Como acabam as Repúblicas | Paul Krugman | in “Esquerda.Net”

krugmanPaul Krugman reflete sobre a decadência da República de Roma e a democracia nos EUA, publicado no blog do NYTimes – The Conscience of a Liberal.

Muitas pessoas reagem ao Trumpismo e movimentos xenófobos na Europa olhando para a História – especificamente, a história dos anos 30. E estão certos em fazê-lo. É necessário uma cegueira voluntária para não ver os paralelos entre o surgir do fascismo no séc. XX e o pesadelo político atual.

Mas os anos 30 não são a única década com lições úteis. Ultimamente, tenho lido bastante sobre o mundo antigo. Inicialmente, devo admitir, como entertenimento e refúgio das notícias que pioram a cada dia que passa. Mas não pude deixar de reparar nos ecos contemporâneos de parte da história de Roma – especificamente, a lenda de como a República Romana caiu.

O que aprendi destas leituras foi isto: quando pessoas poderosas desafiam a norma, as instituições republicanas não protegem contra a tirania. E tirania, quando surge, floresce mantendo uma fachada republicana.

Sobre o primeiro ponto: a política Romana implicava uma competição fortíssima entre homens ambiciosos. Mas durante séculos, essa competição estava limitada por algumas regras aparentemente inquebráveis. No livro In the Name of Rome, Adrian Goldsworthy argumenta que “Seja qual for a importância de um indivíduo em ganhar fama e prestígio para a sua família, isso deveria estar sempre subordinado ao bem da República (…) nenhum político Romano desiludido procurava ajuda de uma potência estrangeira.”

Os Estados Unidos da América costumavam ser assim, com senadores proeminentes declarando que devemos impedir o “partidarismo político na linha de água”. Mas agora temos um presidente-eleito que pediu publicamente à Rússia ajuda para atacar a sua oponente Hillary Clinton durante a campanha, e todos os sinais indicam que a maioria do seus partido esteve e está absolutamente confortável com isso. (Uma nova sondagem (link is external)demonstra que os níveis de aprovação de Vladimir Putin junto do público aumentaram apesar de – ou talvez, precisamente porque – se ter tornado claro que a intervenção Russa teve um papel importante nas eleições norte-americanas). Sectarismo partidário é tudo o que interesse, o bem da República que se lixe.
E o que acontece à República como resultado? Espantosamente, a transformação formal da República em Império nunca realmente aconteceu.

Oficialmente, a Roma imperial era ainda governada por um Senado que, por mero acaso, se submetia ao Imperador, um título que originalmetne significava apenas “comandante” para aquilo que se fosse relevante. Podemos não ir pelo mesmo caminho mas o processo de degradação substantiva da democracia mantendo a estrutura formal está já em ação.

Consideremos o que aconteceu na Carolina do Norte. Os eleitores fizeram uma escolha e elegeram um governador do Partido Democrata. A legislatura do Partido Republicano não recusou o resultado – pelo menos não desta vez – mas despojaram o gabinete do governador efetivamente de poder, assegurando que a vontade do eleitardo é absolutamente irrelevante.

Combinando este tipo de ações com esforços continuados para destituir de direitos ou desencorajar o voto de grupos minoritários, e temos as condições perfeitas para um Estado de Partido Único: algo que mantém a ficção de democracia mas que subverteu o jogo de forma a que mais ninguém ganha eleições.

Porque razão está isto a acontecer? Não pergunto porque razão trabalhadores brancos apoiam políticos cujas políticas os prejudicam – voltarei a esta questão em artigos futuros. Ao invés, a minha questão é porque razão os políticos e representantes de um partido deixaram de se preocupar com o que costumavam ser valores essenciais dos EUA. E devemos ser claros: isto é um problema exclusivo do Partido Republicano, não há aqui um caso de “eles são todos iguais”.
Qual é, então, o motor desta estória? Não creio que seja verdadeiramente ideológico.

Políticos liberais e defensores do mercado aceitam cada vez mais o capitalismo selvagem desde que este inclua os homens certos. Não tem nada a ver com guerra de classe – redistribuição dos pobres e classe média para os mais ricos é uma constante programática do Partido Republicano. Mas o que objetivamente ataca a democracia, diria eu, é o carreirismo por parte de pessoas que são apartchiks de um sistema impermável a pressões externas criado por manipulação de distritos eleitorais, lealdade partidária inabalável, e um apoio massivo da plutocracia financeira.

Para estas pessoas, defender a linha política e o poder do Partido é tudo o que interessa. E se elas parecem consumidas por raiva cada vez que alguém as confronta, é assim que trastes reagem.

Uma coisa que fica clara é que a doença da política dos EUA não teve início com Donald Trump, tal como a doença da República de Roma não teve início com César. A erosão dos alicerces democráticos ocorre há décadas, e não há nenhuma garantia que seremos capazes de recuperar.

Mas se existe alguma hipótese de redenção, teremos de começar com um reconhecimento claro de quão mal as coisas estão. A democracia nos EUA está à beira do abismo.

Por Paul Krugman, publicado no NYTimes(link is external)The Conscience of a Liberal (link is external)/ @PaulKrugman(link is external)

(tradução do Esquerda.net)

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