CONDIÇÃO FEMININA NUMA SOCIEDADE MACHISTA | António Galopim de Carvalho

(In “Évora, anos 30 e 40”, em preparação)

Depois do jantar, os homens saíam a caminho dos seus interesses. Fossem ricos, remediados ou pobres, a regra era essa. As mulheres ficavam em casa. Prisioneiras das responsabilidades que, tradicionalmente, lhes eram atribuídas, continuavam no exercício das tarefas domésticas e, ao mesmo tempo, a cuidar dos filhos. Destes, os mais pequenos faziam os trabalhos da escola ou brincavam, muitas vezes na rua, à porta da casa, sempre aberta. Nas famílias sem posses para terem criadas, competia às mães e às filhas com idade para ajudar, levantar a mesa, lavar a loiça, arrumar a cozinha e, as mais das vezes, costurar.

Eram as mães que, contra elas próprias, educavam as filhas e os filhos a perpetuarem os hábitos da sociedade machista em que cresci e me fiz homem, numa vivência estimulada pela Igreja e pelo poder político da época. Jovem casadoira, qualquer que fosse a sua condição, já sabia que o seu lugar ia ser no lar ou no ninho como algumas e alguns gostavam de dizer. Ao contrário das mulheres do campo, eram poucas as da cidade com trabalho fora de casa. Grande número destas, uma vez casadas, abandonavam o emprego, para se dedicarem à casa e aos filhos.
No mundo rural não era assim. Pobres por condição e tradição, mães com ou sem filhos e raparigas adolescentes tinham mesmo de trabalhar sempre que as oportunidades surgissem e essas oportunidades eram, sobretudo, a monda, a ceifa e a apanha da azeitona.

«A mulher quer-se em casa, a cuidar dos filhos», «a rua é que é para os homens», eram frases feitas, submissa e pacificamente aceites pela generalidade das mulheres, industriadas que estavam em casa, pelas mães, e na escola, pelas professoras. O ensino primário separava rapazes de raparigas e o ensino destas estava confiado a professoras, nunca a porofessores. Eram frases próprios de uma sociedade machista como era a nossa, numa tradição europeia vinda da antiguidade helénica, onde, na Pólis, a cidade-estado da Grécia antiga, cidadão era aquele – nunca aquela – que gozava do direito de participar na vida política da cidade, um direito igualmente vedado a estrangeiros e a escravos. Mais tarde, na Europa e até finais do século XVIII, foi condição de dignidade do homem – nunca da mulher – que recebia esse título honorífico. Mantida e aperfeiçoada na cultura judaico-cristã, esta diferença era, e ainda é para muitos, naturalmente bem aceite pela generalidade dos homens, como parte interessada.

Esta desigualdade tinha para nós, rapazes, as suas vantagens, habituando-nos a essa condição privilegiada dos elementos masculinos da família.

– Tisa, já fizeste as camas? – Ordenava a mãe. – Agora vai pôr a mesa!
– Lurdes, vai passar (a ferro) a camisa do teu irmão.

E aí, nós só não líamos o jornal, recostados num sofá, porque nem tínhamos sofá, nem nessa altura se compravam jornais lá em casa e nem nós os leríamos se os houvesse. De qualquer maneira, lá se nos ia metendo na cabeça que isso dos trabalhos domésticos era coisa de mulheres

No meu tempo de escola o ensino obrigatório, estabelecido pela reforma de 1936, de Carneiro Pacheco, ministro da Educação do governo de Salazar, terminava com o exame da 3ª classe (3º ano, como agora se diz). Certificado pelo diploma do “Primeiro Grau”, era exigível para ingresso em algumas profissões e, nos homens, para ser eleitor. Ler, escrever e contar era tudo o que o cidadão comum necessitava para fugir à vida do campo, ao aprendizado artesanal ou oficinal e a outros trabalhos que apenas fizessem uso da força braçal. Esta habilitação mínima, vigorou durante anos. Em 1956, a escolaridade obrigatória aumentou para quatro anos, mas só para os rapazes. Na sua predestinada condição de mulher, às raparigas bastava aprender a ler e fazer contas, duas aquisições essenciais a quem tinha por dever a economia do lar. A escolaridade obrigatória para as raparigas só aumentou para os mesmos quatro anos, em 1960.

Nascida em 1937, a Mocidade Portuguesa Feminina visava “criar a nova mulher portuguesa: boa esposa, boa mãe, boa doméstica, boa cristã, boa cidadã sempre pronta a contribuir para o bem comum, mas sempre longe da intervenção política deixada aos homens”.
Obrigatória para todas as jovens dos 7 aos 14 anos, a inscrição na Mocidade Portuguesa pretendia “estimular nas jovens portuguesas a formação do carácter, o desenvolvimento da capacidade física, a cultura do espírito e a devoção ao serviço social, ao amor de Deus, da Pátria e da Família”. Nos textos oficiais desta organização do Estado Novo figuravam lições de lavores femininos, costura, culinária e outros afazeres da vida doméstica, indicações sobre as atitudes a ter em casa com o marido e sobre o fato de banho, “com decote pouco generoso e saia não muito curta”.

Embora na letra da Constituição de 1933, figurasse o princípio da igualdade entre cidadãos perante a lei, o Estado Novo considerava a mulher como mãe, dona-de-casa e, em quase tudo, submissa ao marido. Na lei portuguesa de então, bem sentida na Évora, não só nos anos a que se referem estas crónicas, mas nas mais de três décadas que se seguiram, a mulher via-se, assim, relegada para um plano secundário na família e na sociedade em geral. O 25 de Abril, não o esqueçamos, pôs fim a esta indignidade. Essa mesma lei designava o marido como chefe de família, sendo reservado à mulher o governo da casa, o que se traduzia pela imposição dos trabalhos domésticos como obrigação, não tendo os mesmos direitos na educação dos filhos. Não tinha direito de voto, não podia ascender a determinadas chefias nem exercer cargos na magistratura, na diplomacia e na política.

Sendo casada, a mulher perdia o direito a intervir nas suas propriedades, não podia viajar para fora do país sem autorização do marido e não podia trabalhar sem autorização deste. O marido podia dirigir-se ao empregador declarar não autorizar a mulher a trabalhar, o que implicava o seu imediato despedimento.

As enfermeiras não podiam casar e as professoras tinham que pedir autorização para casar, o que só era permitido se o noivo satisfizesse determinadas condições, autorização publicada e em Diário da República O divórcio era proibido, devido ao acordo estabelecido com a Concordata de 1944, numa submissão do Estado à Igreja Católica. Assim, todas as crianças nascidas de uma nova relação, posterior casamento, eram consideradas ilegítimas, não podendo ter o nome do pai, ou seja, o do companheiro.

Na orientação ideológica antiliberal e de cariz católica do ditador, a existência da mulher confundia-se com a da família, estando-lhe reservado o espaço doméstico. A Obra das Mães pela Educação Nacional, organização feminina do Estado Novo, criada em 1936, tinha por objetivo “estimular a acção educativa da família e assegurar a cooperação entre esta e a escola nos termos da Constituição” de 1933.

Nascida em 1912, como suplemento feminino do jornal “O Século” a revista semanal “Mulher – Modas & Bordados” dirigida nos primeiros tempos a uma pretensa elite feminina, fornecia-lhe conselhos nos domínios da moda, da culinária, das boas-maneiras e da beleza. Mostrou, porém, alguma preocupação de valorização da mulher, testemunhada pela publicação regular de sonetos da grande poetisa alentejana, Florbela Espanca (1894-1930), uma das primeiras mulheres a frequentar o Liceu Masculino André de Gouveia, onde permaneceu até 1912. Foi, porém, com Maria Lamas (1893-1983), com laços familiares a Évora, opositora ao regime e feminista, na direcção desta revista que a luta contra a secundarização da mulher se fez sentir, não só nesta cidade, como no país.

Saídas à noite, só na companhia de alguém que a protegesse, não de qualquer agressão física, praticamente inexistentes nesse tempo, mas das “más línguas”. E essa protecção era a dos pais, a de um irmão ou outro familiar mais velho. As idas ao cinema, a um qualquer evento público ou a um Café tinham as mesmas restrições. Sempre que as minhas irmãs, adolescentes nesses anos, queriam ir ao cinema tinham de convencer o meu pai, nunca a minha mãe, a acompanhá-las. Do mesmo modo, a minha mãe só podia ir ao cinema, a um teatro, ou a qualquer outro espectáculo acompanhada do meu pai. Poder, podia, só que não devia desrespeitar os “bons costumes”.

Nos bailes ou nas matinés dançantes, desidrato da juventude, sempre realizados nas sociedades recreativas, rapazes e raparigas podiam abraçar-se, mas com decência, dizia-se. As mães, numa “sova de cadeira” de várias horas, acompanhavam invariavelmente as filhas, não só para as vigiarem, não fossem os rapazes apertá-las demais ou fugirem dali com elas, como também para as defenderem das “bocas do mundo”.

Uma adolescente, ou mesmo, uma rapariga na idade adulta não saía só com o namorado e diga-se que namorado era sinónimo de conversado, porque ao casal só era permitido conversar. Como garantia de que se não ultrapassasse essa permissão, havia o “pau de cabeleira”, a avó, a mãe, outra irmã ou, mesmo um irmãozinho mis novo.
Nesta condição de conversados o namoro era feito com ele na rua e ela à janela. Era comum e absolutamente natural vê-los, ele de pescoço estendido, a falar para cima, e ela, debruçada a falar para baixo. Havia, no entanto, casais que namoravam à janela de rés do chão e outros à porta da rua. Face a estes, era evidente concluir que algo mais haveria para a além da platónica conversar e, sendo assim, caso o namoro acabasse, a jovem ficava marcada. Ficava para tia, dizia-se.

Na imagem: dançando dentro dos preceitos dos “bons costumes”, num baile na Sociedade Harmonia Eborense.

António Galopim de Carvalho

Retirado do Facebook | Mural de António Galopim de Carvalho

 

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