A Igreja Católica e o ambiente: doutrina e testemunhos | JORNAL DE LETRAS | Viriato Soromenho-Marques

JORNAL DE LETRAS Viriato Soromenho-Marques comenta a crise global do ambiente e o (não) envolvimento da Igreja Católica.

O Cristianismo não encontrou uma resposta idêntica ao lento processo de formação do que hoje se pode designar como crise ecológica, ou crise global do ambiente. Católicos, Ortodoxos e Protestantes responderam em tempos e modos diversos, como bem notou Lynn White, Jr., há quase meio século. No caso português, talvez uma das primeiras manifestações de preocupação com a salvaguarda do ambiente, onde a Igreja Católica assumiu uma posição de destaque, se encontre na fundação do Corpo Nacional de Escutas – Escutismo Católico Português, cujas raízes remontam a maio de 1923. Ao longo de quase um século de atividades, este movimento tem desempenhado um notável e pioneiro papel no desenvolvimento da consciência ecológica de muitas gerações de jovens, traduzida numa atitude de respeito pela integridade da paisagem natural, e um respeito pela diversidade biológica.
Pessoalmente, registo dois testemunhos que considero relevantes para serem partilhados por ocasião da visita a Portugal do Papa Francisco. No Outono de 1986, num período em que presidi a uma organização ambientalista na cidade de Setúbal – o Projecto Setúbal Verde – tive ensejo de travar uma longa e fascinante conversa sobre as implicações filosóficas e teológicas da proteção das espécies em perigo com o então bispo de Setúbal, D. Manuel Martins. Na altura, essa notável figura do clero estava no centro das atenções públicas pelo modo corajoso e frontal com que denunciara o aumento exponencial da pobreza e da degradação das condições sociais na Península de Setúbal. A sua palavra muito contribuiu para a realização de um importante Plano de Emergência, que canalizaria fundos e recursos que em muito contribuíram para minimizar os sofrimento e as carências de muitas centenas de famílias.
Mas nesse dia de Outono, a conversa que mantivemos a sós – num diálogo entre um jovem professor e ecologista e um dos mais respeitados pastores da Igreja Católica em Portugal – tinha como objeto criaturas ainda mais desprotegidas, e completamente destituídas de voz: as cegonhas brancas, que, nessa altura, se encontravam em acelerado recuo populacional em Portugal. Dom Manuel Martins mostrou ter um coração suficientemente amplo para dinamizar o papel que os membros do clero poderiam desempenhar na proteção dos ninhos, e na educação dos crentes para o respeito por essas criaturas tão profundamente instaladas no nosso imaginário cultural. Pouco anos depois, a população de cegonhas recuperava, em zonas críticas como o distrito de Setúbal, encontrando-se hoje completamente fora de perigo no nosso país.


O segundo testemunho, mais recente, foi suscitado por um amável convite do falecido cardeal-patriarca, D. José Policarpo (1936-2014) para se organizar uma reunião no Mosteiro de S. Vicente de Fora, em 6 de junho de 2008, com meia centena de personalidades com fortes responsabilidades na área ambiental, nos planos político, científico, educativo, cívico e cultural. Numa altura em que o debate internacional já se encontrava bem marcado pela temática crucial das alterações climáticas, foi interessante verificar como tantas das mais conhecidas figuras do ambientalismo nacional tinham sido profundamente marcadas por uma educação católica, alimentando enormes expectativas sobre o grande potencial resultante do maior envolvimento da Igreja nesta causa ecuménica de primeira grandeza.
No plano doutrinário, contudo, a visita do Papa Francisco situa-se no momento de maior maturidade conceptual do Catolicismo universal em relação aos problemas ambientais. Acertadamente, João Paulo II designou o Santo de Assis como o patrono dos ecologistas. Com a sua recente e incontornável Encíclica Laudato si, o Papa Francisco situa-se na linha direta do pensamento desta figura maior do Cristianismo. Para S. Francisco, a natureza não se reduz a um mero valor instrumental. Como que antecipando o advento do mecanismo cartesiano, em que a nossa civilização continua mergulhada (as versões do mecanismo têm-se sofisticado, “digitalizado”, mas o núcleo semântico permanece inalterável). No triângulo metafísico representado por Deus-Homem-Criaturas, Francisco de Assis assinala e acentua a vizinhança ontológica da humanidade relativamente a todas as outras criaturas (seres vivos ou entidades físicas, como a “Irmã Chama”). Nesse gesto procura S. Francisco obter um duplo efeito: primeiro, chamar a atenção para o verdadeiro abismo metafísico que é aquele que existe entre Criador e Criatura, entre a génese do Ser e o universo das criaturas, onde o homem, tem um lugar ao lado de todos os outros entes; segundo, prevenir ou reduzir a arrogância antropocêntrica face às outras criaturas, insistindo em que o único privilégio da razão humana deveria ser o da responsabilidade pelo correto cuidado pelo mundo, abrindo o caminho para uma prudente e sustentável (para usar uma expressão dos tempos atuais) habitação da Terra.
A crise ecológica está mergulhada no mistério da história. Como nos diz o Papa, no capítulo III da Laudato si, ela, tem uma “raiz humana”. Uma perigosa combinação entre tecnologia e globalização, aliada a uma visão desumana da economia, como processo de acumulação e reprodução de capital, e não como meio para vencer a pobreza e promover a emancipação dos indivíduos e dos povos. Nessa poderosa aliança reside a fonte de muitos dos males e ameaças à nossa civilização. Não se trata tanto de colocar em causa cada um desses elementos de modo autónomo e isolado (tecnologia, globalização, economia de mercado), que correspondem a capacidades e necessidades humanas, mas sim de compreender os laços patológicos que atualmente os unem numa errada hierarquia de valores.
O segredo do futuro, passará por uma nova recomposição dos laços entre esses poderosos campos da experiência e da ação, numa nova aliança destinada a reconciliar a História e a Natureza. Sem essa recomposição, tanto a Terra como os mais pobres e deserdados continuarão a ser devorados no altar de uma conceção de crescimento, sem valores que a limitem e lhe confiram propósito. Que a visita do Papa a Portugal em 2017 possa servir de estímulo para que todos nós, seja qual seja a nossa postura religiosa ou política, saibamos assumir a nossa responsabilidade ética como cidadãos do mundo, face aos desafios escatológicos deste tempo.JL

(Este texto integrará uma obra coletiva e monumental, comemorativa da recente visita do Papa Francisco a Portugal, intitulada: Portugal Católico: A Beleza na Diversidade, a sair em outubro com a chancela do Círculo de Leitores)

http://visao.sapo.pt/jornaldeletras/2017-11-03-A-Igreja-Catolica-e-o-ambiente-doutrina-e-testemunhos

 

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