Notre-Dame | Francisco Louçã

Notre-Dame é nossa como o são os Budas de Bamyan, e por isso queremos preservar todos esses sinais do tempo. Notre-Dame não é bela por ser prova de alguma superioridade europeia, é-o por ser uma glória do engenho e da cultura mundiais.

Provocado por desleixo ou acidente, o incêndio que destruiu pelo menos o pináculo e o teto da catedral de Notre-Dame é um choque civilizacional que emociona e magoa quem reconheça a cultura como ela é, uma expressão da História. História e cultura são isso mesmo, a diversidade dos olhares: alguns verão a catedral como um lugar de religião, outros recordarão Lutécia, alguns descobrirão a ousadia arquitetónica do gótico nascente, outros ainda a entrada para o Quartier Latin do outro lado da ponte, alguns lembrarão Joana d’Arc ou Napoleão Bonaparte, outros ainda evocarão Victor Hugo ou até a versão Disney da paixão de Quasimodo e de Esmeralda. Mas todos reconhecerão a solenidade do tempo, os vitrais e as torres desta nossa Notre-Dame.

Notava de manhã Sena Santos, na Antena Um, que outras catedrais foram feridas pelo desastre: a de Reims, glória gótica, bombardeada pelo exército alemão em 1917, a de Coventry, bombardeada em 1940 pela aviação hitleriana, a de Dresden, arrasada pelos Aliados em 1945, todas durante as tormentas das guerras europeias. Esta, a maior, terá ardido pela incúria. Mas a perda é a mesma, o fogo roubou-nos uma parte da memória da humanidade.

Não é de hoje mas continua hoje, a tragédia persegue a nossa História. Como os generais que nas guerras europeias escolheram aqueles alvos ou aceitaram que as bombas os atingissem, os talibãs dinamitaram no Afeganistão os Budas de Bamyan e o ISIS demoliu parte das ruínas de Palmira, na Síria. Em todos os casos, foram heranças comuns da humanidade que foram destroçadas. Estes não eram patrimónios caucasianos ou árabes, africanos ou asiáticos, eram e são de toda a humanidade. Por isso, perante a desgraça, evocar particularismos proprietários seria uma forma de racismo que nega a raiz universalista de toda a cultura.

Notre-Dame é nossa como o são os Budas de Bamyan, e por isso queremos preservar todos esses sinais do tempo. Notre-Dame não é bela por ser prova de alguma superioridade europeia, é-o por ser uma glória do engenho e da cultura mundiais. Reconhecê-lo é o imenso ponto de convergência de quem se comove com estas perdas e quer defender e reconstruir o que é de toda a gente.

Pode-se por isso ceder à tentação de fazer desta tragédia um jogo (um candidato às eleições europeias não resistiu a exibir a sua mesquinhez alegando que a tristeza perante o incêndio comprova o seu discurso), ou pode-se tratar a perda como ela é: um desafio aos de hoje sobre como vivemos, respeitamos e preservamos o nosso passado comum. Um desafio a toda a gente, porque é de toda a gente.

Artigo publicado em expresso.pt a 16 de abril de 2019

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.

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