Querido Diego | Luís Osório

Não me conheces, mas eu aprendi a gostar de futebol com as tuas fintas, o teu toque de bola, a tua habilidade para fazer de cada jogada uma obra de arte.

Impossível ficar indiferente ao que eras dentro de campo. No palco estavam vinte e dois homens, mas os olhos das pessoas não se desviavam de ti, do teu corpo baixo e anafado, da tua pose provocadora, da tua arrogância de menino de rua.

Nunca conheci ninguém como tu. Nunca conheci ninguém que tivesse feito tanta merda para que o mundo desistisse de ti. Esforçaste-te o melhor que conseguiste para enterrar fundo tudo o que de bom fizeras nascer. Foste um mau exemplo para as crianças, mas as crianças continuaram a olhar fascinadas para as imagens dos teus golos.

Foste dependente de todas as drogas. Fumadas, snifadas, injetadas. Heroína, cocaína, anfetaminas, crack. Nos dias de catástrofe injetavas-te num braço com cocaína e no outro braço com heroína. Precisavas de acelerar para viver e de acalmar para que os cavalos não te saíssem a galope do coração. Mas mesmo assim o povo continuou a aplaudir-te como se tu fosses o que salva pessoas do vício e os faz acreditar que é possível a felicidade.

Em muitos dias alucinados agredias pessoas, disparavas tiros de espingarda contra jornalistas acampados à porta de tua casa, cuspias, ameaçavas e eras na maioria parte do teu tempo um mau caráter. Ah, mas as pessoas nunca te abandonaram.

Nunca desistiram de ti. A cada erro, a cada queda lá vinham os aplausos, os abraços, as lágrimas. Trataste mal filhos e mulheres com quem casaste. Foste um cabrão da pior espécie, mas depois erguias-te e tudo passava. Ficaste disforme. Duzentos quilos de gente. Um monstro de banhas num corpo quase anão, os olhos quase a sair das órbitas, um exemplo de decadência. Mas o povo não te via assim, via-te outra vez na Bombonera a partir os rins a meia equipa contrária antes de picares a bola por cima do guarda-redes.

Passavas os dias em bordéis e trocavas mensagens com chulos, mas até o Papa Francisco te definiu como o único ser humano que se aproximou de uma ideia de Deus.

Envolveste-te com a máfia napolitana, trocaste favores, fizeste trinta por uma linha, mas se fechar agora os olhos vejo-te a fintar meia equipa de Inglaterra antes de entrares com a bola pela baliza dentro.

Fizeste tudo o que pudeste para que o povo te abandonasse. Mas fracassaste, Diego. Desculpa que te diga, mas fracassaste nesse objetivo.

Aos deuses tudo se perdoa. E tu foste o único humano a quem tudo se perdoou. A esta hora não estarás a caminho do céu, não acredito nisso.

Mas sei que já estarás no Olimpo, uma terra de deuses imperfeitos onde pertences por inteiro direito.

Adeus, Diego. Não me conheces, mas eu conheço-te muito bem. E perdoei-te sempre. Nunca liguei ao que fizeste para que eu te esquecesse.

LO

Retirado do Facebook | Mural de Luís Osório

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.