Duas ou três coisas que sei sobre a vida | Francisco Louçã

fl(este texto foi publicado a 12 Novembro 2010; reproduzo-o agora pela mesma razão, falar aos amigos e dedicá-lo a quem me ensina toda a vida; a foto é de 1991, com João Salaviza)

Não sei como agradecer as generosas mensagens que me mandaram. Mas lembro-me de algumas coisas que a vida me tem ensinado.

Sei que tenho uma dívida. Estive uns breves dias preso em Caxias com alguns amigos, por causa de um protesto contra a guerra na passagem do ano de 1972. Desses camaradas, um deles, que já morreu, Francisco Pereira de Moura, só o voltei a encontrar muito mais tarde, quando regressei à faculdade. Tinha sido convicto católico conservador, membro da Câmara Corporativa, mas olhou para o seu país e fez frente à ditadura. Foi por isso o primeiro candidato da oposição, foi preso, voltou a ser preso. Foi demitido de professor universitário. Chegou ao 25 de Abril, foi libertado e foi ministro, e saiu quando achou que o seu tempo tinha chegado, para voltar a dedicar-se à sua paixão, o ensino. Ele sabia da dívida que tinha para com o país, o trabalhador explorado, o pobre, a mulher sem direitos, as pessoas sem dignidade. E sabia que essa dívida se paga sempre, de todas as formas. Eu sei que todos temos essa dívida.

Sei que a coragem é infinita. Estive no Chile, no Paraguai e na Argentina quando as ditaduras se tinham instalado. Encontrei padres católicos nas organizações clandestinas, trabalhadores massacrados pela vida e que se riam do desespero, os companheiros de Miguel Henriquez assassinado numa casa de Santiago, as mães da Praça de Maio que iam buscar os seus filhos que já tinha sido torturados e mortos, os índios que me falavam guarani para preservar a sua última identidade. Estive na Colômbia, e os advogados e sindicalistas que dirigiam o partido que apoiei já foram assassinados pelas milícias do narcotráfico. Para todos eles, a luta era a respiração, tudo por todos, tudo pelos outros. Aprendi que a coragem é infinita.

Sei que ninguém é feliz sozinho. Que as pessoas são imperfeitas, que buscar o génio é uma quimera, que nos cansamos uns aos outros, que há muita tristeza nas vidas, que o amor pode morrer na praia da vida quotidiana, que nunca reconhecemos quando perdemos a oportunidade de sermos generosos uns com os outros. E, no entanto, move-se, essa vagarosa terra que somos todos. E encontramos um sorriso onde não tínhamos esperança. Só agora, tão tarde, compreendo porque é que os revolucionários de 1789 escreveram “fraternidade” na bandeira tricolor. E sei que é a mais difícil das liberdades.

Sei que tudo o que existe não pode ser verdade. Foi o que me ensinou Ernst Bloch, um dos filósofos que mais aprecio e que, quando era meia-noite no século XX, o nazismo triunfava e a guerra crescia no horror infinito, veio escrever que há realidades que não são verdade. Os monstros do passado, as “forças não contemporâneas”, que um dia Goya pintou a propósito da repressão pelas tropas francesas na Espanha ocupada, e que depois renasceram em todas as guerras, dos guettos da Faixa de Gaza aos bairros bombardeados no Afeganistão ou ao muceques da cidade mais cara do mundo, Luanda – esses monstros do passado não são verdade. Mas Berlusconi e Sarkozy querem expulsar os imigrantes ou prender os ciganos e Sócrates acha que o silêncio é a diplomacia certa, Cameron despede meio milhão de funcionários públicos, ao Tejo chegam dois submarinos comprados com o favor da corrupção. Sei que os monstros do passado não são verdade.

E sei que ninguém tem a última palavra.

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Louçã

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