A GAGUEZ EM FOCO NOS MEDIA | Pedro Mendonça | Sociedade Portuguesa de Terapia da Fala

Desmistificar e compreender | uma perturbação da fluência partilhada por aproximadamente 1% da população

Nas últimas semanas, a gaguez ganhou uma rara exposição pública e mediática. Joacine Katar-Moreira surgiu aos microfones de rádios e em debates televisivos, como muito raramente uma pessoa que gagueja ousa fazer em Portugal. Entrevistadores e candidatos – dos mais distintos quadrantes políticos – concentraram-se nas suas ideias e não na forma como as transmitia. Souberam não interromper, nem completar palavras ou frases, demonstrando uma saudável cultura cívica.

Nas redes sociais, milhares de portugueses manifestam o seu apoio. Alguns, mais conhecedores do que consiste a gaguez, tentam combater os muitos estereótipos e mitos que lhe estão associados. Carlos Guimarães Pinto, candidato de outro partido, também ele uma pessoa que gagueja, assumiu esse papel, explicando, por exemplo, que a variabilidade dos momentos de gaguez é absolutamente normal. Afinal, o que qualquer pessoa que gagueja enfrenta diariamente são momentos em que a fala flui de forma natural, intercalados com outros, onde a gaguez se intromete, dificultando a comunicação.

Muitas são as dúvidas que têm surgido. Enquanto terapeutas da fala cabe-nos esclarecê-las, o que faremos de seguida. Antes, porém, queremos transmitir que, compreendendo as limitações que a gaguez pode causar, apoiamos de forma inequívoca, e reconhecemos o grande valor acrescentado, do envolvimento na sociedade civil de pessoas que gaguejam, assim como outros que tenham algum tipo de desvantagem na comunicação.

• A gaguez é a perturbação da fluência mais frequente, podendo surgir até à adolescência. Mais de 5% das crianças atravessa um período de gaguez. Esta condição é maioritariamente de origem genética (é muito comum ter um familiar que também gagueja) e nos casos crónicos acompanha os indivíduos pela vida fora. Está cientificamente provado que a intervenção precoce é a forma mais eficaz de lidar com esta condição.

• A gaguez caracteriza-se pela presença de disfluências atípicas do discurso, de natureza involuntária, com duração e forma variáveis que resultam de dificuldades de planeamento e execução motora da fala. O que significa que a pessoa sabe perfeitamente o que quer dizer, mas a palavra não flui da forma como a pessoa desejaria.

• Esta produção da fala é geralmente acompanhada por esforço e/ou tensão muscular, podendo traduzir-se em movimentos do corpo que só se manifestam nos momentos de gaguez (por exemplo: piscar de olhos). O próprio experiencia, por vezes, ausência de controlo sobre a mesma e/ou reações comportamentais, cognitivas, emocionais e fisiológicas.

• A variabilidade da manifestação é uma característica muito frequente. O que significa que pode ocorrer de diferentes formas, em diferentes circunstâncias, inclusive durante o próprio dia pode ter várias manifestações devido ao carácter dinâmico da condição. A forma como cada pessoa gagueja é única, com diferentes graus de gravidade e com características muito particulares. Esta característica faz com que as pessoas possam ter situações de (praticamente) ausência de gaguez a situações de gaguez grave, quase impossibilitando a comunicação. Esta variabilidade pode confundir o interlocutor, o que faz com que as pessoas com gaguez sejam muitas vezes incompreendidas e mal interpretadas.

• Qualquer uma das características referidas pode ter um impacto profundo na pessoa que gagueja, influenciando as mais diversas dimensões da sua vida: participação escolar, escolhas profissionais ou actividades sociais. Muitas pessoas que gaguejam desenvolvem ações que visam o evitamento da gaguez, tornando-se exímios na substituição das palavras onde repetidamente bloqueiam ou exibem prolongamentos. Igualmente comum é o desenvolvimento de sentimentos negativos associados ao ato comunicativo, como ansiedade, vergonha ou medo. As crenças negativas ou pensamentos automáticos associados ao ato comunicativo podem inibir a sua comunicação.
Enquanto Sociedade Portuguesa de Terapia da Fala cumpre-nos também o papel da formação/informação da comunidade civil esperando desta forma reduzir/abolir mitos que se relacionam com lacunas no conhecimento.
Estamos disponíveis para qualquer esclarecimento acrescido que necessitem e teminamos com um desafio: Quantos de nós teríamos a coragem de Joacine Katar-Moreira?

Retirado do Facebook | Pedro Mendonça | Sociedade Portuguesa de Terapia da Fala

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.