Os rapazes dos tanques | Carlos Matos Gomes in Facebook

A primeira questão que vos trago: o que esperamos de um livro? O que esperamos de um quadro, de um filme, de uma música, de uma dança, de uma obra de arte, em geral? Eu já tive várias respostas, mas hoje, se me perguntassem responderia o que vou responder depois de ter lido este livro do Adelino Gomes e do Alfredo Cunha: que me emocione.
Julgo que é de emoções de quem viveu estes factos do dia dos prodígios, deste dia limpo e claro, como o classificaram duas grandes escritoras, Lídia Jorge e Sophia de Mello Breyner e de quem os relata que este livro nos transmite e nos provoca.
Os relatos e as fotografias revelam-nos as emoções das personagens. É emoção em estado puro: a propósito dos factos reais, vividos, cada um dos homens atuais que foram os jovens militares deste dia de 25 de abril de 1974 estabelece a verdade das emoções que esses acontecimentos lhe causaram e causam.
Este livro coloca-nos um problema insolúvel e de que nós não gostamos de nos aperceber: vivemos todos num mundo de fantasia. A realidade existiu, mas passa a ser outra quando a relatamos. A questão das reconstruções credíveis, de que fala Adelino Gomes a propósito de um dos personagens, que, para ter vivido o que se lembra de ter vivido nesses momentos dramáticos teria de ser ele e outro, de ter estado em dois lugares ao mesmo tempo, leva-nos às interrogações: Nós somos quem? Fizemos o quê? A que a memória vai dando respostas cada vez mais imaginativas, que não deixam de ser verdade.


Mas nesta imaginação há consciência de cada ato. Cada um dos rapazes dos tanques, os de um lado e os do outro tem uma seriíssima consciência do fundamental: do poder de matar, de destruir que está na ponta dos seus dedos no disparador da peça. A consciência do imenso poder de que dispunham só por estarem ali, a bordo de um tanque, mantem-se até hoje, como uma marca de humanidade. Os rapazes dos tanques são, acima de tudo magníficos seres humanos. O único que não tem consciência é o único que não é dos tanques: o brigadeiro, o outro, como a ele se referem alguns dos militares. Todos os outros são cidadãos conscientes, com uma moral, com valores como os do respeito pela vida, pelo património, pela camaradagem. São homens de senso.
Uma curiosidade, ali bem perto da rua do Arsenal, onde se desenrolou esta luta entre o senso e o fanatismo, na varanda da Câmara Municipal, em outubro de 1910, no discurso da implantação da Republica, José Relvas tinha afirmado que a República seria governada com bom senso.
Dos relatos recolhidos para o livro percebemos que cada um dos participantes viveu aquelas horas, aqueles momentos decisivos, nalguns casos lado a lado, dentro da mesma torre de blindado, a ocupar um posto de combate na mesma esquina, mas nenhum viveu os mesmos momentos. Não há um relato coincidente.
Cada um destes homens que falaram, viveu o mesmo acontecimento histórico, mas nenhum tem dele o mesmo registo. Cada um apropriou-se da realidade à sua maneira e expô-la com a maior honestidade ao público.
As visões distintas, por vezes, radicalmente opostas, resultam das emoções que cada um sofreu.
Há aqui um jogo de verdades, que separaram destinos. O lado em que a história colocou cada um destes homens determinou a sua vida até hoje e levou-os a olharem para o mundo, para o seu país, para os outros, de forma incomparável.
O jovem militar que estava a bordo de um blindado de Cavalaria 7 e o jovem militar que estava a bordo de uma EBR da EPC podiam ser irmãos, podiam, como nalguns casos aconteceu, ter recebido instrução e treino no mesmo quartel, sido comandados pelo mesmo oficial, mas o facto de um estar do lado dos vencidos e outros dos vencedores separou-os e há disso testemunhos emocionantes, como se, cada um, a partir dessa situação aleatória, assumisse e interiorizasse o resultado do que esteve em jogo no dia 25 de abril. A ponto de alguns deles nunca terem revelado a sua participação nos acontecimentos, de nunca terem celebrado o 25 de abril, de conviverem mal com o novo regime. Passaram a carregar uma nódoa. A ter uma mancha no passado.
É por esta razão que eu gosto muito do título do livro: os rapazes dos tanques. Porque é de uma circunstância – serem rapazes e servirem como militares em tanques – que os leva a entrarem como entraram na grande História. É essa a sua marca. É essa a circunstância que me leva a ler uma pequena transcrição de Pascal em Sabedoria:
“ Aterro-me e assombro-me de me ver aqui e não alhures, pois não há razão alguma para que esteja aqui e não alhures, agora e não em qualquer outro momento. Quem me colocou nessas circunstâncias, nessas condições? Por ordem e por obra e por necessidade de quem me foram designados esse lugar e esse momento?”
Um livro como este, de texto e de fotos, oferece-nos múltiplas oportunidades de interpretação e de interrogação. E o que eu aqui faço é interrogar-me em voz alta sobre o que tive o privilégio de ler nas palavras do Adelino Gomes e ver nas imagens criadas pelo Alfredo Cunha. Ao rever as fotos, umas mais conhecidas, outras nem tanto, desta vez detive-me nas que constam das páginas 16, 17 e 22. O que me chamou a atenção foi a naturalidade e a neutralidade com que se misturam militares armados e civis que passam quase indiferentes a caminho dos seus destinos diários. Cada um está a fazer o que tem de fazer. É evidente que Portugal era, em 1974, uma sociedade militarizada, a segunda sociedade mais militarizada a seguir a Israel daí que um militar não fosse propriamente uma ave rara, mesmo no Terreiro do Paço e atrás de uma arma… e estas atitudes levam-me à pergunta que muitos já fizeram antes:
“Afinal o que é o homem dentro da natureza? Nada em relação ao infinito – há infinitas possibilidades de resolução neste momento das fotos – tudo em relação ao nada: cada um é o ator principal do drama que está a ser representado. Digamos que, como em muitas imagens deste livro, as expressões, os tons, dizem-me que cada um daqueles jovens é um ponto intermédio entre o tudo e o nada.
Este livro é em si uma mensagem de esperança contra a iniquidade do poder totalitário: os rapazes dos tanques, na sua singeleza, são os grãos de areia que destroem a engrenagem da grande máquina. O livro diz-nos que é possível destruir a grande máquina da opressão mesmo que cada um deles não seja capaz de compreender os extremos entre os quais está colocado. Nem os rapazes dos tanques que vão derrubar a ditadura, nem os dos tanques que a vêm defender compreendem naqueles momentos entre a ribeira das Naus e o Arsenal, no largo do Carmo tanto o fim das coisas em que estão metidos, quanto o seu princípio.
O drama posterior, que irá acompanhar os rapazes dos tanques que saíram a defender o regime, é que eles podiam ser os rapazes dos tanques que o derrubaram. Existiu nessa circunstância um poder oculto que tornou impossível essa transferência.
Este é, em resumo, um livro de que os filhos da mãe, os maldosos, os perversos se devem abster para não o conspurcar. É um livro para leitores de alma pura, que se deixem encantar com histórias de heróis míticos. É um livro para as crianças que todos os homens e mulheres de bem continuam a ser. É um livro purificador, que os faz acreditar que um futuro melhor é possível porque, que diabo, há-de haver aqui em Portugal, nas novas gerações, mais rapazes dos tanques!
Lisboa 25 de Março de 2014
Carlos de Matos Gomes

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.