Constantinopla – Florença – Coimbra | Frederico Lourenço

Com a conquista de Constantinopla pelos turcos em 1453, a capital do ensino do Grego no mundo passou a ser a cidade de Florença, onde, em finais do século XV, estavam mais de cinquenta portugueses a estudar (precursores dos modernos estudantes Erasmus – o próprio Erasmo nasceu em 1469). Que o «Pluto» de Aristófanes foi usado como texto universitário em Florença é-nos documentado por um manuscrito que existe na Biblioteca Laurenciana, que serviu de apoio às aulas de Grego dadas por Andronico Calisto na década de 70 do século XV.

Certamente muitos portugueses estudaram este texto em Florença: não pode ser acaso que uma das primeiras traduções do «Pluto» para latim foi feita por um português, no século XVI. Trata-se da tradução de Miguel de Cabedo, publicada em Paris, em 1547.

Tanto quanto sabemos, foi no século XVI (no reinado de D. João III) que o ensino do Grego arrancou em Coimbra. E desenvolveu-se de tal modo, a par do Latim, que no mosteiro de Santa Cruz se dizia que «a todos é opróbrio falar salvo em a língua romana ou grega». Na década de 40 do século XVI, os alunos de Medicina em Coimbra tinham obrigatoriamente aulas de Grego – o que não deixa de fazer sentido, atendendo a que, ainda hoje, a terminologia médica consiste quase 100% em palavras formadas a partir do Grego, língua que quase todos os médicos actuais desconhecem.

O estudo do Grego em Coimbra teve provavelmente os seus altos e baixos: mesmo assim, temos notícia de que, em 1766, um brasileiro chamado Francisco Gomes, que fez exame de Grego na Universidade de Coimbra, teve de se confrontar com um enunciado em que figurava um trecho da comédia «Pluto» de Aristófanes.

Hoje de manhã, na Sala 9 da Faculdade de Letras de Coimbra, 12 alunas e alunos (entre os quais dois brasileiros) prestaram provas de Grego e responderam a perguntas sobre o «Pluto» de Aristófanes. Deste modo, deram continuidade a uma longa tradição, que de Atenas passou para Alexandria, de Alexandria para Constantinopla, de Constantinopla para Florença, e de Florença para Coimbra.

Tenha Coimbra a vontade continuada de honrar sempre esta nobilitante tradição.

(Recomendo a leitura do artigo do saudoso Sebastião Tavares de Pinho, «Humanismo e Helenismo: Estudos Gregos na Universidade de Coimbra» no seu livro «Humanismo em Portugal», Vol. II, Imprensa Nacional, 2006).

Frederico Lourenço

Retirado do Facebook | Mural de Frederico Lourenço

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