Claude Lorrain e o espírito de Vergílio | Frederico Lourenço

Mais romanos, aliás, do que o mantuano Vergílio que, embora tivesse casa em Roma, preferiu viver em Nápoles, onde acabou por ser sepultado. Claude está sepultado na Trinità dei Monti (a igreja no cimo da escadaria que desce até à Piazza di Spagna); e Poussin está sepultado ali muito perto, na igreja de San Lorenzo in Lucina. Passear na Via del Babuino em Roma (que liga a Piazza di Spagna à Piazza del Popolo) é recordar Poussin e Claude (que lá viveram) e, ao mesmo, Vergílio: pois terá sido a primeira zona de Roma que ele pisou, vindo da nortenha Mântua ou de Milão, quando chegou a Roma, dado que a principal via que ligava o norte a Roma era a Via Flaminia. E a Porta Flaminia situa-se precisamente no que é hoje a Piazza del Popolo.

Alguma centelha do espírito de Vergílio ficou a pairar naquela zona; e se a centelha afectou Poussin, que fez um ou outro quadro (e pelo menos um desenho) de inspiração vergiliana, muito mais afectou Claude, que produziu, inspiradas na Eneida, duas das suas últimas obras-primas: aliás, o quadro «Ascânio a disparar contra o veado de Sílvia» é mesmo a última pintura que Claude fez antes de morrer. E, tal como a Eneida, foi deixada pelo seu autor ligeiramente incompleta.

O outro quadro é «Dido mostrando Cartago a Eneias» (quadro que escolhi para a lombada do meu livro «Latim do Zero», já que o amor de Dido e Eneias é o ponto de chegada no percurso proposto para a aprendizagem do latim). Ambos os quadros foram pintados para o príncipe Onofrio Colonna (algo caricatamente para o nosso gosto contemporâneo, este aristocrata arrogava-se uma nobreza tão antiga que se dizia descendente de Eneias!); e as duas pinturas mantiveram-se em Roma, no Palazzo Colonna, até ao caos instaurado por Napoleão. Vendidas a um inglês, fizeram a viagem para Inglaterra, onde «Ascânio» permanece até hoje: está desde 1926 no Ashmolean Museum de Oxford. «Dido e Eneias» foi parar à Alemanha (está hoje num museu em Hamburgo) e, para grande pena minha, é um quadro de Claude que nunca tive oportunidade de ver ao vivo. Mas «Ascânio» é um velho conhecido meu, fruto da minha ligação antiga a Oxford: como derradeira obra-prima de um pintor que adoro, ilustrando aquele que será talvez o episódio-chave do poema que mais amo e admiro, já tive muitas oportunidades de o visitar.

O que justifica apelidar «Ascânio a disparar contra o veado de Sílvia» o episódio-chave da Eneida? Estamos no Canto 7: depois de tantas tribulações, os refugiados troianos conseguiram finalmente chegar a Itália. No entanto, o que poderia ter sido a chegada pacífica de um novo grupo populacional vira uma situação de conflito e de guerra. E o que dá origem à guerra é justamente o acto de Ascânio (filho de Eneias) matar o animal que Claude tão bem retratou no momento antes de ser ferido pela flecha. Estão aqui em causa duas atitudes antagónicas perante o animal: para os troianos, o veado é uma criatura para ser caçada e abatida; para os ítalos, é um animal de estimação, venerado e acarinhado.

Com este acto simbólico, Vergílio consegue sintetizar a depredação da natureza levada a cabo pelos refugiados-tornados-colonizadores no seu novo território. Pois, na visão que nos é pintada na Eneida, Itália estava ainda na paradisíaca Idade de Ouro antes de chegarem os futuros romanos: era um mundo de paz e de harmonia com a natureza. Tudo isso irá acabar com a chegada de Eneias.

Claude pinta-nos, no seu último quadro, o último momento antes de a paz dar lugar à guerra. No meio de uma paisagem paradisíaca como só Claude conseguiu pintar, um gesto de violência e de desrespeito pelo mundo natural vai pôr fim ao estado de graça da natureza. É o preço do império (cuja sustentação será sempre a depredação da natureza e a exploração de recursos naturais, quer falemos do império romano, do português ou da destruição do nosso planeta levada a cabo pelos hodiernos impérios chinês, russo e americano).

Quem lê o episódio retrato por Claude nos versos originais de Vergílio ainda pode dar, a Ascânio, o desconto de ser praticamente uma criança. Mas Claude optou claramente pela responsabilização de Ascânio, retratando-o como um adulto consciente e responsável. Num quadro de beleza divina, do qual emana uma «música» que em nada fica atrás da música sublime do verso vergiliano, Claude introduz um efeito de tensão, de contraste, de paradoxo trágico. Consegue, por outras palavras, emular à perfeição na sua pintura a perfeição da poesia de Vergílio. Um milagre.

Frederico Lourenço

Retirado do Facebook | Mural de Frederico Lourenço

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