Vandalismo com futuro | Francisco Louçã

Ao longo do dia de hoje, o drama das eleições norte-americanas, que ainda não tem vencedor oficialmente certificado três semanas depois do dia do voto (e as contagens ainda continuam, mesmo que já não mudem nada), vai chegando ao fim.

Entretanto, foi-se convertendo numa farsa: os tuítes do presidente cessante deixaram de ser uma ameaça para serem risíveis, fracassou a convocação para a Casa Branca dos representantes da maioria republicana na assembleia estadual do Michigan para os convencer a imporem um golpe constitucional de duvidoso resultado, os anunciados processos com provas esmagadoras são amesquinhados por juízes conservadores em tribunal. Parece não sobrar nada da estratégia de Trump, que sorumbaticamente se arrasta por campos de golfe para passar o tempo, enquanto no seu país o número de casos Covid se aproxima dos duzentos mil por dia.

Mas é um engano pensar que isto está encerrado, sobra sempre Trump, ele próprio. A fazer fé no que a imprensa norte-americana vai sugerindo, Trump anunciará a sua recandidatura para 2024 quando agora tiver que sair da Casa Branca, mesmo que nunca reconheça que foi derrotado. O objetivo dessa inusitada iniciativa é transformar o partido republicano em refém da sua política durante este período, impedindo o surgimento de outras futuras candidaturas viáveis e impondo um voto de obediência. É uma manobra defensiva, que pretende limitar o alcance da litigância judicial sobre os casos que o atormentam, incluindo o de falcatruas fiscais, mas é sobretudo uma manobra política que aposta na permanente radicalização e bipolarização da política nacional.

Esta forma de agir é o momento culminante da sua carreira de bufão, que define tudo em função de si próprio, não admitindo ter sido afastado pelos eleitores e submetendo o país a uma chantagem sem fim. Entendamo-nos então: Trump dispõe de uma base social para este estado de guerra. No entanto, para mobilizar e disciplinar o seu exército, composto por uma amálgama de milícias, de teorias da conspiração, de movimentos subterrâneos, de ideólogos do apocalipse, de negacionistas de várias cores e, sobretudo, de gente assustada com o mundo, o instrumento mais poderoso de que para já dispõe é a vandalização do processo eleitoral.

É no ressentimento contra a derrota que procura comungar com os seus apoiantes. Toda a estratégia depende do nível de ódio que instile em dezenas de milhões de pessoas e, desse modo, precisa de uma fronteira erguida entre os seus e os outros. Convém reconhecer que, até agora, essa política teve resultados notáveis, alcandorando a votação de Trump a um resultado histórico de 74 milhões de votos e fechando uma bolha aparentemente inexpugnável.

Ora, para manter durante quatro anos essa cerca eleitoral, Trump precisa de conseguir dois objetivos: incentivar a suspeita contra as eleições e multiplicar os incidentes que atinjam a Casa Branca. Ou seja, aposta a sua campanha futura na terra queimada e no país a arder. O problema é que a vulnerabilidade do sistema eleitoral a este tipo de manobras não pode ser ignorada. Bem sei que me dirão que os “pesos e balanços” funcionaram, que os tribunais mantiveram a serenidade e que mesmo entre os republicanos houve algumas deserções, embora espantosamente raras.

Mas alguém imaginava que fosse possível bloquear a conclusão das eleições durante três semanas? Alguém se teria atrevido a antecipar que um presidente pudesse pedir à sua maioria partidária na assembleia de vários estados que ignorasse a votação popular para tomar para si própria o poder de nomear representantes para o colégio eleitoral? Ou que um dos dois principais partidos propusesse anular a votação de milhões de pessoas porque são de cidades de maioria negra? A barreira do inimaginável já foi ultrapassada e há muito. E isso diz alguma coisa sobre o vandalismo como política.

Por isso, caros leitores, se alguém pensava que a democracia resiste enquanto for assunto de pessoas bem educadas, talvez seja tempo de conhecermos os rufias que, nesta leva de extrema-direita no poder em países tão poderosos, nos garantem que as regras são as que o dominador quiser. Como diziam Humpty e Dumpty, na Alice, a única questão é saber quem é o dono disto tudo, e nada mais. Vamos viver com os trumpismos durante muito tempo.(no Expresso)

Francisco Louçã

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Louçã

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.