A IMENSA ESTUPIDEZ DE QUERER DEIXAR QUIETA A HISTÓRIA E OS CRIMES DE GUERRA, DE FORMA DESONESTA E IRRESPONSÁVEL | Alfredo Barroso

Ao invés do que sugere Miguel Sousa Tavares, no semanário Expresso, nem todos os combatentes que são envolvidos nas guerras cometem ‘crimes de guerra’, nem é compreensível que os cometam, porque há leis e convenções sobre a guerra que devem ser respeitadas. Mais: não é o facto de, no pós-guerra, prevalecer inevitavelmente a ‘justiça dos vencedores’, que inibe qualquer de nós, de denunciar que também estes cometeram vários ‘crimes de guerra’, os quais, nem por serem menos abomináveis do que os cometidos pelos vencidos, deixam de ser, também, aterradores. A grande diferença é a de que nunca serão julgados pelos vencedores, e muito menos pelos vencidos…

Se porventura existe uma qualquer ‘escala’ para a abominação, direi, então, que os terríveis e abomináveis crimes de guerra cometidos pelos nazis alemães e os fascistas italianos – quer na Guerra Civil de Espanha (1936-1939) em apoio às tropas franquistas (cujo símbolo maior é, sem dúvida, o bombardeamento de Guernica, no País Basco), quer durante a II Guerra Mundial (cujo símbolo maior, para além de outras inúmeras atrocidades, é, sem dúvida, o Holocausto, no qual foram assassinados milhões de judeus e muitos milhares de ciganos, de deficientes físicos e mentais, e de políticos antinazis comunistas, socialistas e católicos) – tais crimes são hoje considerados como a contrapartida que justifica os vários ‘crimes de guerra’ cometidos pelos aliados – cujos símbolos maiores são os bombardeamentos de Dresde (na Alemanha) e de Tóquio (no Japão), em que milhares de civis morreram queimados vivos pelas bombas incendiárias, além dos horríveis massacres cometidos pelos EUA com o lançamento das duas primeiras bombas atómicas em Hiroshima e em Nagasaki (também no Japão). Há o direito de esquecer tais atrocidades?!

Sou dos que acham que não existe – nem na vida comum, nem na vida política, nem no ordenamento jurídico democrático, e muito menos na História – qualquer “direito ao esquecimento”. E até acho vergonhoso que o Tribunal Constitucional seja agora presidido por um jurista que defende esse direito – inexistente – ao esquecimento, de nome João Caupers (colega de curso de Miguel Sousa Tavares, como este referiu) e que, a meu ver, devia ser removido do próprio TC pelos juristas que o cooptaram e que, agora, o elegeram.

Tenho à minha frente Histórias da Guerra dos Cem Anos (a qual, na realidade, decorreu entre 1337 e 1453), da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), e da Guerra dos Sete Anos (1756-1763). E, desde que as li, posso afirmar que – porventura com excepção da brutal Guerra Civil Americana ou Guerra da Secessão (1861-1865) entre os do Norte (Unionistas) e os do Sul (Confederados) – a Guerra dos Trinta Anos foi, sem dúvida, a mais cruel e devastadora de que há memória, até à eclosão da I Grande Guerra (1914-1918), da Guerra Civil de Espanha (1936-1939), da II Guerra Mundial (1939-1945) e da Guerra do Vietnam (1955-1975), na qual a prática dos bombardeamentos de napalm (a que também recorreram as tropas portuguesas em África) sobre florestas, campos de cultivo e camponeses vietnamitas, foi de uso corrente pelas tropas americanas.

Tudo isto para concluir que, a meu ver, por maior que tenha sido a valentia demonstrada por Marcelino da Mata nos cenários da Guerra Colonial (1962-1974) em que actuou, se de facto cometeu os crimes de guerra de que é acusado, não me parece que deva ser considerado um ‘herói’. Do mesmo modo me custa imaginar que seja considerado um herói da II Guerra Mundial o baronete inglês conhecido como Sir Arthur “Bomber” Harris – nomeado, em 1942, comandante-chefe do ‘Bomber Command’ da Royal Air Force e promovido a Marechal do Ar – que terá sido o responsável pela morte de quase um milhão de civis alemães, em consequência dos bombardeamentos que ele planeou e ordenou sobre mais de um milhar de cidades, vilas e aldeias alemãs, sobre as quais foram despejadas um milhão de toneladas de bombas incendiárias e explosivas, que forem assim fabricadas tendo em conta os materiais inflamáveis (sobretudo a madeira) predominantes nas habitações atingidas. Da longa série de bombardeamentos constam as bombas que devastaram a cidade de Colónia, em Maio de 1942, e as que arrasaram a cidade de Dresde, em Fevereiro de 1945. Outro tanto se diga do general norte-americano Curtis Le May – que ordenou os bombardeamentos que arrasaram Tóquio com bombas incendiárias e explosivas – e do presidente dos EUA, Harry Truman – que ordenou o lançamento das duas bombas atómicas que arrasaram Hiroshima e Nagasaki. A confirmação histórica destes factos obtive-a graças à leitura de dois livros impressionantes: a “História Natural da Destruição – Guerra Aérea e Literatura” (1999), do grande escritor alemão W .G. Sebald (1944-2001); e “O Incêndio – a Alemanha sob as bombas, 1940-1945” (2002), do historiador alemão Jörg Friedrich (1944), especialista em criminalogia da guerra, quer terrestre quer aérea, investigador dos crimes cometidos pelo Terceiro Reich, o Estado nazi, e colaborador da “Enciclopédia do Holocausto”.

Só para terminar: não é sério pegar no exemplo de um deputado e ex-governante de ‘poucochinha’ envergadura e sedento de atrair sobre si as atenções – desta vez com a ideia macaca e imbecil de ‘destruir o padrão dos Decobrimentos’ – para tentar generalizá-lo, indirecta mas sugestivamente, à classe política, sobretudo à do partido a que ele pertence, o PS. É truque barato e exemplo típico da desonestidade política e intelectual do jornalismo de baixo calibre que, infelizmente, continuamos a ter em Portugal.

Campo d’Ourique, 27 de Fevereiro de 2021

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