Dicionário de História de Setúbal, Coordenador Albérico Afonso Costa, historiador

Obra vem para resgatar a história de Setúbal

Segundo volume do projeto é, desde já, excepcional ferramenta de estudo para
investigadores, professores, estudantes e público-leitor

Adelto Gonçalves (*)
I

O projeto editorial Dicionário de História de Setúbal, considerado a maior obra de
investigação sobre a história da terra natal do poeta Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-
1805), ganhou, em 2026, o seu segundo volume, com verbetes de F a O, trazendo à luz informações
sobre a vida social, cultural, esportiva, política, econômica e religiosa, bem como sínteses
biográficas de setubalenses que se destacaram em diversas áreas de intervenção, além de temas
pouco estudados até agora, especialmente sobre as movimentações e perseguições sofridas pelos
opositores ao regime salazarista (1933-1974). A apresentação do segundo volume deu-se no dia 29
de julho no Salão Nobre dos Paços do Concelho.
Tendo sido lançado em julho de 2025 o seu primeiro volume (com verbetes de A a E), o
Dicionário de História de Setúbal é um extenso trabalho coordenado pelo historiador Albérico
Afonso Costa, publicado pelo jornal O Setubalense no âmbito das comemorações de seu 171º
aniversário, com o apoio da Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra, da Câmara Municipal
de Setúbal e da empresa The Navigator Company. O terceiro volume, com verbetes de P a Z, está
previsto para julho de 2027. No total, os três volumes contam com a colaboração de quase uma
centena de profissionais de áreas como arqueologia, sociologia, antropologia, economia, arquitetura
e jornalismo.
Com a participação de 60 historiadores, o segundo volume traz mais de mil entradas e, como
o anterior, abrange um período de cerca de dois mil anos, desde a presença romana, quando o
vilarejo era conhecido como Cetóbriga, até a época contemporânea, sendo os temas dos séculos
XIX e XX de maior presença. Em resumo: o leitor vai encontrar neste e nos demais volumes
histórias desde a época em que o burgo não passava de uma medieval vila amuralhada contra piratas
e invasões até a sua transformação em cidade industrial e moderna.
Por isso, desde já, torna-se uma excepcional ferramenta de estudo para investigadores,
professores, estudantes e para todos os cidadãos interessados em conhecer melhor a história da sua
terra e, por extensão, de Portugal. Distribuído pelo município para escolas e bibliotecas do
Concelho, os dois primeiros volumes já começaram a ser utilizados por professores e alunos.

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II

Autor de destacados trabalhos de investigação sobre a história de movimentos de esquerda e,
especialmente, de resistência ao fascismo salazarista em Setúbal e região, Albérico Afonso Costa,
além de coordenador, é responsável pela maior parte das entradas. Uma dessas entradas conta sobre
a influência da guerra civil na Espanha (1936-1939), que seria intensamente acompanhada pelos
setores oposicionistas portugueses, em especial em Setúbal. A princípio, como diz o historiador, a
atuação da Frente Popular espanhola foi vista como uma vitória das esquerdas em Portugal.
Comunistas e anarquistas comemoraram o que imaginaram que seria a derrota do fascismo.
Com base num relatório do Ministério do Interior, que consta do Arquivo Nacional da Torre
do Tombo (ANTT), o historiador reproduz texto em que o ministro é informado sobre a existência
de tabernas onde populares ouvem uma estação de rádio de Sevilha que retransmite “propaganda
bolchevista em espanhol”. No mesmo documento, os informantes indicam ao ministro que os
adversários do regime salazarista “conspiram com arrogância indicativa de contarem com a vitória
certa”. Ainda na entrada, o historiador acrescenta que, em 1938, quando ocorreram prisões de
grupos anarquistas e comunistas em Espanha, muitos militantes espanhóis contaram com o apoio do
Partido Comunista Português (PCP), encontrando refúgio em Portugal.
Outra referência análoga ao tema é a que se refere à greve geral da indústria conserveira em
1922, que durou quase três meses, mas terminou com a vitória dos patrões. Depois de muita luta, os
grevistas acabaram por aceitar um aumento de 25% para os soldadores e de 20% para os demais
trabalhadores, ficando outras reivindicações não satisfeitas. Enfim, como diz a nota em seu
parágrafo final: “(…) estamos perante uma cidade operária que lutou até cair de exaustão, numa luta
em que apostou tudo quanto tinha e perdeu parte substancial da sua força anímica”.
Essa derrota dos operários levaria a uma apatia na cidade que, por isso, não registraria
grande impacto com a notícia do golpe militar de 1926, resultado de protagonismo crescente de
setores monárquicos e nacionalistas que simpatizavam com as soluções autoritárias inspirados na
Itália de Benito Mussolini (1883-1945) ou na Espanha de Primo de Rivera (1870-1930). Como se lê
na entrada referente ao golpe militar de 28 de maio de 1926, o movimento encontraria “Setúbal
mergulhada numa profunda crise econômica, social e política”.
Ao lado de muitas publicações que vicejaram em Setúbal, destaque-se a extensa nota
dedicada pelo coordenador ao Germinal, jornal que nasceu ligado aos setores mais radicalizados do
operariado de Setúbal e ideologicamente inspirado nas concepções libertárias, especialmente de
Errico Malatesta (1853-1932), Piotr Kropotkin (1842-1921) e Mikhail Bakunin (1814-1872). De
assinalar é que, à época, já se tratava de uma publicação que não se limitava à esfera laboral,
reivindicando também direitos iguais para homens e mulheres. Em artigo publicado na edição de

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15/4/1907, uma articulista de nome Maria Munhós, que nada ficaria a dever às feministas de hoje,
não perdoava nem mesmo os operários, acusando-os de, com as classes dominantes, procurar
“conservar a mulher na maior ignorância para mais facilmente a poderem dominar”. Para ela, havia
uma “dupla exploração da mulher”, tanto pelo capitalismo como pelo homem.

III

Entre os muitos estudiosos notáveis ligados à cidade, o segundo volume traz um verbete sobre o
arqueólogo Fernando Bandeira Ferreira (1921-2002), lisboeta de nascimento, mas residente em Setúbal a
partir de 1991, em cujo currículo constam prospecções em vários locais de Lisboa e sua área metropolitana,
que inclui Palmela e Setúbal. É autor de numerosos trabalhos que saíram em publicações de divulgação
literária e científica, como Mundo Literário, Seara Nova, O Arqueólogo Português, Brotéria, Revista de
Guimarães, Conimbriga e Revista da Faculdade de Letras de Lisboa, entre outras, bem como de um
dicionário especializado que contém milhares de entradas em que recorre à toponímia de vários locais e, a
partir de sua etimologia, procura aferir seu interesse para a arqueologia, mas que, infelizmente, embora
concluído, está pendente de edição desde 2005, como assinala a jornalista e historiadora Helena de Sousa
Freitas.
De especial atenção é também o verbete “Negros do Sado”, que trata dos escravos africanos que
foram levados para Alcácer do Sal, à época de Sebastião José de Carvalho e Melo (1699-1782), marquês de
Pombal e conde de Oeiras, secretário de Estado do Reino à época de D. José (1714-1777), cujo reinado
durou de 1750 a 1777. Os descendentes desses escravos tornaram-se pardos e pretos livres, que se integraram
à população local.
Como se lê no verbete, “Setúbal foi o povoado que maior número de negros teve na península com o
seu nome, atendendo a que tinha duas confrarias de negros: a de S. Benedito, no convento de S. Francisco, e
a de Nossa Senhora do Rosário, no convento de S. João”. Aliás, Setúbal era a terceira povoação que maior
população negra apresentava, atrás do Porto (com três confrarias) e de Lisboa, de acordo com o verbete
assinado pela professora Maria Cristina Neto (1944-2024), notável historiadora e autora de várias obras
sobre o tema, e José Luís Neto, doutor em arqueologia pós-medieval pela Universidade de Salamanca.
De se destacar é também o verbete que trata da habitação popular urbana em que se lê sobre o
crescimento urbano verificado em Setúbal a partir da década de 1860 e o impulso proporcionado nos finais
de Oitocentos com a indústria de conserva de peixe que foram coincidentes “com o agravamento das
condições de salubridade e com a consciência recente da ameaça bacteriológica sobre as populações
humanas”, como observa o historiador e professor Paulo Eduardo Guimarães, ao fazer um levantamento
histórico da expansão da cidade, com a criação de bairros marcados pela presença de barracos de madeira ou
em alvenaria, alugados “a trabalhadores em arruamentos precários”.
Na área esportiva, destaque-se, entre outras referências, a entrada dedicada a Jaime da Silva
Graça (1942-2012), o mais destacado setubalense no mundo do futebol, que fez parte da seleção
portuguesa que se classificou em terceiro lugar na Copa do Mundo disputada na Inglaterra, em
1966. Como observa o historiador Manuel Henrique Figueira, o jogador, de origem humilde, teve

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sempre inspiração na carreira do seu irmão, Emídio Graça (1931-1992), que, tendo se destacado no
Vitória Futebol Clube, de Setúbal, chegou a internacional, atuando pelo Sevilha, a partir de 1958.
Jaime começou no Palmelense, tendo se transferido para o Vitória, na época de 1959/60, chegando
à seleção nacional em 1965. Encerrado o Mundial de 1966, transferiu-se para o Benfica, onde ficou
até 1975. Sua passagem pelo clube da Luz foi um sucesso, pois juntou-se a um quinteto que ficaria
famoso: Coluna, José Augusto, Torres, Eusébio e Simões. E continuou ligado ao futebol como
treinador.

IV

Albérico Afonso Costa (1951) é historiador e investigador integrado do Instituto de História
Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de
Lisboa (UNL). Professor coordenador na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de
Setúbal (IPS) e doutor em História Contemporânea, na especialidade de História Cultural e das
Mentalidades, pela FCSH da UNL, tem colaborado e coordenado projetos na área da História, com
a formação de professores.
Tem vários trabalhos publicados nestas áreas de investigação, com destaque para: FPA, a
Fábrica Leccionada — Aventuras dos Tecnocatólicos no Ministério das Corporações (2008);
Roteiro Republicano de Setúbal, coord. (2010); História e Cronologia de Setúbal – 1248-1926
(2011); Salazar e a Escola Técnica — Uma reforma tolerada num regime intolerante (2011);
Setúbal sob a Ditadura Militar – 1926-1933 (2014); Setúbal Cidade Vermelha — Sem perguntar ao
Estado qual o caminho a tomar —1974/1975 (2017); Lugares de José Afonso na Geografia de
Setúbal (2019); Setúbal no Centro do Mundo, 165 anos do jornal O Setubalense, coord. (2020);
Setúbal sob o Estado Novo – A Resistência a Salazar, vol. 1, 1933-1949, 2021, e Setúbal sob o
Estado Novo – A Resistência a Salazar e a Caetano, vol. 2, 1950-1974 (2023); e O Círculo Cultural
de Setúbal – De Ninho Oposicionista a Quartel-General da Revolução, um redondo vocábulo, pela
mão de José Afonso (2024).
Tem proferido dezenas de comunicações e conferências sobre os temas de História
Contemporânea e formação de professores. Tem ainda publicações em livros coletivos, revistas e
atas de eventos científicos. Diretor da revista Medi@ções, da Escola Superior de Educação de
Setúbal, é também coordenador do Departamento de Ciências Sociais e Pedagogia e membro do
Conselho Técnico Científico da Escola Superior de Educação do IPS.
Em 2019, recebeu da Câmara Municipal de Setúbal a medalha de honra da cidade na classe
de atividades culturais. Em 2020, foi homenageado pela Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão
(Lasa) pelo “valioso contributo que tem dado à comunidade setubalense”.

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Dicionário de História de Setúbal, vol. II:F-O, de Albérico Afonso Costa (coordenação).
Setúbal, Jornal O Setubalense, 20 euros, 504 páginas, 2026. E-mail: geral@osetubalense.com


(*) Adelto Gonçalves (1951), jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e
Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São
Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999),
Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido
(Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás
Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012), Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na
São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra
Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-
1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends
(Robbin Laird, editor, 2024), publicado na Inglaterra. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

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