Marco Neves escreve sobre o último livro de Fernando Venâncio, Assim Nasceu Uma Língua | in Jornal de Letras

Pensar sobre a língua é difícil — mas não parece. É fácil encontrar quem jure saber que os adolescentes já só usam X palavras; que garanta a pés juntos que a expressão Y é um “erro que todos dão”; que saiba sem ninguém lhe dizer que a palavra Z entrou na nossa língua nos últimos cinco anos… Sabemos estas coisas todas e, no entanto, se tentarmos reproduzir, palavra por palavra, uma conversa que tenhamos tido há poucos minutos, já só nos lembraremos de uma ou outra expressão solta, umas quantas ideias, a impressão geral do sentido da conversa. A língua é matéria mais fugidia do que parece e, por isso, com a nossa fome de explicações, é terreno propício para impressões alçadas a certezas e para mitos que enganam a mais informada das pessoas.

Os linguistas lá tentam perceber, com dados, aquilo que de facto se passa com a língua — e, como acontece com outros cientistas, quanto mais trabalham, mais percebem a dimensão do que falta saber. Cá fora, continuamos convencidos de que sabemos muito — e é verdade que sabemos: temos uma gramática inteira na cabeça, que usamos para criar frases sem fim. Mas sabemos muito menos do que julgamos sobre o funcionamento e a variação dessa mesma gramática.

Se isto é assim com a gramática, o que dizer da História da língua? Aí não serão os mitos que nos bloqueiam a mente, mas antes o simplismo distraído. Sabemos que o português vem do latim — e pronto. Quando ocorreu tal transição? Quando surge Portugal, certamente. E onde? Em Portugal, obviamente. Exagerando um pouco (mas só um pouco), a ideia que corre por aí será esta: até ao século XII, o povo ali a Norte falaria latim; quando Afonso Henriques se assume como rei, o povo decide mudar de língua. Enfim, com menos exagero muitos diriam: falávamos latim, começámos a falar um português arcaico (ou talvez galego-português) e logo nos decidimos pelo português tão belo, tão nacional.

Em Assim Nasceu Uma Língua – Sobre as origens do português, Fernando Venâncio esborrata esta bela pintura infantil. Mostra como as coisas foram muito menos simples do que pensamos. Como tudo vinha já de trás, da língua desenvolvida na Galécia Magna, um território que abrange grande parte da Galiza e um pouco do nosso Norte. Ficamos a saber que o processo foi lento, muito lento — e que não chamámos português à língua do reino até muito, muito tarde. Quando, por fim, lhe demos esse nome, já a língua contava com séculos e séculos de percurso, com muitas das suas estruturas já visíveis. O livro mostra-nos ainda como há séculos que muitos se afadigam a tentar corrigir a língua, convencidos de que estão no fim dos tempos do nosso pobre idioma.

O trabalho do linguista implica estudar a língua sem assumir que as primeiras impressões estão certas. Implica lutar contra esse círculo da ignorância que nos envolve, mas sem negar que ele existe e continuará a existir. Implica falhar, tentar de novo, oferecer teorias ao teste dos factos. E os factos são as palavras, o seu registo, a sua existência concreta, que encontramos, para os séculos de formação da língua, apenas nos restos do que ficou escrito. Um material frágil, disperso, incompleto. Um material que Fernando Venâncio interroga com perícia, demonstrando um percurso de investigação de anos e anos, com saudável ausência de certezas prévias e respeito pelo que não sabemos, com trabalhosas contagens de palavras, através de comparação de textos, usando ferramentas que o comum dos falantes nem imagina existirem.

Como é que se transmite este conhecimento para lá do círculo íntimo dos já interessados, dos colegas, dos outros linguistas? Aí está um problema de uso da língua. Ora, este livro sobre a língua usa a língua com mestria. É um livro muito bem escrito sobre o próprio material em que está escrito. Nem sempre uma coisa acompanha a outra. Há vários linguistas que escrevem excelentes artigos académicos, com o estilo necessário para a comunicação científica, mas que não se atrevem a expor o mesmo material ao público não especializado. Saber muito sobre a língua não é garantia de saber usar bem essa língua na escrita de divulgação. O mesmo acontece ao contrário, diga-se: quantos e quantos escritores não usam a língua de forma esplendorosa e, depois, repetem impressões vagas sobre o idioma, disfarçadas de profundas certezas?

Em Assim Nasceu Uma Língua, temos a rara junção dos dois conhecimentos: o conhecimento descritivo da língua — neste caso, da História da língua com base nos seus materiais — e o conhecimento prático do uso dessa mesma língua para atrair, provocar e deliciar o leitor. É uma obra de linguística que usa sem pedir licença boas estratégias literárias. É um ensaio linguístico rigoroso — e uma história que apetece ler. No fim, ficamos a conhecer bem melhor o percurso desde estranho mecanismo que levamos dentro da cabeça e que se veio transformando pelos séculos fora, desde os tempos em que ainda não havia Portugal.

*Marco Neves é prof. da FCSH da Universidade Nova de Lisboa, escritor e autor de vários livros sobre a língua portuguesa, o último dos quais, publicado no verão de 2019, O Galego e o Português São a Mesma Língua?

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