BELDROEGAS, UMA SABOROSA E PERFUMADA SAUDADE | António Galopim de Carvalho

(excerto do meu livro “Açordas Migas e Conversas” Âncora Editora, 2018)

A “Portulaca olerácea”, de seu nome científico, que, como lembrou Monarca Pinheiro, “já matou a fome a muita gente”, é uma erva levemente acidulada, de folhas carnudas, por vezes bem grandes e caules tão tenros que se aproveitam quase todos. É boas nas sopas, nas saladas, no esparregado e, até, em jeito de peixinhos-da-horta (com os caules mais grossos).

O meu pai gostava e, sempre que as beldroegas aparecessem na praça do mercado, eu tinha ordem para as comprar e a minha mãe fazia-as, nesse mesmo dia, em sopas de pão com queijo de ovelha, branco, de meia cura, e ovos escalfados.

Para além do seu interesse gastronómico tenho com as beldroegas uma profunda ligação dos tempos de adolescência, em que, com o meu irmão Mário e mais dois ou três amigos, umas mantas, uma panela de ferro (a tal, de que já falei, vinda de casa da minha avó), uma muito rudimentar tenda (canadiana, emprestada pela Ala de Évora da Mocidade Portuguesa) e mais meia dúzia de utensílios de uso nestas aventuras, fazíamos campismo selvagem.

Quase sempre, por razões logísticas e de convivência, na proximidade dos montes das herdades, fazíamo-lo mais perto ou mais longe da cidade, em função do tempo disponível. Tanto podia ser de dois ou três dias, num fim-de-semana alargado, ou de um mês, em tempo de férias grandes.

Em total liberdade e a pé, percorríamos os campos, parando aqui ou ali, ao sabor dos acasos, da beleza do local ou em função de conhecimentos e amizades que íamos estabelecendo. Tanto podíamos ficar num eucaliptal porque, ao nascer do dia e ao cair da tarde, o aroma libertado nos dava a sensação de estarmos a respirar saúde, ou dentro de uma horta, junto à nora, como sob um alpendre junto ao casario do monte, ou debaixo de telha, na “casa da malta”. Viver a natureza e do muito que ela nos dá, com um mínimo de cómodos e utensílios, e em convívio quase constante com os camponeses, fazer campismo, nas condições e no tempo em que nós o fizemos, foi uma escola para a vida. Das ciências naturais, às sociais e humanas, aí se abriram muitas das portas para o mundo à nossa frente. Abastecendo-nos nas vendas, colhendo o que nos autorizavam colher ou, mesmo, o que algumas vezes, sem a devida autorização, ousávamos apanhar, íamos prolongando ao máximo a nossa permanência no mundo rural. A princípio, o pessoal com quem íamos contactando mantinham, face a nós, uma certa reserva. Depois de nos conhecerem melhor,

aceitavam-nos e até nos achavam graça.

– Rapazes da cidade feitos malteses. – Diziam.

Foram felizes as vezes que confraternizámos com os trabalhadores rurais, eles e elas, tantas vezes numa brejeirice alegre e saudável, muito característica deste povo. Sentados no chão, em roda da fogueira que fazíamos, de “navalhinha” na mão, comendo nacos de pão com lasquinhas de queijo ou de linguiça, passámos serões de Verão inesquecíveis, não sendo raro presentearem-nos com algo que traziam de casa, uma cestinha com ovos, um talego com “boletas”, umas batatitas, duas cebolas e uma cabeça de alhos.

Com estes nossos amigos iniciámo-nos na consciencialização dos problemas sociais e políticos que a cidade de então, vigiada e censurada, não permitia. Com eles aprendemos o valor da fraternidade e a respeitar e amar a ruralidade”.

Sopas de Beldroegas com Queijo e Ovos

Aloure no azeite a cebola cortada às meias rodelas e os dentes de alho fatiados. De seguida, junte as beldroegas (depois de eliminar os caules mais grossos), uma cabeça de alhos de que se tirou a casca exterior e um molhinho de coentros atado com uma linha. Tape e mantenha o lume brando.

As beldroegas vão vertendo água, à qual deve acrescentar a suficiente para embeber as sopas. Escalfe aí os ovos e coza o queijo alentejano (branco, de meia cura), cortado às fatias grossas.

Este tipo de queijo é, no geral, muito salgado. Assim, antes de o incluir na confecção, corte-o em fatias grossas e deixe-o dessalar durante 10 a 12 horas.

O pão, às fatias, é colocado no fundo da terrina de ir à mesa e regado com o caldo juntamente com as beldroegas. Acompanha com os ovos escalfados, o queijo e o alho inteiro servidos em travessa à parte. Não desejando fazer sopas, não acrescente muita água. Coloque uma fatia de pão frito em cada prato e, sobre ela, as beldroegas, o

queijo cozido e o ovo escalfado.

Retirado do facebook | Mural de António Galopim de Carvalho

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