Não é a mesma coisa: Pede-se mais ao Presidente, por Vital Moreira

1. Deixa muito a desejar a posição pública do PR sobre as propostas governamentais de subversão das leis da nacionalidade.

Na verdade, embora pré-anunciando que vai recorrer à fiscalização preventiva da constitucionalidade – o que, a meu ver, será imperioso, dadas as flagrantes inconstitucionalidades em que algumas daquelas soluções incorrem, a começar pela discriminação entre nacionais em matéria de punição penal (como apontei AQUI) -, o Presidente não exprimiu, porém, nenhuma outra reserva crítica sobre a reforma, em desvio à sua tradicional loquacidade em situações semelhantes, deixando entender, portanto, que não vai utilizar o veto político, apesar de ela ser manifestamente inspirada pelo Chega e de pôr em causa uma longa evolução, em geral consensual entre o PS e o PSD, sobre o regime da nacionalidade, no sentido humanista do alargamento do seu acesso pelos imigrantes e sua descendência, a maior parte deles com origem em países de língua portuguesa ou noutros países europeus.

Ora, a necessária correção das inconstitucionalidades não absolve o pecado político capital desta reversão da lei da nacionalidade, que o Presidente da República não devia coonestar, abdicando do veto político, que neste caso (ao contrário de outros…) é plenamente justificável.

2. Sucede, aliás, que a lei da nacionalidade não é uma lei qualquer, não sendo por acaso que ela integra a seleta categoria constitucional das “lei orgânicas”, sujeitas a um regime mais exigente, quer quanto ao procedimento e à maioria parlamentar exigida para a sua aprovação, quer quanto ao regime do eventual veto político, pois a AR só pode superá-lo por maioria de 2/3.

Sendo, no fundo, uma lei paraconstitucional – por definir um dos três elementos clássicos da noção de Estado (território, população e soberania), que foi indevidamente deixado omisso na CRP de 1976 -, a revisão da lei da nacionalidade sob inspiração do Chega e implementada pelo Governo, à margem do PS (que obviamente a não pode aprovar), traduz-se efetivamente na entrada do partido nacionalista na (re)definição de aspetos básicos do regime político.

Não é possível ignorar o significado político-constitucional profundo desta operação, sem pré-aviso,  de “cheguização” política e doutrinária do PSD, enterrando o «não-é-não» da campanha eleitoral e apadrinhando a entrada da extrema-direita nacionalista e populista no “arco cosntitucional” material nacional. Também por isso, para testar a consistência da nova supermaioria de direita sob a égide do Chega e sublinhar a gravidade da conversão política do PSD, justificava-se o veto político.

Poemas de exaltação à mulher, de Marize Castro, por Adelto Gonçalves

Em “Maroceano”, seu novo livro, a potiguar Marize Castro dialoga em versos com outras grandes poetas

I

Uma série de poemas dedicados a mulheres que abrilhantaram o cenário das letras no Brasil e no mundo é o que o leitor vai encontrar no novo livro da poeta e jornalista Marize Castro (1962), Maroceano (Natal, Una Editora, 2024). A exemplo do que fez em livros anteriores, a autora procura mostrar as lições que recebeu ao ler as obras de poetas que marcaram época na história da literatura universal, como a britânica Virginia Woolf (1882-1941), a norte-americana Elizabeth Bishop (1911-1979), a norte-americana Laura Riding (1901-1999), a russa Marina Tsvetaeva (1892-1941), a portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), a brasileira Cecília Meireles (1901-1964) e a ucraniana de origem judaica naturalizada brasileira Clarice Lispector (1920-1977), transformando-as em peças literárias que se destacam por um estilo fluído e adornadas por passagens extremamente líricas e suaves.

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Jeffrey Sachs: “Algo PERIGOSO está prestes a atingir a América…”

05/07/2025 | Os EUA estão a caminho de um erro de cálculo catastrófico: preparar-se para uma guerra com a China até 2027, apesar de não haver evidências de agressão chinesa. Neste discurso incisivo, o economista Jeffrey Sachs desmantela a narrativa da China como uma ameaça global, expondo como Washington — impulsionado por interesses militar-industriais e belicismo bipartidário — fabrica crises para justificar conflitos sem fim. Ele traça um contraste histórico gritante: a China, por mais de dois milênios, raramente travou guerras além de suas fronteiras, enquanto os EUA têm se envolvido perpetuamente em intervenções no exterior, frequentemente derrubando regimes democráticos que desaprovam.

Sachs alerta que essa trajetória não é apenas ilegal sob o direito internacional — é suicida. A lógica da dissuasão se rompe na era nuclear, quando ambos os lados intensificam as ameaças. O que é retratado como uma disputa entre “democracia e ditadura” é, na verdade, um jogo de xadrez geopolítico enraizado no legado imperial, no sigilo e na projeção de poder. O verdadeiro perigo, argumenta Sachs, não reside em Pequim, mas no domínio desenfreado da CIA, do Pentágono e da elite política, que transformaram a política externa em um jogo de apostas arriscadas. Ele clama pelo retorno à diplomacia racional e ao respeito à soberania antes que esse caminho imprudente leve ao desastre nuclear.