Europa, colónias e velhas glórias | Carlos Matos Gomes

Porquê este reacender de labaredas do passado? Perguntava-me um amigo, natural de Angola, homem do mundo do petróleo e da defesa do meio ambiente.

A pergunta surgiu após vários artigos e reportagens a propósito do início da guerra colonial portuguesa em Angola, 1961.

África — nem conquistada nem ocupada

Uma das razões para este revivalismo colonial pode ser da ordem do subconsciente coletivo. Da ideia que os europeus construíram de si como centro do mundo e dos portugueses serem entre os europeus (com os gregos) aqueles em que, porventura, é maior a distância entre a realidade da sua história e a imagem que dela têm.

Independentemente da relação de cada um dos povos europeus com África, a África negra é o único dos continentes que os europeus dominaram, mas não conquistaram. Os europeus nunca dominaram nem conquistaram a Ásia. Nem a Índia, nem a China, nem a Indochina, nem o Japão. Todos esses imensos territórios (continentes) mantiveram no essencial as suas culturas, as suas instituições e mantêm-nas até hoje. Quanto ao continente americano, norte e sul, os europeus aniquilaram as culturas e os povos locais e ocuparam-no através da conquista.

Restou a África negra. A Europa utilizou-a durante séculos como fornecedora de escravos e após a Conferência de Berlim como fonte de matérias-primas para as máquinas a vapor da revolução industrial. Explorou-a, às riquezas e aos povos, mas nunca a conquistou, nem a ocupou, retalhou-a.

Julgo que no imaginário mais profundo dos europeus, em particular dos europeus das potências coloniais, se encontra a convicção de que deviam ter aproveitado para a dominarem e ali constituírem um refúgio. Hoje entendem África como uma oportunidade histórica perdida de a terem conquistado, porque na verdade ela foi determinante na sua história dos dois últimos séculos.

Duas guerras por África

A primeira Guerra Mundial (Grande Guerra) teve como causa o domínio de África pela Europa, quando ela foi indispensável à sua indústria e a Segunda Guerra Mundial teve como resultado o movimento descolonizador e a saída da Europa de África, nos anos 50 quando a sua exploração já podia ser levada a cabo por intermediários locais, as elites negras e mulatas que haviam criado, entretanto. Todas as potências coloniais europeias saíram de África, deixando capatazes locais (neocolonialismo) exceto Portugal.

Por não ser uma potência industrializada, Portugal não podia abdicar da soberania formal das colónias, porque perdia a situação de intermediário de matérias-primas; por questões ideológicas, as colónias disfarçavam a irrelevância de Portugal na Europa. Constituíam a última imagem de glória de Portugal, a mais pobre e dependente das antigas nações europeias que tivera expressão mundial.

Europa fora de jogo — o fim dos impérios

O pós-25 de Abril trouxe Portugal de volta à Europa, como o pequeno Estado que era, mas a Europa também já não era grande, reduzira-se a um “espaço comercial”, pouco mais que irrelevante no jogo de poder planetário, disputado pelos Estados Unidos e a Rússia, a que se juntou mais tarde a China.

É deste caldo de decadência que emerge o revivalismo a que assistimos e que vivemos. É emocionalmente justificável que a ultima geração portuguesa que teve de viver uma aventura se sinta defraudada com o cinzentismo do presente, embora não seja capaz de explicar como o futuro podia ser glorioso.

Vivere parvo — contentar-se com pouco

O revivalismo histórico da presença de Portugal em África esbarra na realidade e conduz a uma disputa entre os que defendem o paraíso perdido, de “bons velhos tempos”, com a invocação de um “patriarca”: Salazar, de facto um velho paranoico, fora da história e do senso, que aproveitou a guerra para manter a ilusão de salvador de uma entidade, a Nação, cujo passado inventou e de cujo futuro nunca cuidou; e os que reduzem a última fase da era colonial a uma manifestação daquilo que os romanos designavam por vivere parvo, contentar-se com pouco e ver pequeno, como é a “parvoíce” (pequenez) da autoflagelação por crimes e violências.

As duas posições constituem um apoucamento da importância desta guerra na História de Portugal, ao confundir causas profundas com consequências diretas e decorrentes da natureza dos homens: a sua perversidade.

É uma leitura pobre da História reduzir a uns atos violentos, por muito violentos que tenham sido, a última participação de Portugal num dos dois acontecimentos mais marcantes da História Mundial da segunda metade do século xx: o fim do movimento descolonizador europeu iniciado no pós-Segunda Guerra Mundial. O outro é a queda do Muro de Berlim e o fim da URSS, que simboliza a alteração radical da divisão do mundo saído da Conferência de Ialta.

Justiça e história

Uma questão é a da justiça, a prática de atos que devam ser levados a tribunal, outra é a análise da história. Não há, para mim, tribunais da história. A história não é um tribunal e a história dos impérios é como a de todas as obras humanas, cumpre um ciclo de nascimento, crescimento, decadência e fim, com os dramas inerentes.

Carlos Matos Gomes

Born 1946; retired military, historian

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