Andaste meses a engolir a novela: que o inimigo era o cigano, o imigrante, o gay, a democracia, o vizinho com RSI. | Leonel Dias

Andaste meses a engolir a novela: que o inimigo era o cigano, o imigrante, o gay, a democracia, o vizinho com RSI.

Engoliste-a inteira enquanto te convenciam que o problema era o pronome, o arco-íris ou a professora a falar de igualdade de direitos. 

Não viste que, enquanto gritavas contra quem tem menos, quem tem mais sorria. 

Grupinhos no Facebook pagos por milionários que nunca andam de metro, nunca passaram por um centro de saúde público, e nunca saberão o que é ter de escolher entre pagar a renda ou pagar o supermercado.

E agora? 

Agora acordas com menos Estado e mais fatura. Seguro de saúde para ter saúde, escola privada para os filhos, rendas sem limite, contratos descartáveis, menos direitos para quem trabalha, menos Estado, pior sociedade, maior desigualdade. 

Mas relaxa: o filho do CEO acabou de comprar outro Ferrari — com o que tiraram à tua saúde, à tua escola, à tua reforma, ao futuro dos teus filhos. 

Diziam que iam “limpar Portugal”? Limparam, sim: o SNS, a escola pública, os direitos laborais e sociais

Deixaram-te com raiva e um chapéu vermelho na cabeça, berrando contra moinhos de vento.

Troca-se a razão por memes, o debate por emojis de vómito e a ciência por vídeos histéricos com legendas amarelas. 

Pensar virou defeito.

Ler, um acto de arrogância. 

Questionar é logo sinal de “esquerdalho subsídio-dependente” . 

E o cidadão ideal de hoje é inflamável, indignado por reflexo, pronto para o ataque — desde que não tenha de ler mais que três parágrafos. 

Mas isto não começou agora.

Isto foi cultivado.

Uma idiotização planeada da esfera pública, porque gente pobre que pensa é perigosa para quem manda. Gente humanista é perigosa para os ricos.

A escola deixou de formar cidadãos.

Agora treina concorrentes.

As bibliotecas foram trocadas por TikToks. 

A cultura virou luxo. 

O pensamento crítico foi soterrado por reality shows, influencers e comentaristas que fazem da mentira um negócio…e pensam por tí. 

O resultado? 

Uma sociedade que já não distingue opinião de facto, grito de verdade, análise de desabafo. 

E o algoritmo percebeu antes de todos: se der medo, raiva ou choque — tu clicas. 

Clicas e viras capital. 

Capital Político.

Capital Emocional. 

Capital Financeiro. 

Criaram-te um feed sob medida, onde tudo confirma o que já acreditas, e quem discorda é inimigo. “Eles contra nós.” “Os bons contra os maus.” Tudo parece épico. 

Tudo parece urgente. 

Tudo parece verdadeiro. 

Mas é farsa. 

Farsa montada para manter os teus olhos no ecrã — e, acima de tudo, para que nunca os levantes para cima.

Porque o truque é esse: fazer-te olhar sempre para baixo.

Nunca para os bancos que lucram com a tua precariedade. Nunca para os políticos avençados que legislam para os amigos. Nunca para os media que repetem slogans até virarem verdade. Nunca para o subsídio do rico. 

Mais fácil culpar o imigrante do que questionar o milionário. Mais fácil odiar quem está de joelhos do que perguntar quem o colocou se joelhos. 

E foi assim, entre um post e outro, que nasceu a nova moralidade: simplista, violenta, populista…Onde a única lei é a lei do mais forte. 

Quem grita mais, ganha.

Quem mente com mais convicção, convence. 

Já não interessa saber governar — basta saber viralizar. Podem propor o fim do SNS, da escola pública, dos direitos mínimos — desde que façam trending no TikTok, está tudo bem.

A esfera pública afunda-se em chavões: “tradição”, “família”, “pátria”, “ordem”, “esquerdalhos”, “xuxalistas” . Palavras grandes que cabem nas bandeiras, mas não nas políticas sérias ou sequer na realidade. 

E por trás de cada cruz, cada espada, cada discurso moralista, há um mercado livre a lucrar com a tua miséria. 

Isto não é acidente. É plano. 

Porque uma sociedade deseducada, dividida e isolada é mais fácil de votar contra ela própria e a favor do dono do Ferrari. 

O sistema não quer cidadãos. 

Quer consumidores. 

Quer indignados sem rumo. 

E conseguiu. 

Esta nova direita foi cultivada com a negligência do Estado, o abandono dos espaços públicos pela esquerda, e um falso discurso do “povo” que só representa os donos disto tudo. 

O resultado?

Uma geração criada a pão, circo e YouTube, ensinada a desconfiar da escola e a confiar em youtubers aos gritos.

Hoje tens gente que repete frases feitas como dogmas. Políticos que governam com memes. Um país a afundar-se ao som de “é tudo culpa dos fracos, viva os fortes”. 

E se achas que isto é exagero, é porque já começaste a falar como eles.

Leonel Dias, 6 Junho 2025

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