Oleogarquia | a aliança Trump/Putin explicada | João Camargo in Esquerda.net

joaocamargo_0_1O jogo chama-se Oleogarquia – Oiligarchy em inglês – e pode ser jogado online aqui(link is external). É um jogo de 2008, simples e realista: é-se o presidente de uma empresa petrolífera americana no final da 2ª Guerra Mundial e o objectivo é o mais simples de todos: fazer dinheiro através da exploração de petróleo. Há no início 5 locais para possível prospecção e extracção: o Texas sem qualquer restrição, o Iraque que é um país independente e onde portanto não se pode extrair, o Alasca, zona protegida onde é proibido extrair em terra e no mar, a Venezuela em que, apesar de ser um país independente, é possível extrair em terra e no offshore, e a Nigéria onde, também sendo um país independente, é possível explorar petróleo em terra.

O tempo vai passando e a cada 10 anos há eleições presidenciais nos Estados Unidos. A escolha de um candidato de entre Democratas e Republicanos, a quem “apoiar” financeiramente (ou aos dois candidatos, não há problema), dá acesso a legislação para abrir a exploração de petróleo (nomeadamente no Alasca, onde para dar emprego aos caribus pode-se abrir a zona Ártica), a legislação para expandir autoestradas, automóveis, aviões, para tornar a economia mais e mais dependente de petróleo. No fim de cada eleição fica-se a saber se o presidente é ou não “oleado”. Para tal basta apenas dar dinheiro às duas campanhas. Ter um presidente “oleado” significa também acesso à política externa dos Estados Unidos. Como é preciso expandir a produção, o melhor é apoiar o Kuwait no desafio ao Iraque e começar uma guerra para invadir o país. Uma vez ganha a mesma, podemos instalar plataformas petrolíferas. A instabilidade no país manter-se-á, mas com o apoio contínuo do exército americano e com a protecção de mercenários, tudo se resolverá. Apesar de se poder explorar petróleo na Venezuela, mais cedo ou mais tarde as populações vão reivindicar uma fatia do mesmo, por isso é importante apoiar golpes de Estado no país, que instalem no poder regimes abertos ao “investimento estrangeiro”. Já na Nigéria não está à disposição esta mudança de regime, pelo que é importante que a empresa intervenha directamente: a destruição que a exploração de petróleo fará no país levará à contestação popular. Podemos começar devagar, pagando ao governo para retirar a protecção ambiental, mas mais cedo ou mais tarde será necessária uma intervenção mais “musculada”, como matar alguns líderes camponeses. Mas fica tudo barato comparado com o lucro que a extracção produz. Depois, só é preciso ir fazendo a manutenção durante as décadas seguintes em que o aquecimento do planeta vai tornando a vida impossível: ir subornando as milícias que entretanto surgirão na Nigéria, enviar mais e mais soldados para o Iraque, de maneira a evitar os ataques às plataformas, e ir substituindo os mercenários mortos. Em Washington, a contestação far-se-á sentir, seguramente, mas nada como instalar a paranóia securitária com a facilitação de alguns atentados em solo americano e garantir no Congresso a equiparação dos manifestantes a terroristas, assim como infiltrar os grupos sociais mais activos para manter o dinheiro a entrar na caixa. Quando o petróleo acabar, entra a tecnologia de transformar pessoas em petróleo, que pode ser instalada em todo o lado e que permite manter o lucro durante mais umas décadas. O jogo só pode acabar de duas maneiras: ou com o fim do mundo, geralmente através de uma guerra nuclear pela disputa dos últimos recursos, ou com o despedimento pelos accionistas porque o lucro não está a chegar com a velocidade exigida.

Sendo este jogo uma excelente maneira de analisar aquilo que foram os últimos 60 anos da história dos EUA (simplificadamente, claro), nunca a noção de presidente “oleado” foi tão evidente como hoje. Nem George W. Bush e Dick Cheney, cujas escandalosas ligações ao petróleo e à invasão de países com o recurso, que certamente inspiraram o Oleogarquia, são comparáveis a Donald Trump. O governo de Trump é uma mistura de grandes administradores das petrolíferas, do banco de investimento Goldman Sachs e de negacionistas das alterações climáticas:

– O Secretário da Energia é Rick Perry, ex-governador do Texas, homem do petróleo e negacionista das alterações climáticas;

– O líder da protecção ambiental é Scott Pruitt, negacionista das alterações climáticas e violento defensor das petrolíferas contra a protecção do ambiente;

– O Secretário do Interior é Ryan Zinke, fortemente a favor da exploração de petróleo e gás em terrenos públicos;

– Jeff Sessions é o Procurador Geral da República e opõe-se directamente a qualquer regulação sobre o sector petrolífero há anos;

– A Secretária dos Transportes, Elaine Chao, será responsável por expandir uma gigantesca infraestrutura de combustíveis fósseis, tendo atacado qualquer legislação sobre eficiência dos combustíveis quando os transportes são o maior emissor de gases com efeito de estufa do país;

– O Secretário do Comércio, Wilbur Ross, foi proprietário de minas de carvão e fundador de uma organização patronal de exploração de carbono, líder de várias associações automóveis e tem milhares de milhões de dólares investidos em projectos de petróleo e gás;

– O Secretário da Saúde, Tom Price, é um negacionista das alterações climáticas;

– O Secretário da Defesa James “Mad Dog” (cão danado, sim) Mattis é um ex-general que participou na Guerra do Golfo, na Invasão do Afeganistão e do Iraque;

– Michael Flynn, Conselheiro de Segurança Nacional, é um ex-lobista da indústria petrolífera;

– Larry Kudlow, chefe do Conselho Económico, é negacionista das alterações climáticas e trabalhou para os tubarões do petróleo, os irmãos Koch;

– A Secretária da Educação, a multimilionária Betsy DeVos, cuja família foi a principal financiadora da campanha de Trump, é irmã do fundador da empresa de mercenários Blackwater, está intimamente relacionada com os irmãos Koch e tem grandes investimentos em petróleo e gás em África.

– O regulador da Bolsa de Wall Street será Jay Clayton, advogado da Goldman Sachs;

– O Secretário do Tesouro será Steve Mnuchin, ex-sócio da Goldman Sachs;

– O conselheiro principal para a Economia será Gary Cohn, um dos presidentes da Goldman Sachs.

Como corolário desta galeria de grandes especuladores financeiros e oleogarcas, de longe o governo mais multimilionário da História dos Estados Unidos da América, o Secretário de Estado (equivalente ao Ministro dos Negócios Estrangeiros) será Rex Tillerson, o presidente do Conselho de Administração da ExxonMobil, a maior petrolífera do mundo. Numa altura de colapso climático, em que é imprescindível travar a fundo a utilização do petróleo, do gás e do carvão, é a Oleogarquia que toma conta do governo do país que produz mais combustíveis fósseis no mundo, os Estados Unidos.

Esta tomada de poder não se faz alterando apenas a política energética e externa, mas também mudando alianças. A cada vez mais fria Guerra Fria entre Estados Unidos e Rússia, com actual epicentro na Síria, tem os dias contados. Na Síria lutam as facções apoiadas por um lado pelos Estados Unidos e pela União Europeia, e pelo outro lado pela Rússia, num conflito que tem origem numa degradação climática sem precedentes, em intervenção externa, em repressão brutal, mas também responde em muito à proposta da construção de mais um gasoduto para trazer gás para a Europa em alternativa ao gás russo. Numa altura em que sabemos da necessidade inequívoca de travar a exploração de combustíveis fósseis, eles ainda alimentam os maiores conflitos armados. É unânime nos serviços de informação dos Estados Unidos que a Rússia interferiu nas eleições dos Estados Unidos (e quão irónico não é ver a CIA a queixar-se da intervenção em eleições por parte de um governo externo), o que está a criar um grande problema institucional quando o presidente eleito – e principal beneficiado por essa interferência – diz que não confia nos serviços secretos do seu país. Putin apenas aguarda pacientemente a saída de Barack Obama, com mais ou menos sanções, com mais ou menos expulsões de diplomatas, para iniciar um novo capítulo das relações russo-americanas. O Ártico será um dos eixos principais da nova cooperação, razão pela qual Barack Obama interditou (com que eficácia é algo que se descobrirá quando Trump tomar posse) a exploração de petróleo e gás no Pólo Norte em degelo. Putin é o principal beneficiado desta aliança por um lado, com as petrolíferas americanas pelo outro: a Rússia é um petro-estado, sendo o principal exportador de gás do mundo e o segundo exportador de petróleo do mundo. Os Estados Unidos são o maior produtor mundial de combustíveis fósseis do planeta. Nas 10 maiores empresas petrolíferas do mundo, duas são americanas (a ExxonMobil e a Chevron), enquanto três são russas (a Gazprom, a Rosneft e a Lukoil).

Em conjunto com a China, os Estados Unidos ratificaram o Acordo de Paris, para limitar a subida da temperatura em 2ºC até 2100. Trump ameaça rasgar o acordo ou sair mesmo da Convenção-Quadro das Nações Unidas para as Alterações Climáticas. A Rússia nem sequer ratificou o acordo. Por ter algumas das maiores empresas petrolíferas do mundo, e por essas mesmas empresas terem um peso tão grande na economia (muito mais que nos Estados Unidos) a Rússia vive numa bolha: a possibilidade de no curto-médio prazo se deixar de explorar combustíveis fósseis seria terrível para o país (embora essencial para a espécie humana), em particular porque o mesmo não se preparou nem prepara para um novo clima e para uma nova energia. Os campos petrolíferos do Ártico russo só valem alguma coisa – e teoricamente valem 500 mil milhões de dólares – se os investidores não desinvestirem do petróleo e do gás (a tendência global é claramente para o desinvestimento).

Para se garantir que nos próximos anos se mantêm e até regressam os investimentos em petróleo e gás (a Goldman Sachs será uma das ferramentas para isso), será necessário atacar a questão das alterações climáticas. É isso que a Oleogarquia está a fazer: além das nomeações e do abandono dos tratados internacionais, pôs Trump a ameaçar cortar todo o investimento em investigação científica em alterações climáticas (em particular da NASA) e inclusivamente retirar os satélites que fazem recolha de dados, a atacar as empresas de baixo carbono (contra as eólicas é notório), a manter os subsídios públicos às energias fósseis, retirando os incentivos às renováveis, e apostar no poder mais anti-democrático possível, com instabilidade política e agressividade, garantindo ainda um grande investimento em infraestruturas para fósseis, nomeadamente oleodutos e gasodutos para difundir os produtos e garantir aquilo que se chama um lock-in de investimento que impede a transição para as renováveis, com o dinheiro dos impostos a garantir os retornos dos investimentos (aqui uma vez mais a Goldman Sachs terá um papel relevante).

Esta aliança oleogarca com um presidente verdadeiramente oleado nos Estados Unidos (e foram todos, sejamos sinceros, mas havia pela primeira vez uma pressão muito maior nestas eleições) é a última barricada da indústria petrolífera para conseguir travar o ímpeto da mudança energética no sentido das renováveis. O novo eixo oleogarca russo-americano é hoje a maior ameaça que já existiu para a espécie humana. E o jogo continua a ter apenas dois finais possíveis: o fim das petrolíferas ou o fim da civilização como a conhecemos.


Artigo publicado no site da revista Sábado(link is external), 6/1/2017

Sobre o Autor

Investigador em Alterações Climáticas. Dirigente do Bloco de Esquerda e deputado municipal na Amadora

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