PROPOSTA DE UMA SÉRIE DE TEXTOS SOBRE ROCHAS SEDIMENTARES | Início, dia 2 de Janeiro | António Galopim de Carvalho

Sendo certo que grande número dos meus leitores são professores que ensinam geologia nas nossas escolas, julgo ser oportuno facultar-lhes textos que digam muito mais e de outros ângulos do que os estereotipados e acríticos manuais de ensino.
É uma verdade indiscutível que o professor deve saber muito para além do nível exigível aos seus alunos. Só assim poderá envolvê-los na beleza dos temas que tem por missão ensinar. Essa beleza existe e é necessário destacá-la se quisermos motivar quem tem por dever de cidadania, aprender, ou seja, os estudantes.
Marcados por um ensino livresco, tantas vezes desinteressante e fastidioso, são muitos os que frequentaram Geologia e que, terminada esta fase das suas vidas, atiraram para o caixote do esquecimento o pouco que lhes foi ministrado sem entusiasmo nem beleza, que equiparo a um adestramento dos a acertarem nas perguntas dos exames. Praticamente, nada mais do que isto.
Foi o que se passou com a generalidade dos nossos adultos no activo, sejam eles juristas, economistas, militares ou marinheiros, poetas, romancistas ou jornalistas, vendedores de automóveis ou jogadores de futebol.
Se o ensino desta disciplina não for acompanhado por uma componente cultural, que sabemos existir, e prática, no sentido de a ligar ao quotidiano, tudo o que a escola lhe forneceu esfuma-se, ou deixa uma recordação de algo desinteressante.

Assim, é meu propósito dar início a uma série de textos (numerados: 1, 2, 3, etc.), por agora, alusivos às rochas sedimentares. 
Gostaria que este projecto abrangesse o maior número possível de docentes e, nesse sentido, conviria que os leitores dessem dele conhecimento aos seus colegas, numa cadeia que seria bom pudesse abarcar o nosso universo escolar.

Na imagem: camadas de calcário no Jurássico do Cabo Mondego.

António Galopim de Carvalho

Textos retirados do Facebook | Mural de António Galopim de Carvalho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DAS ROCHAS SEDIMENTARES (1)
2 de Janeiro de 2018

Geradas na interface da litosfera com a atmosfera, a hidrosfera e a biosfera, nas condições de pressão, temperatura e quimismo próprias da superfície do planeta, as rochas sedimentares são hoje entendidas como o produto da deposição gravítica de um, dois ou três dos seguintes constituintes fundamentais:

– terrígenos, como calhaus, areias, limos ou siltes e argilas, herdados por via detrítica de outras rochas preexistentes e representando 80 a 85% desses constituintes; e
– quimiogénicos, resultantes da precipitação de substâncias dissolvidas nas águas,
– biogénicos ou organogénicos, quer edificados por alguns organismos em vida como, por exemplo, os corais, quer por acumulações dos restos de outros, após a morte. como comchas, carapaça e otros restos esqueléticos.

A maioria dos autores inclui no capítulo das rochas sedimentares, não só os materiais coesos, consolidados, isto é, litificados ou petrificados, com o aspecto que todos associamos à palavra rocha, sinónimo de pedra, como também as acumulações dos seus constituintes não consolidados e, portanto, remobilizáveis, ou móveis, como são as cascalheiras, as areias ou as argilas. Falam, assim, de “rochas consolidadas” ou coesas e as “rochas móveis” ou incoesas. Há, ainda, para alguns autores as “rochas residuais”, entendidas como geradas no próprio local onde os respectivos componentes se formaram e que, portanto, não sofreram qualquer transporte. São os “alteritos” ou “rególitos” e nelas se incluem saibros ou arenas, barros, terra rossa, lateritos e bauxitos.

É necessário recuar ao século XIX, ao tempo do alemão Arnold Lasaulx (1839 – 1886), o primeiro a fazer uso do étimo latino “sedimentum”, para referir o cascalho, a areia e o loess, na sequência da sua acumulação sob a simples acção da gravidade. Este pioneiro chamou-lhes “sedimentos puros”, expressão que aplicou não só às partículas em trânsito no seio dos agentes de transporte, como aos corpos geológicos não consolidados resultantes da sua deposição. Este professor da Universidade de Bona não os incluiu entre as rochas, então ainda entendidas como um material coeso e duro, pois que, nessa altura, só os sedimentos petrificados eram entendidos como tal.
Começando por abranger apenas as rochas terrígenas, isto é, as constituídas pela acumulação de detritos (os “sedimentos puros” de Lasaulx), o âmbito das rochas que hoje apelidamos de sedimentares só mais tarde se alargou às resultantes da precipitação química de produtos dissolvidos nas águas (rochas quimiogénicas) e às constituídas pela acumulação de restos de seres vivos (rochas organogénicas ou biogénicas).

Na sistemática das rochas sedimentares é, sobretudo na classe das rochas terrígenas, que se coloca o problema da dicotomia sedimento não consolidado e rocha consolidada, ou seja, o produto sedimentar não litificado e o litificado. Tal é devido à grande visibilidade e à importância relativa dos materiais que pisamos e apanhamos nas praias, nas dunas e nos leitos a seco dos rios e ribeiros ou, ainda, dos que fazem a terra, o pó e a lama dos caminhos.
Antes de litificarem, também a grande maioria dos calcários passa por um estadio de sedimento incoerente, como os que existem e podemos observar nas actuais margens dos mares recifais. São as areias de incomparável brancura das praias e plataformas carbonatadas, as vasas da mesma natureza e os turbiditos alodápicos dos grandes fundos dessas latitudes.

Com muito menor representação à escala mundial, os sedimentos carbonatados têm, contudo, grande importância como testemunhos para a explicação da génese das correspondentes rochas litificadas. Face às rochas siliciosas, fosfatadas, ferríferas e evaporíticas, o problema da referida dicotomia praticamente não se põe.
Entre as rochas caustobiolíticas (carbonosas), o carvão fóssil e o petróleo, por exemplo, não correspondem minimamente à ideia que todos temos da palavra rocha, embora caiam no âmbito do que se convencionou definir como rocha sedimentar de origem orgânica e tenham sofrido os efeitos da “diagénese”, um tema a desenvolver no próximo capítulo.

(Aceitam-se perguntas que tenham a ver com o tema de hoje.)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DAS ROCHAS SEDIMENTARES (2)
3 de Janeiro de 2018

Nota introdutória: O Facebook não permite (ou eu não sei fazê-lo) o uso de itálicos, negritas ou mudanças de tamanho ou de tipo de letras, que ajudam a destacar palavras ou frases. O leitor deverá ter em atenção essa deficiência no textos aqui editados e colmatá-la, sempre que deseje reproduzi-los.

DIAGÉNESE, DO SEDIMENTO À ROCHA SEDIMENTAR

Quando andamos pelo campo e temos oportunidade de observar conglomerados, brechas, arenitos, xistos ou calcários, materiais que aprendemos a considerar como rochas sedimentares, e que, com escola ou sem ela, toda a gente reconhece como pedras, entidades mortas, coesas e, quase sempre, duras e quebradiças.

Muito tempo ante de serem rochas, esses materiais, foram acumulações incoesas (e, portanto, móveis ou remobilizáveis) de detritos de diversas dimensões e origens, a que podemos, com toda a propriedade chamar sedimentos. No caso das rochas sedimetares de origem detrítica (há outras de que falaremos mais tarde), que tomaremos como ponto de partida, são os seixos transportados pelos cursos de água ou os que derivam no litoral ao sabor do fluxo e refluxo das vaga e acabam por se imobilizar num local propício à sedimentação; são as areias com idêntica história e as que o vento varre de um local para depositar num outro; são as partículas de argila e outras igualmente muito finas que turvam as águas que as levam a caminho do mar ou de um lago e aí as depositam em ambientes da águas paradas sem energia que as remobilize.

No século XIII, mais de quinhentos anos antes de se falar em rochas sedimentares, Albert von Bollstadt (1206-1280), mais conhecido como Alberto, o Grande ou Alberto Magno, filósofo, teólogo católico e alquimista francês, afirmava que «o lodo alagadiço e viscoso trazido pelas águas que cimenta a terra e a transforma em pedra dura…».

Em finais do século XVIII, o geólogo escocês James Hutton (1727-1797), considerado o pai da geologia moderna, afirmava que «as camadas sedimentares foram antigos sedimentos que se transformaram em rocha».

Só mais tarde, em 1868, o geólogo alemão Karl Wilhelm von Gümbel (1823-1898) deu o nome de “diagénese” (do grego “dia”, através de, e “genesis”, origem) ao conjunto de processos que transformam os sedimentos em pedra ou, por outras palavras, os petrificam, lapidificam ou litificam. Petrificar, do latim “petra” (pedra), deu “petrificação”, lapidificar, do latim “lapis” (pedra), deu “lapidificação”, e litificar, do grego “lythós” (pedra), deu “litificação”. Quatro palavras para designar o mesmo fenómeno geológico.

A menos que não sejam destruídos prematuramente, todos depósitos naturais destes sedimentos acabam por sofrer diagénese. Distingue-se uma “diagénese precoce” ou “sindiagénese”, entendida como o conjunto complexo de processos físicos, químicos e biológicos que, imediatamente, se seguem à sedimentação, sob condições de pressão e de temperatura moderadas e em função do conteúdo e concentração de iões e de parâmetros que definem a acidez ou alcalinidade (pH) e o carácter oxidante ou redutor do meio (Eh). Esta primeira etapa da diagénese resulta de uma procura de equilíbrio entre as partículas sólidas do sedimento, a água circulante nos respectivos poros e os seres (bactérias e outros) que, numa fase inicial, os habitem.

Com o enterramento e consequente elevação da pressão e da temperatura, e em condições já abióticas, entra-se no domínio da chamada “diagénese tardia” ou “metassomática”, também conhecida por “epigénese”(um tema a desenvolver mais adiante).

Para pressões e temperaturas ainda mais elevadas, sai-se do domínio da sedimentogénese, entrando-se no do metamorfismo; as correspondentes rochas passam a ser apelidadas de metamórficas, algumas delas com total apagamento das características sedimentares originais. Outras, porém, conservam bem visíveis o essencial da sua origem sedimentar, incluindo a estratificação, pelo que têm sido classificadas entre as rochas sedimentares. É, nomeadamente, o caso dos xistos argilosos, grauvaques e quartzitos, referidos no conjunto como rochas “rochas metassedimentares” Dizemos, então, que estas rochas sofreram “anquimetamorfismo” (do grego “ankhi”, quase), isto é, um metamorfismo de muito baixo grau, ocorrente ainda muito próximo da superfície, pelo que se confunde com a diagénese. Corresponde à “epigénese” dos autores russos (in M. M. Strakhov, 1957), podendo ser vista como uma situação de fronteira entre a diagénese e o metamorfismo. É ainda o caso do carvão antracitoso, que alguns autores designam por metantracito.

As grandes transformações envolvidas na diagénese são a “compactação”, a “cimentação”, a “metassomatose” e a “recristalização”. A ordem por que são enunciados não representa necessariamente qualquer sequência nos fenómenos, podendo haver concomitância entre eles ou qualquer um deles anteceder ou preceder os restantes. Por outro lado, alguns destes fenómenos podem repetir-se em qualquer fase do processo, não sendo ainda necessário que todos tenham lugar para que haja diagénese.
(continua)

Na imagem: posição da diagénese no ciclo da rochas.

DAS ROCHAS SEDIMENTARES (3)
4 de Janeiro de 2018

DIAGÉNESE, DO SEDIMENTO À ROCHA SEDIMENTAR
(continuação)

Cmo se disse atrás, as grandes transformações envolvidas na diagénese são a “compactação”, a “cimentação”, a “metassomatose” ou “epigenia” e a “recristalização”. A ordem por que são enunciados não representa necessariamente qualquer sequência nos fenómenos, podendo haver concomitância entre eles ou qualquer um deles anteceder ou preceder os restantes. Por outro lado, alguns destes fenómenos podem repetir-se em qualquer fase do processo, não sendo ainda necessário que todos tenham lugar para que haja diagénese.

A COMPACTAÇÃO corresponde à redução de volume (60%, em média, podendo atingir 80%) do corpo sedimentar sujeito à compressão provocada pelo peso dos sedimentos que se lhe sobrepõem, com eliminação de maior ou menor quantidade da água contida nos poros que ficam, assim, mais reduzidos. Chama-se “água fóssil”, “dormente” ou “morta”, a esta água que fica aprisionada nos sedimentos e que exerce acções indutoras da diagénese e até do metamorfismo.
Este processo é particularmente acentuado e evidente nas vasas lamacentas, impregnadas de água, conduzindo por dessecação, progressivamente: a argilas, argilitos e xistos argilosos.

A compactação é o fenómeno responsável pela fissilidade de certas rochas sedimentares, em especial das detríticas de granularidade mais fina (essencialmente argilosas).
Primeiramente é expulsa a água de impregnação, acabando as partículas detríticas por se unirem umas às outras com diminuição sucessiva de porosidade e consequente impermeabilização da rocha, num processo, praticamente, irreversível.
Pelo contrário, a compactação de uma areia de quartzo não lhe elimina a porosidade que pode, em função da calibragem, permanecer entre 30 a 20%.

A CIMENTAÇÃO consiste no preenchimento dos vazios ou espaços sempre existentes entre os detritos, mesmo que compactados. Este preenchimento é feito por substâncias em suspensão ou dissolvidas nas águas que circulam através desses interstícios e aí se acumulam, preenchendo-os até os colmatarem.
Na cimentação por partículas em suspensão, como são geralmente os minerais argilosos, transportados do exterior, o processo é meramente mecânico. A rocha assim formada é um arenito argiloso, geralmente friável, que se esboroa entre os dedos ou que se desagrega quando mergulho na água.
Na cimentação resultante da cristalização a partir de substâncias em solução nas águas que penetram os vazios, há formação de novos minerais, nomeadamente carbonatos (calcite e dolomite), sílica (quartzo, calcedonite, opala), óxidos de ferro (hematite, magnetite, goethite, limonite).

Na sequência deste processo, e consoante o tipo de cimento, uma areia pode transformar-se num arenito de cimento carbonatado, silicioso ou ferruginoso. Neste contexto, aos minerais alogénicos (os detríticos, assim chamados em virtude de serem oriundos do exterior) associam-se novos minerais, gerados no decurso da diagénese, usualmente apelidados de autigénicos (por oposição a alogénicos).

Nas nas areias litorais submersas e sob condições propícias, a cimentação é precoce e conduz à formação de uma camada superficial endurecida, internacionalmente designada por “beachrock” (praialito, na versão aportuguesada), isto é, rocha formada por cimentação da areia de praia.
Nas situações de afundamento acentuado tem lugar a cimentação por enterramento, na qual os grãos se interdigerem, fenómeno que alguns autores referem por “canibalização”.

Em algumas sequência sedimentares são os arenitos cimentados por betumes, dos quais se pode extrair petróleo com rentabilidade, por destilação a cerca de 350 oC. Do latim “bitumen”, esta substância natural, negra, de aparência sólida ou muitíssimo viscosa, com capacidade para aglutinar sedimentos, à semelhança de um cimento, é conhecida e explorada desde a Antiguidade, na Babilónia. Essencialmente formada por hidrocarbonetos muito complexos e densos, derivados dos petróleos líquidos, é igualmente conhecida por asfalto, do grego “asfaltos”.

A RECRISTALIZAÇÃO tem lugar na sequência da adaptação das estruturas cristalinas dos minerais sedimentares às novas condições termodinâmicas da diagénese, Como o nome indica, consiste num rearranjo cristalino dos componentes da rocha. Requer a existência de um solvente, no geral, a água, e condições de pressão e temperatura adequadas. Via de regra, conduz ao aumento da dimensão dos cristais. É este processo que, num arenito quártzico, explica a transformação da calcedonite do cimento em quartzo, transformando-o num quartzito.

Considerada como um caso particular da recristalização, a METASSOMATOSE ou EPIGENIA é a transformação que permite a troca de substâncias químicas (em qualquer fase da diagénese), realizada entre os componentes iniciais da rocha e eventuais soluções que nela penetram. Pouco representada entre as rochas sedimentares detríticas, é particularmente entre as rochas carbonatadas (calcários e dolomitos), um tema a tratar num outro texto.

A diagénese não é exclusiva dos ambientes subaquáticos. Pode ter lugar em condições subaéreas, em zonas vadosas ou freáticas, carácter que se acentua através das expressões “diagénese meteórica” ou “eodiagénese” (do grego “eós”, aurora, começo) e, ainda, “pedodiagénese”. As crostas pedogénicas (calcretos, silcretos, ferricretos, etc.), um tema a desenvolver oportunamente, têm lugar ao nível do solo.

A sistemática das rochas sedimentares tem em consideração os efeitos das transformações sofridas no decurso das diagéneses precoce e tardia. A compactação, a eventual introdução de uma matriz ou de um cimento, as substituições químicas (epigenia ou metassomatose) e as recristalizações, entre outras transformações sofridas, após a sedimentação, modificam de forma mais ou menos pronunciada, muitas das características iniciais do sedimento, entre as quais a textura e/ou a composição mineralógica. Tais modificações não só dificultam a tarefa de interpretação geológica (procedência, tipo de transporte, meio de sedimentação, paleogeografia, paleoclima, etc.), como introduzem características a ter em conta na classificação sistemática e na nomenclatura.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DAS ROCHAS SEDIMENTARES (4)
5 de Janeiro de 2018

COMO SE DAS PÁGINAS DE UM LIVRO SE TRATASSE, AS CAMADAS DE ROCHAS SEDIMENTARES CONTAM-NOS MUITOS CAPÍTULOS DA HISTÓRIA DA TERRA.

No século X, a Enciclopédia de os Irmãos da Pureza, numa antecipação notável, ensinava que «a erosão destrói perpetuamente as montanhas e que o escorrer das águas pluviais arrasta rochedos, pedras e areia para o leito das torrentes e rios». Ensinava, ainda, que, «por seu turno, ao escoarem-se, os rios acarretam tais materiais para os pântanos, lagos e mares, onde os acumulam sob a forma de camadas sobrepostas».
Irmãos da Pureza, ou “Ikhwan al-Safa” em árabe, foi uma fraternidade de filósofos ismaelitas que se admite terem vivido no século X, em Bassorá, no Iraque. Colectivamente, escreveram uma enciclopédia com mais de 50 volumes (“Rasa’il Ikhwan al-safa”) inspirada nas filosofias pitagóricas, platónicas e neoplatónicas, aristotélicas e na do próprio Corão. O principal objectivo destes “Irmãos” era o conhecimento do Universo, na sua grande harmonia e beleza, apontando a necessidade de uma preocupação que fosse para além da existência material.
Nesta enciclopédia, iniciada nos primeiros anos de 900 e acabada por volta de 980, descreveram, como notável modernidade, os conceitos de erosão, transporte e sedimentação.

Sete séculos passados, o dinamarquês Nicolau Steno (1638 – 1696) afirmava que «as camadas sedimentares são formadas paralelamente à horizontal, em obediência à gravidade terrestre, e que, quando estas se encontram inclinadas, tal é devido a deformações posteriores». Afirmava, ainda, que «qualquer camada é mais moderna do que a que lhe fica por baixo e mais antiga do que a que lhe está por cima». À luz dos conhecimentos actuais, estas afirmações são por demais evidentes, mas, no séc. XVII, foram inovação face ao saber antigo.

Anos mais tarde, o escocês James Hutton (1726 – 1797), reconhecido como “pai da geologia”, defendia que a história da Terra podia ser decifrada a partir do estudo das rochas sedimentares estratificadas, uma vez que estas se geraram de modo comparável ao dos modernos sedimentos em formação sob os nossos olhos, na certeza de que foram antigos sedimentos posteriormente petrificados, isto é, transformados em rocha. Na sequência desta visão, unanimemente aceite pelos seus pares, as sucessões ou séries de camadas sedimentares passaram a ser vistas como “arquivos da natureza” ou “anais do mundo físico”, duas imagens afins que estão na base de uma outra, muito divulgada, que compara as referidas camadas às páginas de um livro onde se pode ler a história do nosso planeta.

A estratificação é, pois uma das características mais visíveis e marcantes das rochas sedimentares, embora não lhes seja exclusiva. Com efeito, também a alternância de materiais vulcânicos em camadas de lava solidificada (basalto, por exemplo) ou de cinzas e outros piroclastos, assumem carácter estratificado.

Os estratos de rochas sedimentares encontram-se separados por “juntas de estratificação”, ou seja, superfícies que testemunham pausas ou mudanças bruscas na sedimentação dos materiais que os constituem. Um estrato, ou uma camada é, pois, uma dada espessura de rocha separada das contíguas pelas referidas juntas. Por outras palavras, qualquer perturbação no processo de sedimentação, como sejam, pausas, mudanças das características físicas (capacidade de agente de transporte, temperarura) ou químicas no local de deposição, ou variações bruscas dos materiais (sedimentos) ali chegados, fica assinalada por uma descontinuidade, posta em evidência pela superfície que separa as duas camadas contíguas, ou seja, a “junta de estratificação”.

A espessura das camadas varia entre valores da ordem do centímetro à da dezena de metros. Em princípio, quanto maior for a espessura maior foi a estabilidade do ambiente de sedimentação. Pelo contrário, as camadas muito delgadas indicam grande instabilidade. A relativa homogeneidade da rocha no interior de uma camada resulta de um processo sedimentar regular e contínuo, durante um dado intervalo de tempo, em que se mantêm constantes as características ambientais e o tipo de materiais em deposição.

As camadas sedimentares podem ter grande desenvolvimento lateral, sobretudo as formadas em meio marinho, por ser aqui que se verificam as maiores extensões de áreas sujeitas a sedimentação ou, por outras palavras, por ser o mar a mais ampla das bacias. Podem, pelo contrário, corresponder a episódios sedimentares localizados e, nestes casos, as respectivas camadas terminam, muitas vezes, em cunha, assumindo aspecto lenticular.

O estudo das rochas sedimentares estratificadas, isto é, a estratigrafia, visa com particular interesse os aspectos ligados à sua idade, quer pela simples análise das relações geométricas entre as camadas ou entre estas e outros corpos geológicos, quer através da identificação dos fósseis nelas contidos. As relações geométricas existentes entre as camadas de uma sequência sedimentar tornam possível a sua seriação no tempo, uma vez que a sucessão destas unidades reflecte, por ordem cronológica, os acontecimentos geológicos que lhes deram origem ou com elas relacionados. Dizem-nos, por exemplo, que uma dada camada é mais antiga ou mais moderna do que outra, pelas posições que ocupam entre si.

A análise das relações geométricas entre os estratos conduziu, de imediato, como atrás se disse, à noção de idade relativa e ao estabelecimento de escalas de tempo relativo, como é a escala litoestratigráfica, baseada na litologia, isto é, nos tipo de rocha.
Os fósseis, como também já foi dito, permitem, em grande número de casos, atribuir idade relativa às rochas que os encerram, referida a intervalos de tempo mais ou menos restritos, em função do maior ou menor valor que tenham para esse tipo de informações. Fósseis correspondentes a seres ou conjunto de seres, de presença muito efémera, permitem datações mais seguras e referentes a intervalos de tempo mais curtos, ao contrário do que se passa com os de grande longevidade à escala geológica. Consideram-se da mesma idade duas camadas ou conjuntos de camadas que contenham os mesmos fósseis, ainda que separadas e distantes entre si.

As sucessivas formas de vida, cujos restos fossilizados se encontram no registo estratigráfico à escala mundial, representam elos de uma cadeia evolutiva seriada no tempo, pelo que permitiram a elaboração de escalas bioestratigráficas. Um tal avanço, notável, da estratigrafia, ficou a dever-se ao trabalho e às ideias de insignes paleontólogos, sobretudo franceses e ingleses, ao longo do século XIX e inícios do século XX.

A partir de finais deste século, os geólogos tentaram diversas vias para quantificar as escalas do tempo geológico, ou seja, referi-las a uma cronologia expressa em números e, portanto, com valor absoluto. Entre estas vias, uma única se mostrou eficaz, tendo sido objecto de continuidade e aperfeiçoamento a partir dos anos cinquenta do século XX. É a que, com base no trabalho dos físicos da época, utiliza o comportamento de alguns isótopos radioactivos de elementos químicos constituintes de alguns minerais das rochas, como são o isótopo 40 do potássio (40K), o isótopo 87 do rubídio (87Rb), os isótopos 235 e 238 do urânio (235U e 238U), o isótopo 232 do tório (232Th) e o isótopo 14 do carbono (14C), entre outros. As datações isotópicas têm vindo progressivamente a enquadrar cronologicamente, em termos absolutos, as atrás citadas escalas estratigráficas, integrando-as numa outra conhecida por escala cronostratigráfica, expressa em milhões de anos. Constantemente actualizada e aperfeiçoada, na medida em que, por todo o mundo, se vão sucedendo as observações no terreno e as determinações de idade isotópica, a escala cronostratigráfica baseia-se na seriação temporal dos principais acontecimentos ocorridos na Terra, desde a sua origem, como planeta diferenciado, até aos tempos recentes. Não obstante os progressos científicos e tecnológicos no que respeita aos equipamentos laboratoriais, este calendário geológico deve continuar a ser tido como uma aproximação em constante melhoramento.

 

 

 

 

 

 

 

 

DAS ROCHAS SEDIMENTARES (5)
6 DE JANEIRO DE 2018

FILHAS DA TERRA E DO SOL, A GÉNESE DAS ROCHAS SEDIMENTARES

Antes de mais, lembremos que a génese das rochas sedimentares é um dos grandes processos geológicos assegurados pela energia solar, a par de outros, com destaque para a circulação atmosférica, a erosão do relevo (morfogénese), a formação e evolução dos solos (pedogénese) e a génese e manutenção da Vida (biogénese).

Filhas da Terra e do Sol é uma expressão de estilo para dizer, em sentido figurado, que as rochas sedimentares são fruto de um conjunto de processos geológicos gerados na Terra “fecundada” pela energia radiante do Sol.
Em 2003, escrevi “As rochas sedimentares trazem consigo, não só as marcas dos seus progenitores, mas também as das condições ambientais em que foram geradas e, muitas delas, ainda, a data do seu nascimento”. Esta afirmação é mais do que suficiente para pôr em destaque a importância da rochas sedimentares no conhecimento da história do nosso planeta, ou seja, na Geologia.

A zonalidade climática do globo, o aquecimento e circulação das massas de ar na atmosfera (vento), a evaporação da água dos oceanos, água que os ventos transportam sobre as terras emersas, provocando erosão, e a fotossíntese realizada pelas plantas constituem exemplos da importância energia radiante do Sol nos processos decorrentes à superfície da Terra. Estimada em cerca de 2,4×1021 quilocalorias por ano, só pouco mais de metade dessa energia é absorvida pela atmosfera e pela superfície da Terra, alimentando o seu geodinamismo externo. A outra parte é reflectida para o espaço exterior.

Todos estes processos intervêm, directa ou indirectamente, na formação das rochas sedimentares. Do conjunto de processos envolvidos na formação destas rochas fazem parte a alteração meteórica (meteorização) e desagregação das rochas aflorantes, a erosão e o transporte dos materiais alterados e erodidos, nomeadamente, produtos químicos dissolvidos nas águas e detritos (ou clastos) de dimensões variadas, entre muito finos (argilas), finos (areias), médios (cascalho, seixos) e grosseiros (blocos). Logo que estes materiais atinjam um ambiente favorável à sua deposição, por gravidade, tem lugar a sedimentação.

Para além da componente química e detrítica, muitas rochas sedimentares apresentam uma outra, de natureza biológica, que tanto pode ser o constituinte predominante ou, mesmo, exclusivo, como pode limitar-se a uma representação menor, ou mesmo, vestigial.

Expostas ao ar (com oxigénio e dióxido de carbono), à chuva e às diferenças de temperatura, as rochas aflorantes à superfície da Terra sofrem meteorização, isto porque os seus minerais se alteram quimicamente e se desagregam. O granito e outras rochas afins, transformam-se num material “apodrecido”, um saibro areento e barrento, que se desagrega sob a pressão dos dedos. A parte areenta é maioritariamente constituída pelos grãos de quartzo (que não se altera) e a parte barrenta é, sobretudo, formada por minerais de argila resultantes da alteração química dos feldspatos. É esta componente argilosa que faz a lama dos caminhos em tempo de chuva ou a poeira dos mesmos em tempo seco. Nestas mesmas rochas, a mica preta, que tem ferro na sua composição, exposta ao ar e em presença da humidade, gera óxidos de ferro hidratados, que tingem a rocha de tons acastanhados e castanho-amarelados.
O solo, como se verá mais adiante, não é mais do que a capa de alteração superficial das rochas, ocupada por uma componente orgânica viva e não viva, constituindo o principal suporte da cobertura vegetal.

Cumprida a alteração e a desagregação das rochas, tem lugar a erosão e o transporte dos materiais desagregados, processos nos quais intervêm, simultaneamente, vários agentes. Quem não viu o levantar do chão de poeiras e até de areias sopradas pelo vento? Isso é erosão e transporte. Do mesmo modo, os barrancos abertos no solo, em tempo de enxurradas, resultam de um processo erosivo atribuível às águas pluviais e de escorrência. A água turva de rios e ribeiros mostra que estão a transportar em suspensão partículas muito finas (argilas, limo e areias finas) cujo destino final é, quase sempre, o mar. Ao incidir obliquamente sobre um litoral arenoso, a ondulação (vaga) cria correntes que promovem a deriva das areias ao longo da costa. Nas regiões árcticas e em alta montanha, os glaciares, enormes línguas de gelo descendo os vales, arrancam e transportam grandes quantidades de detritos de todas as dimensões designados, no conjunto, por moreias.

Na sequência da meteorização, partes importantes do sódio, do potássio, do cálcio e do magnésio, entre outros elementos comuns nos minerais das rochas, são solubilizadas pelas águas de infiltração, águas que passam aos aquíferos, depois aos rios e que, por fim, atingem os lagos ou o mar, aumentando-lhes constantemente a salinidade. Estes sais em solução na água, ou precipitam directamente, sempre que as condições o permitirem (evaporação, por exemplo), gerando rochas sedimentares salinas como o sal-gema (cloreto de sódio) e o gesso (sulfato de cálcio hidratado), ou são consumidos por organismos vivos na produção dos respectivos esqueletos. Destes esqueletos uns são de natureza calcária (carbonato de cálcio), nas conchas dos moluscos, ouriços-do-mar, corais, etc.; outros de natureza siliciosa, em microrganismos vários, em especial diatomáceas e radiolários. Geram-se, assim, a grande maioria dos calcários e das rochas siliciosas (silicitos), como o diatomito e o sílex.

Qualquer processo de transporte, seja ele eólico, fluvial, marinho ou glaciário, termina com a deposição ou sedimentação dos materiais transportados, sempre que perde competência, um aspecto que se relaciona com características do agente (velocidade, densidade, viscosidade) e da topografia (declive).

Mas o mundo das rochas sedimentares é muito mais vasto e variado. Para além das rochas detríticas, como argilas, argilitos e xistos argilosos, areias e arenitos, cascalho e conglomerados, dos calcários e dos silicitos, há outras mais, exemplificadas pelos fosforitos, ricos em fosfato de cálcio, pelos ferrólitos, resultantes da deposição de óxidos e outros minerais com ferro. Não sendo rochas, têm sido incluídos, na sistemática das rochas sedimentares, os carvões fósseis e o petróleo, este gerado a partir de microrganismos marinhos, através de um processo complexo de transformações, no subsolo, no qual a matéria orgânica dá origem a hidrocarbonetos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DAS ROCHAS SEDIMENTARES (6)
7 de Janeiro de 2018

SEDIMENTOLOGIA E ROCHAS SEDIMENTARES

A sedimentologia, como a definiu H. A. Wadell, em 1932, é o estudo científico dos sedimentos, quer dos depositados e litificados, quer dos que se encontram em deposição temporária, quer ainda dos que se mantêm em trânsito. Como disciplina especializada, a Sedimentologia teve início na década de 40 do século passado, afirmando-se como uma das mais importantes das Ciências da Terra, desenvolvendo tecnologias e metodologias adequadas ao estudo das rochas sedimentares, desde a sua génese (sedimentogénese) e eventuais transformações (diagénese), à respectiva localização no espaço e no tempo, em estreita associação com a Paleontologia, a Estratigrafia e a Geocronologia e, ainda, à sua utilização como georrecursos.

“A Sedimentologia justifica-se pelo leque de aplicações práticas em que pode ser envolvida”, escreveu, em 2003, o Prof. Soares de Carvalho, da Universidade do Minho. Para nos darmos conta da oportunidade desta afirmação basta pensar no interesse posto na prospecção, exploração e usos industriais dos combustíveis fósseis, dos calcários, das areias e argilas, do sal-gema e, ainda, nas suas aplicações em hidrogeologia, geologia do ambiente, geologia de engenharia e em problemas inerentes ao ordenamento do território.

Sedimentologia é, pois, outra maneira de dizer Petrologia Sedimentar, expressão que se não deve confundir com Petrografia Sedimentar, uma vez que petrografia é o estudo das rochas, visando a sua descrição, identificação e classificação, e petrologia, mais abrangente, é a ciência das rochas, na sua globalidade, incluindo a interpretação dos processos genéticos.

“Terrae adquae Solis filiae”, expressão latina que quer dizer “as filhas da Terra e do Sol”, é, como já foi dito num dos textos anteriores, uma maneira alegórica de referir as rochas sedimentares. Na mesma alegoria, pode dizer-se que, fecundada pela radiação solar, indutora dos processos geodinâmicos e biológicos próprios da sua capa externa, a mãe Terra dá nascimento às rochas sedimentares, outra categoria das suas criações. As rochas sedimentares trazem consigo não só as marcas dos seus progenitores, mas também as das condições ambientais em que foram geradas e, muitas delas, ainda, a data do seu nascimento.

As rochas sedimentares no seu todo, desde as mais recentes, incoesas e móveis (como as areias) às mais antigas, compactadas e consolidadas, são consequência de um conjunto de condições próprias e originais da superfície do nosso Planeta. São elas: 1) uma atmosfera oxidante (a partir de uma certa altura) e, em grande parte, húmida, particularmente agressiva para os minerais das rochas aflorantes; 2) uma hidrosfera que promove não só a alteração química das rochas, mas também a erosão, o transporte e a deposição dos sedimentos; 3) a distância a que se encontra do Sol, permitindo-lhe o fluxo de energia radiante necessária e suficiente aos processos inerentes à sua formação e que também lhe assegura a Vida nos mais variados ambientes da sua superfície.

Sem atmosfera, hidrosfera e biosfera não se teriam formado os sedimentos e as rochas sedimentares que, por todo o lado, nos rodeiam. Na ausência destas geosferas, a superfície terrestre estaria, à semelhança da Lua, reduzida a uma capa de rególito, isto é, de poeiras e fragmentos rochosos resultantes dos impactes meteoríticos ocorridos ao longo de milhares de milhões de anos. Face a esta realidade, a Sedimentologia não pode deixar de ser entendida como uma disciplina fundamental no âmbito das ciências geológicas.

As rochas sedimentares representam um conjunto particular de produtos naturais gerados na parte mais externa da crosta terrestre e, portanto, nas condições de pressão e temperatura próprias da superfície, ocupando uma posição bem delimitada no ciclo das rochas. Consumindo, sobretudo, energia solar, a sedimentogénese é aceite como uma das expressões da geodinâmica externa, a par da erosão do relevo, da formação dos solos e do aparecimento e manutenção da Vida. Geradas na interface da litosfera com as atmosfera, hidrosfera e biosfera, as rochas sedimentares são, voltamos a dizer, essencialmente constituídas por um, dois ou três dos seguintes componentes fundamentais: 1) terrígenos, herdados por via detrítica de outras rochas preexistentes; 2) quimiogénicos, resultantes da precipitação de substâncias dissolvidas nas águas; e 3) biogénicos, quer edificados por alguns organismos em vida, quer acumulados detriticamente a partir de restos esqueléticos, após a morte dos respectivos seres.

Se, em termos de volume, as rochas sedimentares representam apenas 5% do volume da crosta terrestre (contra 95% das rochas ígneas e metamórficas), tal é devido ao conceito implícito no respectivo qualificativo. Porém, tendo em conta que a grande maioria das rochas metamórficas como xistos, metagrauvaques, mármores, quartzitos e outras, são materiais litológicos transformados a partir de rochas sedimentares preexistentes, aquela cifra aumenta substancialmente. Aumenta ainda mais se nos lembrarmos que a maior parte dos granitos e rochas afins resultaram da fusão parcial (anatexia) de rochas sedimentares e metamórficas. Em termos de área exposta, as rochas sedimentares perfazem cerca de 75% das terras emersas e cobrem a maior parte dos fundos marinhos, embora neste domínio a sua espessura seja ínfima, se comparada aos milhares de metros das acumulações integradas na arquitectura da crosta continental, isto é, nos continentes, incluindo as margens continentais submersas.

Na imagem: camadas de calcário do Cretácico, na Av. Gulbenkian, em Lisboa

DAS ROCHAS SEDIMENTARES (7)
8 de Janeiro de 2018

CLASSIFICAÇÃO DAS ROCHAS SEDIMENTARES

“Nas rochas sedimentares é evidente a existência de todos os termos de transição entre os grupos (leia-se classes) estabelecidos subjectivamente pelo Homem”. Com esta observação, escrita pelo Prof. Carlos Romariz, em 1966, pretende-se realçar que toda e qualquer classificação destas e de outras rochas é artificial.

Uma classificação é uma estrutura abstracta imposta a uma colecção de objectos pela inteligência humana…deve ser abrangente mas discriminatória, capaz de agregar todos os objectos do domínio classificado, e as classes devem ser mutuamente exclusivas, sendo um dado objecto apenas atribuível a uma única classe. Com esta citação, do Prof Luis Aires-Barros, 2001, não só se acentua o carácter artificial da classificação, como se lhe define a amplitude e limites.

As mais antigas classificações das rochas, à semelhança das dos seres vivos, eram designadas por Sistemas (do grego “systema”, que significa reunião de diversos objectos num só corpo; grupo, conjunto) e, assim, classificar, isto é, separar por classes, é o mesmo do que sistematizar e classificação é sinónimo de sistematização. Nesta óptica, a expressão classificação sistemática é uma redundância desnecessária que, não obstante, se lê frequentemente. Classificar consiste, pois, em identificar e arrumar as partes de um todo, segundo um critério escolhido para o efeito, com vista a conhecê-las melhor e, assim, melhor conhecer, também, o todo.

Os primórdios
Sem esquecer as abordagens divulgadas por Avicena (980-1037), Agricola (494-1555) e muitos outros, ao longo da Idade Média, o século XIX foi pródigo na procura de classificações dos produtos do “Reino Mineral”, num tempo em que minerais e rochas figuravam ainda, lado a lado, nas várias propostas de arrumo.

No seu célebre Natursystem des Mineralreichs, Karl von Lineu (1707-1778) tentou, sem êxito, adaptar aos minerais e às rochas os seus critérios que tão bem se têm mantido na sistemática e nomenclatura biológicas. Segundo ele, o arenito pertencia à classe Petrae (pedras), à ordem Agregata e ao género Arena (areia), no qual distinguia várias espécies, como, por exemplo, Arena riparia (areia fluvial). Acontece, porém, que o conceito de espécie, tal como o entendemos para os seres vivos e, até, para os minerais, não tem aplicação nas rochas, face às quais se fala, sim, de tipos e não de espécies.

Além da de Lineu, ficaram na história das ciências da Terra as classificações do século XVIII de Bromel (1730), Woltersdorf (1748), que introduziu o uso do termo rocha nas classificações, Lehman (1759), Cronstedt (1771), que usou o termo latino “sax”, para referenciar as rochas, Werner (1774), Vallerio (1778) e Daubenton (1784).

Além destas, distinguiu-se a classificação do sueco, Torbern Olof Bergman (1735-1784), químico e mineralogista de grande prestígio (em sua homenagem foi dado o nome de torbernite ao fosfato de uranilo e cobre). No seu “Manual do Mineralógico” ou “Esboço do Reino Mineral” (1782), traduzido para português em 1799, as rochas a que chamamos sedimentares estão repartidas por algumas das classes em que foram divididos os objectos do “Reino Mineral”. Entre as “TERRAS”, Bergman distinguia: “terra calcária”, “terra argilosa” (barros) e “terra quartzosa” (areias siliciosas). O conceito que então se tinha de terra era o de materiais (minerais ou rochas) decompostos e ou desagregados pelos agentes atmosféricos, de aspecto mais ou menos pulverulento ou arenoso. É nesta óptica que os franceses chamam terre (e os ingleses earth) ao barro e que nós, com toda a propriedade, chamamos terra à fracção mineral, desagregada, do solo e, até, ao próprio solo.
Entre os “SAIS”, Bergman incluía a “pedra de platre” ou “cal vitriolada” (gesso) e o sal-gema, entre outros.
Nesta classificação falava-se, ainda, em “PEDRAS SIMPLES”, entre as quais, calcários, xistos argilosos, sílex e outras rochas homogéneas à vista desarmada; e em “PEDRAS COMPOSTAS”, onde figuravam conglomerados e brechas, consideradas não cristalinas, a par de outras ditas cristalinas, como os granitos e os gnaisses; finalmente, sob a designação de “SUBSTÂNCIAS INFLAMÁVEIS”, considerava os “combustíveis fósseis” (expressão que ainda hoje se mantém), que incluíam, entre outros, os carvões, o petróleo, e o âmbar (succinum).

Em 1823 foram publicadas, na Universidade de Coimbra, as Tábuas Mineralógicas, da autoria do lente Manuel José Barjona (1758-1831), obra inspirada no Sistema de Vallerio. Nesta altura, em que, insiste-se em dizer, se não separavam os minerais das rochas, estas tábuas consideram os produtos do “Reino Mineral” distribuídos em cinco classes: “TERRAS”, “PEDRAS”, “SAIS”, “SULFURETOS E BETUMES” e “METAIS E SEMIMETAIS”. Falava-se então de “pedras argilosas” (argilas, barros, ocres, xistos e margas) e de “pedras salinas” (calcários e gesso), de “sal-gema” e de “combustíveis não metálicos” (petróleo, carvão e betume). É interessante notar que estas propostas classificativas conservavam, ainda, uma forte influência do saber medieval. Com efeito, Avicena, na viragem do séc. X para o XI, no seu tratado sobre as pedras, “De Lapidibus”, já distinguia “terras”, “pedras” e “sais”.

Classificação de Lasaulx, 1875
Até finais do século XIX e início do século XX, as rochas sedimentares ocuparam uma pequena parte da petrografia, francamente dominada pelas rochas ígneas, cuja investigação experimentou desenvolvimento notável. É nesta medida que as rochas que hoje apelidamos de sedimentares são descritas nas obras dos atrás citados pioneiros germânicos da petrografia, disciplina de cariz experimental (laboratorial) iniciada com as rochas ígneas.

Entre as classificações das rochas sedimentares, propostas a partir do terceiro quartel Século XIX, umas privilegiam a descrição das características individuais observáveis e, neste caso, dizem-se “descritivas”, outras têm por base a origem das rochas, dizendo-se, então, “genéticas”.
Um dos aspectos descritivos mais importantes é o que atende à natureza dos minerais constituintes das rochas, distribuídos entre:
(1) – “herdados” ou “detríticos”, transformados ou não durante o processo que conduziu à génese da rocha sedimentar (sedimentogenético);
(2) – “neoformados” ou “singenéticos”, gerados no decurso da diagénese (autigénicos, na expressão de muitos autores) quer precoce quer tardia e, neste caso, referida como metassomatose.
Todavia, certos aspectos genéticos valorizam a classificação. É nessa medida que algumas classificações são simultaneamente “descritivas e genéticas”.
(continua)

Na imagem; calcário conquífero. resultante da acumulação de conchas de bivalves.

DAS ROCHAS SEDIMENTARES (8)
9 de Janeiro de 2018

CLASSIFICAÇÃO DAS ROCHAS SEDIMENTARES
(continuação)

A sistemática das rochas sedimentares que, depois de décadas de investigação e de ensino, permite uma visão de conjunto destas componentes essenciais da crosta terrestre e, ao mesmo tempo, elucida sobre as suas origem e natureza (dado que assenta, simultaneamente, em bases genéticas e composicionais), considera sete conjuntos ou classes, cujas designações referem o componente predominante, a saber:

– ROCHAS TERRÍGENAS, também consideradas alogénicas ou alóctones, na medida em que os seus componentes são oriundos de outros locais e, portanto, sofreram transporte, enquanto partículas sólidas, até ao local de deposição;
– ROCHAS CARBONATADAS, incluindo calcários e dolomitos, entre os quais uns de origem orgânica, outros resultantes de processo químicos;
– ROCHAS SILICIOSAS (ou silicitos), com exclusão das de origem detrítica; incluem apenas as biogénicas e as quimiogénicas;
– ROCHAS FERRÍFERAS, no geral, bioquimiogénicas;
– ROCHAS FOSFATADAS (ou fosforitos), ricas em fosfato de cálcio;
– ROCHAS SALINAS (ou evaporitos), resultantes da precipitação de sais (sulfatos, cloretos, entre outros) por evaporação das águas que os contêm em solução;
– “ROCHA CARBONOSAS (ou caustobiólitos), incluindo carvões, petróleos, betumes e gás natural.

Um tal arrumo é consequência lógica do próprio conceito de rocha sedimentar, fundamentado em critérios genéticos e composicionais (químicos e/ou mineralógicos) que se têm revelado de utilização cómoda e eficaz. Consegue-se, assim, uma razoável classificação das rochas sedimentares, não obstante se saiba que esta via encerra dificuldades e, às vezes, contradições. Este critério, porém, é o que melhor satisfaz os propósitos pedagógicos, a nível geral, neste capítulo das ciências da Terra, pois não perde de vista o encadeamento próprio dos processos naturais e certas afinidades entre alguns tipos de rochas, no que toca a sua utilização
Tais dificuldades ou fragilidades podem ser ultrapassadas, explicando-as a cada passo. Por exemplo, não obstante haver argilitos de neoformação e, portanto, quimiogénicos, a sua inclusão nas rochas terrígenas resulta do facto de, na natureza, as argilas serem, na grande maioria, materiais saídos da meteorização e transportados como detritos para os locais onde se depositam, o que constitui um argumento favorável à reunião das rochas terrígenas e argilosas numa única classe. Outros autores, porém, consideram as rochas argilosas como uma classe à parte, e fazem-no com base em argumentos aceitáveis, como sejam: a supremacia destas rochas, em termos de:

1- abundância, relativamente às restantes rochas sedimentares;
2- a grande diferença de comportamento físico e químico entre as partículas de argila e a maioria das classes de detritos (areias e fenoclastos) e consequentes diferenças de propriedades das respectivas rochas (porosidade, permeabilidade, plasticidade, etc.);
3- a sua importância como matéria-prima.

Em termos percentuais, as rochas argilosas, nas quais se incluem os xistos argilosos, representam cerca de 65% da totalidade das rochas sedimentares da crosta terrestre. As rochas areníticas correspondem a 20 a 15%, e as carbonatadas, na grande maioria calcários e dolomitos, a 10 a 15%. As restantes classes (salinas, ferríferas, fosfatadas e carbonosas) representam, no conjunto, um valor inferior a 5%.

O arrumo ou classificação dos diversos tipos de rochas sedimentares em compartimentos demasiado rígidos é uma abstracção que não reflecte a realidade das condições naturais das respectivas géneses. A experiência mostra que existem todos os termos de transição entre as classes ou grupos artificialmente estabelecidos. Todavia, sistematizar o conhecimento é uma prática de há muito reconhecida como fundamental. Este facto evidencia-se sobretudo nas rochas sedimentares, onde a sistemática quase se confunde com a própria sedimentogénese «Não obstante as limitações inerentes a qualquer tipo de sistemática, estas serão tanto mais aceitáveis quanto mais pormenorizado e rigoroso for o conhecimento dos processos e ambientes sedimentogenéticos». (C. Romariz, 1966).

À semelhança de muitos nomes da petrografia ígnea (granito, sienito, diorito,…) e metamórfica (anfibolito, eclogito, migmatito,…) também os nomes de muitas rochas sedimentares estão marcadas pelo sufixo –ito, em alusão ao seu carácter litificado, pétreo. Este elemento de composição radica no elemento culto –ites, usado na Antiguidade na formação de nomes eruditos, quer de minerais quer de rochas, numa época em que não se estabelecia diferença entre eles.

Uma tal procura de uniformidade acabou por influenciar a petrografia sedimentar, surgida mais tarde, a partir dos anos 70 do século XIX, e está na base dos nomes psefito, psamito e pelito, criados por Carl Friedrich Naumann (1797 – 1873) bem como nos propostos, mais tarde, por Amadeus William Grabau (1870 – 1946), rudito, arenito e lutito.

Mineralogistas e petrógrafos franceses e ingleses mantiveram o sufixo ite, os espanhóis, ita e os alemães it, independentemente de se tratar de minerais ou de rochas. Esta atitude persistiu algum tempo entre nós, especialmente entre geógrafos (Orlando Ribeiro, Mariano Feio, Fernandes Martins) até meados do século XX, com termos como quartzite, diorite, sienite e outros, no feminino. Porém, os mineralogistas e os petrógrafos portugueses do século passado entenderam, como regra aceite e seguida, que os nomes das espécies minerais são do género feminino, terminando em –ite, e que os nomes dos tipos de rochas são do género masculino, terminando em –ito. Por exemplo, neste contexto, anidritito é o nome da rocha sedimentar essencialmente constituída pelo mineral anidrite, e dolomito designa a rocha essencialmente formada pelo mineral dolomite.

Ao contrário do que é regra na nomenclatura petrográfica das rochas ígneas, não é possível, na grande maioria dos casos, atribuir a uma dada rocha sedimentar uma designação mono ou binomial, tantos são os tipos de transição, quer entre as diversas classes (terrígenas, carbonatadas, siliciosas, etc.), quer entre as muitas subdivisões que, sem qualquer critério de uniformização, os diferentes autores têm adoptado nos seus trabalhos. Assim, em vez de um nome, empregam-se, frequentemente, frases com carácter descritivo como, por exemplo, “arenito grosseiro quartzo-feldspático, de matriz silto-argilosa, friável” ou “calcário afanítico argilo-betuminoso, com nódulos de pirite”.

Na imagem, o Prof. Carlos Romariz (aos 95 anos e ainda entre nós), o iniciador, em começo dos anos 60, do ensino da Sedimentologia na Universidade de Lisboa.

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