“Deus-Dará” | Alexandra Lucas Coelho | por André Barata

“Deus-Dará”, da Alexandra Lucas Coelho, é um grande romance, dos melhores que li em alguns anos entre autores de Portugal, tão bom que demorará a entrar, muito além da boa prosa jornalística que imediatamente nos conta uma boa história, muito além da imediatidade, e do circo todo ele cheio de pressa, do reconhecimento, das críticas, dos prémios.

Há grandes romances de várias espécies. O da Alexandra exemplifica aquela espécie de romance que consegue capturar a singularidade de um tempo que foi vivido por muitos de uma geração. Evitarei as comparações, mas o próprio romance trá-las nos seus intertextos. Esta geração, que é bastante a minha, em que tantos se acharam a viajar oportunidades fora, teve muitos no Brasil que se surpreenderam a experiência de não serem aí verdadeiramente estrangeiros, mas aí conhecerem em muitos aspectos a experiência do que trazemos de estrangeiros em nós mesmos, desde logo como portugueses, imperialistas escravistas que pouca memória guardam de o ter sido, como falantes a reencontrarem-se na sua própria língua apesar de quase emigrados nela, e como testemunhas de um país continental de tantas maneiras e a tantas escalas vertiginoso.

Alexandra, ou o seu narrador, e as suas personagens, abraçam todas as vertigens do Brasil, a partir de uma Rio de Janeiro que cobre e transforma tão depressa as camadas passadas como a vegetação tropical ruínas. Nela o tempo da história corre mais depressa do que deste lado do Atlântico, tão depressa que deixa de ser inequívoco onde passou mais história, tão volátil que nos 500 anos que a objectividade conta irrompem e misturam-se outros tempos, passados ou sem tempo. Hibridam-se os tempos e os lugares, entre o urbano, a favela e, de súbito, a floresta tropical, e o céu do cruzeiro do sul. E ainda as experiências, que, já bem avançado o romance, têm no alucinogénico chá do Santo Daime o clímax destas mestiçagens de lugares, tempos, palavras e música e sempre, mas nunca só, de gente. Sartre dizia que a metafísica de um autor, fosse Camus ou Faulkner, encontrava-se na maneira como tratava o tempo. Se isso for um pouco só verdade, então é certo que a Alexandra tem neste romance a sua metafísica.

Mas é também o Brasil de hoje, desdobrado por 7 personagens, na verdade muito menos personagens do que partes de uma personagem organísmica total que acaba por ter no narrador fino de ironias a forma mais lúcida, Brasil atravessado por paradoxos de desenvolvimento e violência, de sentimentos complexos, sempre a hibridarem-se e transmudarem-se no inesperado.

Grandes romances também se singularizam pelo que se idiossincrasiam. Neste, um registo digressivo, por vezes a raiar o documentalismo, onde não faltam os retratos de pessoas, poses impressionantes de status social, fotografias de casarões feitos entretanto desfeitos, reproduções de cartões postais ilustrados, recortes de imprensa, descrições de relatos, dos primeiros índios avistados, da escravatura, da casa grande e da senzala, e que tem no título do romance, afinal muito mais longamente descritivo do que a menção à canção do Chico, a alusão aos tratados dos naturalistas ou dos primeiros antropólogos.

Não me faço de crítico literário, mas, para mim, é extraordinariamente generoso o que este romance faz pela literatura portuguesa, brasileira, ou pelo híbrido ( outro!) que faz das duas e que não sabemos se tem ainda, ou por quanto tempo mais, um fundo comum. E também por estes milhares de cá e de lá da nossa geração, que nos cruzámos e nos enredámos para a vida, sem que talvez tal torne a proporcionar-se da mesma forma no futuro. Mas, não menos por este romance ser tão poderosamente sobre identidades como visceralmente não-identitário.

Retirado do Facebook | Mural de André Barata

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