Cultura Chunga — A Nova Cultura de Massas | Carlos Matos Gomes

Em Minima Moralia, o filósofo alemão Theodor Adorno, da Escola de Frankfurt, interrogava-se, após o final da II Guerra Mundial e de ter sofrido o desterro provocado pelo nazismo, por que razão “a humanidade, em vez de subir a um estado verdadeiramente humano, se afundara numa nova espécie de barbárie.”

Adorno considerava como determinantes do embrutecimento da vida e da perda do convívio social, caraterísticos do nazismo, o esquecimento histórico dos homens.

O que nos leva a repetir os erros?

Hoje, como antes da ascensão do nazismo, vivemos tempos de perigosos esquecimentos. A vida social, escreveu premonitoriamente o filósofo alemão, após se ter deslocado para o âmbito do mundo privado, encontra-se reduzida à esfera do mero consumo. A sociabilidade pouco mais é que um apêndice do processo de produção material, uma indústria.

Era assim antes da Segunda Guerra. É assim desde o neoliberalismo triunfante dos anos 80, com Reagan e Tatcher, que destruiu os laços de solidariedade indispensáveis à vida social, incluindo o mercado que sacralizou.

Há um fenómeno global que ajuda a explicar esta regressão: a cultura de massas. O termo começou a ser utilizado após a II Guerra Mundial para definir o antagonismo entre a cultura das classes populares, que emergiram do conflito e a das elites responsabilizadas pela sua eclosão, mas rapidamente foi reapropriada pelos novos grupos dominantes e passou a designar a forma mais eficaz e rentável de condicionar e corromper os comportamentos e as decisões dos indivíduos, a vida social. A cultura de massas é hoje uma gigantesca turbina de transformação do pensamento e do espírito em mercadoria. É a grande indústria do nosso tempo. Vale mais do que os complexos militares-industriais.

A cultura de massas e as indústrias associadas através dos grandes conglomerados de órgãos de comunicação e de entretenimento globais, dos meios de difusão planetários, padroniza produtos, notícias, serviços, comportamentos. Serve produtos pré-definidos e de consumo imediato. É um detergente e um verniz. É uma Coca-Cola total, que tanto limpa metais como ilude a sensação de fome. Corrompe.

Os produtos da indústria cultural de massas foram recebendo nomes de fácil adesão: pop, hippie, rock, soixantehuitard, alternativo, punk, junkie, gay, LGBT, urbano, suburbano, entre tantas, gerando ídolos e estrelas, profetas, papas, bispos e gurus, influencers, uns efémeros, outros mais resistentes ao tempo. Designações resultantes de operações comerciais, mas que tiveram por base movimentos estéticos, interpretações da realidade, visões do mundo, ligações a valores, ao belo, ao prazer, à liberdade de expressão do espírito e do corpo. Woodstock, Maio 68, Bob Dylan, Beatles, Joan Baez, a Bossa Nova, de Gilberto Gil, eram e foram produtos da cultura de massas, mas estiveram associados à liberdade e às grandes causas da humanidade, ao progresso. A lata de sopa Campbell de Andy Warhol foi mais que uma lata de conserva, transmitia uma crítica à sociedade de consumo. Hoje seria vendida como uma lata, com código de barras. É esta regressão civilizacional que importa analisar.

A cultura de massas é hoje um instrumento de conquista de poder e está ao serviço de interesses políticos que os seus promotores não ousam apresentar. Importa conhecer que mãos, ou garras, estrangulam as nossas gargantas. Que nova cultura de massas se tornou dominante.

Chunga é um adjetivo de origem obscura, que significa uma coisa de má qualidade, ordinária, com mau aspeto, ou alguém com pouco carácter, corrupto. Hoje, no que por facilidade de expressão ainda continuamos a designar por Ocidente, implantou-se uma cultura de massas protagonizada por chungosos. Não serão os primeiros, mas será o grupo mais numeroso que chegou ao topo do poder ao mesmo tempo! Eles são o produto visível da degradação da cultura de massas em cultura chunga no nosso universo civilizacional.

cultura chunga, não encontro melhor etiqueta, integra o trumpismo, o alt right de Steve Bannon e a versão tropical bolsonárica, os movimentos europeus dos chegas e ergue-te (daqui a uns tempos surgirá um fosga-se!) do Fidesz, de Victor Orban, na Hungria, passando pelo vox espanhol, o UKIP de Farage, no Reino Unido, e outros grupos na Itália, na Polónia, na Escandinávia, pastoreados por demagogos populistas e corruptos que têm medrado como sempre medram os falsos profetas nas épocas de transição civilizacional.

O que os agentes da cultura chunga difundem como “o perigo do marxismo cultural” é, na realidade, a expressão do velho truque acusar o outro de utilizar os métodos que o próprio emprega. Uma cortina de fumo para esconder a sua corrupção. A cultura chunga é a apologia da lei da selva e da barbárie. Mais não pretende que conquistar uma alargada comunidade de consumidores de baixa exigência intelectual e moral, predispostos a serem iludidos por eficaz publicidade, e levá-los a aderir ao projeto de poder político de uma minoria privilegiada através de propostas de fácil consumo.

Os manipuladores no topo da pirâmide do poder aproveitam as capacidades da cultura de massas de integrar contrários para apresentar os seus produtos como bens apetecíveis. A cultura chunga assenta no oportunismo mais venal, na corrupção. Vende emoções, ilusões virtuosas e não pensamentos, ideias, ou valores. Apela ao irracional. É a mesma cultura das seitas evangélicas do dízimo que salva e cura e do treino dos mastins que atacam à ordem de um Senhor, do Chefe! Utiliza os novos meios de comunicação, em particular as redes sociais, para ceifar espíritos críticos com a eficácia das metralhadoras na Primeira Grande Guerra.

Tal como antes da Segunda Guerra, numa época de grandes transformações sociais e políticas, o nazismo e o fascismo nasceram do medo da perda de privilégios por parte dos grupos que detinham o poder, e criaram uma cultura de massas de sujeição, os atuais movimentos políticos populistas e a sua cultura chunga são fruto do receio das atuais oligarquias ameaçadas pela decadência dos Estados Unidos e do Ocidente, em geral, e pela previsão de que a curto ou médio prazo as bases do seu domínio serão postas em causa.

Entretanto é necessário preparar a carne para canhão a utilizar nas batalhas que se adivinham. A cultura chunga serve para promover o aliciamento dos sucessores do Lumpenproletariat alemão na ascensão do nazismo.

Há quem afirme, mesmo em público, que os chungas dizem umas verdades, combatem a corrupção e trazem ar fresco à política! Há quem aconselhe a não falar deles. Hitler e Mussolini subiram ao poder com o mesmo discurso incoerente e os mesmos apoios, e aproveitaram o silêncio dos que os tomaram como fantoches ridículos.

Voltamos ao início, aos esquecimentos históricos referidos por Adorno.

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Born 1946; retired military, historian

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