez não imitássemos esse exemplo: não por nos parecer fora das atribuições maritais, mas por se nos afigurar excessivamente trabalhoso o partir aos bocadinhos uma consorte estimada!». Há aqui uma desfaçatez, um aventurar-se ao rebordo das conveniências. E há um álibi: ‘estou a improvisar, a falar, ninguém sabe, nem eu próprio, para onde vou. Saber para onde vai, sabia a escrita clássica’. Não se acredite: esse desprendimento não é real. A expressão é, ainda aqui, mantida sob cerrado controle. O que se encontrou foi uma estética nova, aliviada, oral, invulgarmente adequada à malícia.
*
Numa entrevista recente, caracterizava Miguel Esteves Cardoso o seu estilo como sendo de «frases curtas, normais», o que nem mesmo seria um estilo. E acrescentava: «Só inovei ao trazer para o jornalismo algumas construções simples, vulgares em inglês. Mas não sou tão simples como o Vasco [Pulido Valente], sou mais complicado a escrever» (Expresso, 30.6.90). É uma singular auto-apreciação, e a referência, nesses termos, a Pulido Valente mais curiosa é ainda.
Esteves Cardoso desde há muito se assenhoreou, é sabido, de uma expressão clara, ligeira, epigramática. Mas está longe de ser introdutor dela. Não é sequer necessário recuar até Eça ou Garrett para achar um boleio que em tudo se assemelha ao seu. Em 1974, um folhetinista escrevia: «Um destes dias fui ver vinte minutos de A Promessa. Por voyeurismo sociológico, e porque os bilhetes eram de graça. Olha-se e não se acredita. Não é que uma pessoa não vá preparada, mas não chega. Ninguém se habitua ao espectáculo da miséria.» Um Miguel Esteves Cardoso in fieri? Não, era Vasco Pulido Valente. Outro caso. Ninguém estranharia se, em A causa das coisas, desse com um trecho assim: «O leitor põe o livro a funcionar. A responsabilidade do leitor é enorme. Pode acontecer que ‘Guerra e Paz’ seja, lida por este leitor, um mau livro. Há bons livros que, lidos nos momentos errados, são péssimos». Isto escrevia Artur Portela Filho em 1966, num texto que foi parar à primeira Funda. Uma sua ‘Sociologia da fotonovela’, de 1967, passada à socapa a Os Meus Problemas, destoaria pouco pela oportunidade, quase nada pela linguagem. E já anos antes, em 1963, se podiam ler em Portugal coisas como esta (a propósito do automóvel, «uma bela e agradável máquina»): «Os homens dividem-se em dois grandes grupos: os que a têm e os que a não têm. Os que a têm ou querem multiplicá-la ou querem simplesmente guardá-la. Normalmente querem as duas coisas. Esses são os verdadeiros homens. Os outros não passam dos outros. Por isso, claro, quando os outros a roubam, se a roubam, os homens zangam-se e procedem bem». De novo Pulido Valente, no nº 4 de O Tempo e o Modo. Antigo e derradeiro exemplo. Em Abril de 1915, Fernando Pessoa escreve e publica uma crónica assim iniciada: «Das feições de alma que caracterizam o povo português, a mais irritante é, sem dúvida, o seu excesso de disciplina. (…) Nunca o português tem uma acção sua, quebrando com o meio, virando as costas aos vizinhos. Age sempre em grupo, sente sempre em grupo, pensa sempre em grupo. Está sempre à espera dos outros para tudo.»
Podíamos citar Almada, podíamos citar Sena, Cardoso Pires, Mário-Henrique Leiria. E Luiz Pacheco. E decerto o Guardador de Rebanhos. Há, incontestável, um Alberto Caeiro no atrevimento, na algo sedutora impunidade de Miguel Esteves Cardoso.
O trabalho, e o mérito, deste inigualado técnico de costumes está na exploração persistente (pelo menos desde o Diário de Notícias de 1983) de quanto potencial se contém nesta fórmula simples: produzir a mais ousada das afirmações na mais inocente das linguagens. É uma fórmula que detém numerosas qualidades. Vejamos algumas.
Radicalmente anti-académica, ela não dá sentenças, mas opiniões, e o que nela parece erudição é coisa menos tremenda: é informação. Depois, sob o álibi da leviandade, ela permite asserções impiedosas, irreverentes, excessivas mesmo. A distância entre o testemunho e a blague torna-se problemática e cedo impõe um separar das águas: ou há uma adesão a essa indefinição, e entrada no fascínio do jogo; ou se chama por socorro ao senso comum, e a partida acaba logo aí. Para quem escolhe a saída lúdica, o mundo transforma-se, tal como já possivelmente para os autores, numa fonte ininterrupta de folguedo mental. Qualquer trivialidade se muda em excitante. Já não se está longe de uma experiência, paradisíaca, de simpatia universal. É que ninguém que seja lúdico é verdadeiramente odiável. A sisudez, sim, essa é fatal.
Esse investimento na ‘diversão’ traz ainda outra vantagem: ele garante ao produto uma sobrevivência. Assim se explica que o Artur Portela dos tempos do PREC ainda hoje se deixe ler com proveito e entusiasmo. «À abordagem’, de Setembro de 1975, que faz a denúncia de intimidações de um dos centros do poder, continua a valer como murro no rosto de qualquer prepotência. O retrato do governador brasileiro Carlos Lacerda, de Dezembro de 1974, será, quando já ninguém se recordar do homem, tão reconhecível como é ainda o ‘Pacheco’ de Fradique Mendes. Em contrapartida, as crónicas de Manuel de Portugal coevas do PREC, no Tempo, serão sempre justas na sua indignação, mas há muito se confinaram ao estatuto irremediável de ‘documento’.
*
A escrita de Vasco Pulido Valente, diz-se, é ‘simples’. Afirmou-o Esteves Cardoso, corrobora António Guerreiro («As suas crónicas são simples, muito simples», Expresso, 8.9.90). A minha impressão é, pelo contrário, ser ele singularmente complexo. É possível que todos aqui tenham razão. A complexidade pode constituir o preço dessa outra qualidade efectivamente notória: uma intensa legibilidade.
Porque Pulido Valente é, inquestionavelmente, pujante e imaginoso. Se Miguel resgata o banal (as ‘coisas’, os ‘problemas’, as ‘aventuras’) com a candura de uma linguagem linear, Vasco trucida nulidades (os seus políticos, sobretudo) sob a mais acabada das expressões. Os mais brilhantes préstimos do idioma, investe-os ele em qualquer vil defunto. Miguel, com meios simples, mas de que ninguém hoje se lembraria (a não ser os seus, alguns bons, epígonos), entretém-se a construir, mesmo sem grande convicção. Vasco, sem convicção nenhuma, num esforço que ninguém, nem o seu leitor, parece merecer, faz um estendal de ruínas.
Por 1974, vemo-lo denunciar alguns vanguardismos tresloucados no cinema ou na crítica literária nacionais. É, então, um observador compadecido: ainda discute, ainda argumenta, ainda apela para uma razão que pressupõe abordável. Um Pulido hoje inaudito refreia-se, proclamando que «há regras de conversa que não estou disposto a dispensar». Mesmo anos depois, aparece-nos alimentando acerca dos responsáveis políticos do momento «um optimismo moderado» (DN, Jan. l977). Suma consideração, o folhetinista banha-se num ‘nós’ informe: «Os dirigentes que nos couberam em sorte e até aqueles que escolhemos nunca à nossa frente hesitaram, duvidaram, se interrogaram.» Morigerador, vai ao ponto de sugerir a Eanes a condecoração de cinquenta ou cem cidadãos, assim se oferecendo «exemplos ao País».
Esta gentileza poderia fazer crer que o colunista ‘evoluiu’ para o sátiro que hoje vemos. Ilusão. A fruição mordaz acompanhou-o de tenra idade. Há que dar crédito, por uma vez, à confidência de ter o seu primeiro escrito, na adolescência, sido decalcado sobre a Campanha Alegre de Eça (revista K, nº 1). Desde que o podemos ler, que a sua linguagem vive duma cuidadosa, duma crescentemente aprimorada provocação. Isso implica trabalhamentos do idioma, de que nos deteremos a assinalar aqui um ou outro. É uma abordagem superficial, picuinhas, embora útil. Num autor como este, fará sempre sentido o ‘princípio da conspiração’, que manda que a nada se chame inocente.
Com certa facilidade se detectam nele ‘derivas semânticas’, isto é, inflexões ousadas (pontuais ou sistemáticas) na significação dos vocábulos. É essa uma arma de particular contundência, pelos seus efeitos desestabilizadores, e por isso relativizantes do objecto (indivíduo ou causa) em questão. São exemplo disso adjectivações do tipo: ‘uma devastadora generalização’, ‘a triste celebridade lisboeta’, ‘um caldo deprimente’ (deprimente, devastador e o super-queirosiano ‘vasto’ irão tornar-se tiques), ‘uma comovedora sessão na Gulbenkian’, enfim (e para ficar pelos anos 70), ‘directores, presidentes e outras difusas autoridades’. Exploração semelhante, tardiamente embora, é feita do advérbio. E surgem coisas como ‘a dúzia de livros que me passou esforçadamente pelas mãos’, ‘uns tantos queixumes clássicos, que pareciam indicar energicamente o contrário’, ‘Portugal chora desabaladamente’, etc. Efeitos semelhantes se poderiam observar no verbo. Mas, mais importante, mesmo na ausência dessa manipulação semântica, nunca em Pulido Valente se obtém uma neutralidade autêntica. Nele, pode dizer-se, tudo é terreno minado.
Mas todos esses processos elementares só adquirem força graças a um habilidoso manejamento do período. E, há que dizê-lo, poucos escritores são hoje entre nós tão ‘citáveis’ como este. A tentação é grande. Façamos o nosso florilégio.
«Em 25 de Abril, havia apenas três centenas de presos em Peniche e Caxias, o que não atesta a benignidade do regime, mas, pelo contrário, a sua brutal eficácia» (Jan. 77). «A nossa vida pública está cheia de cadáveres de jovens com um passado prometedor» (Abril 77). «A ignorância excita o atrevimento» (Março 79). «Em Portugal, os ricos são poucos para meter os pobres na ordem, sem polícia política; e os pobres, quando metem os ricos na ordem, ficam ainda mais pobres» (Out. 88). «Nas classes médias, salvas do comunismo, da gravidez e da sombra da miséria, não há público para Deus» (Ag. 89). «Temos, na Europa e no mundo, a exaltante missão de fazer recados e não arranjar sarilhos» (Junho 90). «A miséria camponesa não escolhe a poluição, escolhe o emprego» (Set. 90).
*
A velha curiosidade: até que ponto está um escritor consciente dos seus cometimentos? Nalguns casos, e Pulido é um deles, a confirmação pode surgir por via indirecta: aquilo que em outros se aplaude, ou critica, permite identificar opções.
Numa colaboração no Cinéfilo (nº 21, possivelmente de 1974, incluída no País das Maravilhas), objurga Pulido a quantos se exprimem «com total irresponsabilidade terminológica, com uma sintaxe sabiamente arrevesada». Em 1985, lembrará a vantagem de se escrever (mesmo tratando-se de memórias, o caso em apreço) «com o mínimo de fluência, crueza e graça», ajuntando que os políticos «foram habituados ao estilo oratório, que constitui a perfeita negação de tudo aquilo que é estimável em prosa».
E será ela perfeita, a escrita de Vasco Pulido Valente? Baste-nos assegurar que é da melhor que se faz hoje entre nós. Quem desejar escrever bem não precisará de imitá-lo, mas lê-lo atentamente instrui. Caso as suas recentes produções de recorte autobiográfico (escrevo isto em Outubro de 90) sejam amostra de como Pulido se comporta em ficção, há razões para augurar-lhe o melhor nesse domínio.
Tratando-se, como se trata, de alguém que de contínuo subverte a engenharia semântica do idioma, torna-se difícil, ainda assim, apanhá-lo em falta, detectar-lhe uma redundância (ou seria esta, falando de uma obra de Oliveira Martins: «No universo maniqueísta do ‘Portugal Contemporâneo’ só há bons e maus»). O seu domínio de conceitos ‒ mesmo, ou sobretudo, nos apertos, patentemente procurados, do paradoxo ‒ elimina sistematicamente qualquer excedente ou qualquer escassez. Dito de outra maneira: em termos de densidade, de economia da escrita, demais tendo em conta os riscos continuadamente assumidos, Pulido pode ser considerado um mestre. Não o único, mesmo na sua geração, o que é razão de nos felicitarmos. Outros nos calharam, sirva de exemplo o virtuoso Fernando Assis Pacheco, sirva o classicizante José Quitério. Na linguagem deles, também, há uma severa medida mental, uma detida orquestração de conceitos e sonoridades, uma gestão do dito e uma gestão do implícito. É uma linguagem intrépida, mas nunca, ainda que disfarçadamente, exclamativa. («A coragem raramente se exprime pela interjeição», escreveu em 1965 Pulido Valente.) Surgem nela, por fim, frequentes dissonâncias, que depois se resolvem pelo acorde que o leitor menos espera. Escrever bem é um segredo público.
*
Mas a linguagem, sendo muito, não é ainda tudo. A estética do literato, se funciona, é por ancorar-se no que, por me faltar melhor, chamarei o ‘mito’. Algures faz Vasco Pulido Valente saber, se bem estou recordado, que a imprensa nacional lhe passa sob os olhos no intervalo entre duas torradas. O objectivo é patente: contrariar a sugestão de um Pulido Valente devorador de notícias e do opiniário alheio, importando que, pelo contrário, se lhe imagine a imprensa trazida pelo vento, a não merecer mais do que lânguida mirada aos títulos, enquanto a torrada se apronta.
É um burlesco calculado. Ele permite afirmar uma independência, sem se ter de dizer ‘Olhem esta minha insubmissão’. De igual modo não se saberá o grau de sinceridade desse abissal desdém que patenteia pelos políticos, seus exemplos definitivos de idiotice e depravação. Nada do que o político faça ‒ ou divulgue convicções, ou se exceda num embaraço, ou cite Torga ou faça o pino ‒ nada haverá de comover o folhetinista. Pode ser que Pulido seja duma rectidão pasmosa. E pode ser que, eventualmente em concomitância, não lhe apeteça desiludir quantos nele apreciam exactamente o deus tonitruante. Eles querem divertir-se, e já os pais deles diziam outrora aos profetas ‘Vá, mais outra profecia’. E ele faz a vontade.
Mas parece claro que para este crítico de sociedade, génio desassossegador, espectáculo semanal ansiado ou temido, o principal labor é o de afeiçoar um objecto estético. Não vejo razão para duvidar duma confidência recente ao JL: a de uma crónica (que ao fim e ao cabo, com atenção mediana, se deixa ler em dez minutos) chegar a custar-lhe dez, doze horas de trabalho. Ninguém destina isso à pilhéria, e mesmo um bom desassossego do país pode não justificar tanto empenho.
Mas há perguntas essenciais que, quanto sei, nunca lhe foram feitas. Por exemplo: conhece ele uma autocensura? Se sim, em que medida? Existe um limite, e se sim onde, à sua independência? A impunidade é nele um jogo, um acto de coragem ou, sabe-se lá, uma missão? Acredita o homem em valores por que vale a pena passar mal, ou interessa sobretudo ao artista o desafio periódico aos códigos da conveniência?
Importantes, estas perguntas são também actuais. A 13 de Setembro, inseria El País, num dossier sobre Portugal, uma crónica inédita do folhetinista. Aí se desdobra o conhecido rol dos nossos fracos: o desinteresse pelo império, o atraso crónico, a nossa exaltação nacionalista, ajuizada como um primitivo medo de absorção pela Europa ou pela Espanha. Um dia, garante Pulido, chegará a conta de tudo isso: «Portugal está seguramente condenado a diluirse, tarde o temprano, en el conjunto de las regiones peninsulares.»
Pode duvidar-se da oportunidade de lembrar à Europa, já informada, que continuamos dignos de dó e levianos; e de fazê-lo com a habitual fulgurância, que, se entre nós recreia os sentidos, a estranhos apenas mais convence. Essa Europa, a Espanha pelo menos, fica agora sabendo que temos um Cícero em casa. Assim, talvez não se tenha perdido tudo. Mas uma coisa é clara: o cronista Pulido Valente será um bom remédio, amargo ou doce, cada um decida, mas não foi concebido para uso externo. Há neste despiste ibérico, porém, uma vantagem, diríamos, metodológica. Graças à caricatura em que, por deficiência formal do destinatário, essa crónica castelhana se transforma, têm os admiradores do comentarista uma oportunidade única: a de finalmente saber o que sentem aqueles que sempre o detestaram.
Mas Vasco Pulido Valente, o nosso, o de trazermos por casa, tem direito a que prossigamos o jogo, a ilusão. Tem, sobretudo, direito a que o mundo que o estimula não se ponha, inesperadamente, a melhorar. Ele precisa do desarranjo, do extravio, necessita do êxito para a boçalidade, do enguiço das boas intenções.
Num mundo perfeito, Vasco Pulido Valente seria um inadaptado. E nós contaríamos, estou certo, mais um poeta lírico.
.
Da revista Ler, nº 13, 1991 [com o título “O problema de escrever”].
Reproduzido em Objectos Achados. Ensaios literários, Porto, Caixotim, 2002.
Retirado do Facebook | Mural de Fernando Venâncio

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.