O Homem que fez tudo

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Com a Ditadura Militar, instaurada na sequência do golpe de 28 de Maio de 1926, Carlos Botelho Moniz assume a liderança da Câmara de Setúbal, cargo que desempenhará até 1930.

Alinhado politicamente com o novo regime e contando com o apoio dos comandos militares locais, Botelho Moniz, que conhece a realidade sociológica da cidade – com uma matriz fortemente operária de cariz ideológico libertário -, decide seguir uma estratégia de não afrontamento com as associações de classe. Para o efeito não hesita em tomar medidas populistas, em contraciclo com os afetos ideológicos da Ditadura Militar.

Junto do novo poder, ainda não totalmente consolidado, insinua-se como instrumento de pacificação da antiga “Barcelona portuguesa”, conseguindo apoios e ajuda financeira para os seus projetos. Apresenta-se como líder de um grupo de cidadãos que à margem da política conseguiu aquilo que aos políticos nunca foi possível. O discurso protofascista contra a incompetência dos “políticos” face à capacidade realizadora dos técnicos era bem evidente.

Lança uma série de projetos ambiciosos, nem todos concretizados, como o novo porto da cidade. Rasga a avenida Todi, traz a energia elétrica, aposta na promoção do turismo e realiza a I Exposição Regional de 1930. Um despesismo feito à custa de dívida contraída junto da CGD. Botelho Moniz tem uma gestão centralizada do poder e, como todos os homens providenciais, não acautela a sua sucessão.

No auge do êxito da I Exposição Regional, Botelho Moniz prepara a sua saída triunfal da presidência da câmara, com a região e o país rendidos à sua capacidade empreendedora. Lisboa e o poder central estão agora na rota das suas ambições.

Setúbal presta-lhe as maiores homenagens. O “Homem que fez tudo” chama-lhe o jornal “O Setubalense” dedicando-lhe toda a primeira página.

Sem um sucessor nomeado, a gestão da cidade cai numa imensa instabilidade, sucedendo-se as comissões administrativas e agravando-se as condições financeiras da edilidade, incapaz de honrar os seus compromissos com credores e funcionários. As cartas dirigidas ao ministro das finanças não surtem o efeito desejado. A crise só será resolvida, já com Salazar como Presidente do Concelho (acumulando a pasta de Ministro das Finanças), por recurso a um empréstimo da CGD e com Joaquim Costa Novais na presidência da câmara. Sobrepondo-se, às sensibilidades locais e aos seus jogos de poder, as dificuldades financeiras da cidade deram a Salazar a última palavra. Terá Salazar extraído daqui alguma lição?

Muitos foram os instrumentos de manutenção do poder usados pelo Estado Novo. Ao ler esta passagem do livro, “Setúbal Sob a Ditadura Militar”, de Albérico Afonso Costa, dedicada à gestão da edilidade de Setúbal, surge-me a seguinte questão: até que ponto Salazar usou as dívidas do poder local como forma de o subjugar?

Setúbal Sob a Ditadura Militar” é o resultado de uma investigação bem documentada suportada em fotografias, recortes de jornais e outros documentos, encerrando este livro com um capítulo dedicado à iconografia setubalense. A capa e edição pertencem a José Teófilo Duarte da Editora Estuário.

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