Trecho do livro | A Casa das Belas Adormecidas | Yasunari Kawabata

– Mamãe! – chamou a garota, como num grito contido. – Oh! Oh! A senhora vai embora? Por favor, perdoe-me, perdoe…

– Com o que está sonhando? É um sonho, é um sonho! – diante das palavras da garota que dormia, o velho Eguchi apertou-a ainda com mais força, tentando acordá-la. A tristeza contida na voz dela chamando pela mãe penetrou em seu coração. Seus seios estavam tão comprimidos contra o peito dele que estavam achatados. Ela estendeu os braços na direção dele. O teria confundido no sonho com sua mãe que desejava abraçar? Não. Embora adormecida, embora virgem, não havia a menor dúvida de que era uma coquete. Parecia que o velho Eguchi, em 67 anos de vida, nunca tivera a oportunidade de tocar com tamanha plenitude a pele de uma jovem. Se havia uma mitologia sensual, esta seria sua jovem heroína.

Começou a lhe parecer que não era apenas uma coquete, mas uma garota vítima de encantamento. Por isso, ela estava “viva mesmo adormecida”, ou seja, sua alma adormecia profundamente, mas seu corpo, ao contrário, mantinha-se acordado em toda a sua feminilidade. Não havia nela uma alma humana, apenas um corpo de mulher. Estaria tão bem treinada para servir de companhia aos velhos a ponto de a mulher da casa anunciá-la como “experiente”?

Eguchi afrouxou o braço que apertava a garota com força, abraçou-a com carinho e ajeitou seus braços nus de modo que ela o enlaçasse. E ela o abraçou docilmente. O velho manteve-se nessa posição e permaneceu quieto. Fechou os olhos. Aquecido, sentia-se num deleite. Era quase um êxtase inconsciente. Parecia compreender o bem-estar e a felicidade sentidos pelos velhotes que freqüentavam a casa. Ali eles não sentiriam apenas o pesar da velhice, sua fealdade e miséria, mas estariam se sentindo repletos de dádiva da vida jovem. Para um homem no extremo limite da sua velhice, não haveria um momento em que pudesse se esquecer por completo de si mesmo, a não ser quando envolvido por inteiro pelo corpo da jovem mulher. No entanto, estariam os velhotes pensando que compraram sem pecado as garotas adormecidas como oferenda para satisfazê-los? Ou, então, que por causa do sentimento secreto de pecado teriam um prazer ainda maior? Completamente fora de si, o velho Eguchi esquecera que a garota era a oferenda ao sacrifício, e procurou com o pé as pontas dos pés dela. Somente ali ele ainda não havia tocado. Os dedos eram longos e moviam-se gracio-sos. As articulações, de modo semelhante às dos dedos das mãos, ora se dobravam ora se desdobravam, o que já bastava para exer-cer em Eguchi a forte sedução de mulher misteriosa. Mesmo durante o sono, ela era capaz de trocar palavras de carinho com ele por meio dos pés. Entretanto, o velho contentou-se, interpretando os movimentos dos dedos dela como os de uma música hesitante e inocente, embora sensual. E continuou por algum tempo a acompanhá-la.

Parecia que a garota estava sonhando, mas teria o sonho acabado? Talvez tenha adquirido o hábito de falar e reclamar enquanto dormia em protesto aos toques insistentes dos velhotes. Eguchi pensou nessa possibilidade. Talvez fosse apenas isso. Mesmo sem falar nada e adormecida, a garota era plenamente sensual e apta a manter um diálogo com o velho apenas por meio do seu corpo. Porém, mesmo que fossem palavras desconexas em sonho, ele queria estabelecer um diálogo com ela em viva voz. Era provável que por não estar acostumado ainda com os segredos da casa, Eguchi não conseguisse desvencilhar-se dessa esperança. Perguntando a si mesmo, perplexo, o que dizer ou que parte do corpo pressionar para que a garota lhe respondesse, ele disse:

– Não está sonhando mais? Um sonho em que a sua mãe foi embora para algum lugar? – deslizou a mão ao longo da coluna, acariciando cada vértebra. Ela sacudiu os ombros e virou de bruços. Parecia ser a posição preferida dessa garota para dormir. Seu rosto continuava voltado para o lado do velho, com a mão direita abraçando de leve o travesseiro. Ela então pousou o braço esquerdo sobre o rosto dele. No entanto, não falava mais nada. O sopro suave da sua respiração chegava-lhe quente. Mas o braço sobre o rosto de Eguchi se mexia, procurando o equilíbrio. Então, com ambas as mãos, ele colocou-o sobre os seus olhos. As pontas das unhas compridas da garota arranharam de leve o lóbulo da orelha dele. A articulação do pulso dobrava-se sobre a pálpebra direita de Eguchi, de forma que a mesma ficou coberta com a parte mais fina do antebraço. Desejando conservar a posição, o velho apertou a mão da garota sobre seus olhos. O cheiro da pele dela penetrava-lhe os globos oculares e lhe proporcionava novas e fartas fantasias. Era bem nessa época do ano que duas ou três flores de peônia de inverno, banhadas pelo sol tépido como de um dia de primavera, floresciam ao pé do alto muro de pedras do velho templo da região de Yamato, e que sazanka* brancos cobriam amplamente o jardim até a beira do corredor externo do pavilhão Shisendo, onde homenageiam-se os poe-tas. Também, mais tarde, na primavera em Nara, as flores de ashibi* * e as glicínias, além das camélias despetaladas, estariam em pleno florescimento no Templo das Camélias.

* Arbusto nativo do Japão, da família das teáceas, a mesma das camélias. Enquanto estas florescem no início da primavera, os sazanka, o fazem no outono. (N.T.)
* *Arbusto da família da azálea, com flores brancas miúdas em cachos. (N.T.)

belas

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