Vivemos no Inferno? | Carlos Matos Gomes

Mas tu quem és, que, em tribunal sentado, julgas, de léguas em milhões distante, se mal vês o que a um palmo é colocado? Dante, Divina Comédia, Canto XIX

A acreditar nos jornais e nas televisões vivemos no Inferno. Embora apenas os seus celebrantes e comentadores saibam o que é o Inferno. A nós, multidão e rebanho, resta acreditar neles, ter fé nos que nos garantem que vivemos no Inferno!

Nada de novo. Por volta de 1300, há sete séculos, já Dante Alighieri, na Divina Comédia se dera a esse mesmo trabalho de descrever o Inferno em pormenor e em círculos dedicados a cada pecado ou crime. A verdadeira intenção dele não terá sido, tal como não é a dos seus atuais seguidores, alertar os homens para as consequências das práticas dos crimes e pecados, amedrontando-os com os sofrimentos eternos dos exemplares ali caídos, mas sim uma outra bem mais prosaica: Dante, como os arautos da desgraça do nosso tempo e senhores dos novos meios de comunicação, pretendia, isso sim, diminuir a concorrência, para assim ser mais fácil aos poderosos em atividade terrena realizar os seus pecados e crimes, matéria-prima indispensável ao prazer, à obtenção de poder e riqueza.

O Inferno de A Divina Comédia pode ser visto como um guia condensado de perversidade e de amoralidade: o sucesso assenta no crime e o Inferno é uma ilusão criada para transmitir a convicção de que existe, no final, uma Justiça que pune os maus e assim esconder a única lei válida: a do mais forte!

Os livros de estilo dos órgãos de manipulação de massas constituem adaptações do pensamento de Dante. Nos noticiários e comentários tudo está a arder à nossa volta. Um telejornal ou as páginas de um jornal proporcionam uma viagem aos círculos infernais de Dante. Em cada página, um juiz sentado, a condenar o que vê ao longe, mas não a um palmo, diante de si, ou a seu lado, ou mesmo dentro de si.

Recordo a velha história das técnicas de manipulação destinadas a criar o ambiente de apocalipse: Um jornalista é enviado para reportagem a um prédio que estaria a ruir. Lá chegado, verifica que o prédio resistira à notícia e mantinha-se firme sobre os alicerces. Mas havia que publicitar uma desgraça. O jornalista não se deixou vencer pela realidade, admitiu que o prédio ainda não ruíra, mas ruiria. Os entrevistados haviam sabido de outros prédios que ruíram desde os visigodos. Aliás, quase não há prédios em pé do tempo dos visigodos! Que a culpa é dos engenheiros e governantes que não querem saber do povo e estão feitos uns com os outros. Vox populi, em direto.

Não existem não notícias. Haverá remodelação do governo, dívida pública, desemprego, incêndios, cheias, violência doméstica, atropelamentos, desvios de fundos, cunhas, nepotismo, sacos azuis. Está tudo no Inferno de Dante escrito no século catorze: Luxuria, gula, avarentos, iracundos, insolentes, soberbos, hereges, assassinos, violentos com o próximo e contra si mesmos, esbanjadores, usurários, traidores!

Nada de novo debaixo do Sol. Vivemos o Inferno do alarido, da venda de medo que rende os lucros associados ao poder. Criado o ambiente de medo e de impotência — não há nada nem ninguém que se aproveite — aí está a passadeira estendida para aparecer um Salvador! Um Salvador que vai impor a ordem, a sua ordem, a sua gula, a sua corrupção, o seu ódio.

Os meios de comunicação de massa são antena aberta a todos os arautos das desgraças, ao mundo dos falsos e cumprem o papel que, nas touradas, cabe aos tambores que rufam antes da morte do touro, o papel dos coros dos dominicanos que cantavam antes serem incendiadas as fogueiras que iriam queimar os corpos dos hereges, dos recalcitrantes, dos insubmissos, dos que gritam que o Salvador é um impostor.

Durante anos a figura do vendedor da banha da cobra foi ridicularizada. Hoje os vendedores de banha de cobra têm programas onde comentam epidemias, dívidas, estados de espirito, pontes e calçadas, explosivos e recursos marítimos, alterações climáticas, incêndios e males da solidão, justiça e saúde, segredos, acidentes rodo e ferroviários. O vendedor da banha da cobra foi alçado a figura de respeito, que distribui falácias como antigamente a polícia de choque distribuía bastonadas!

Ler um jornal ou ver um telejornal é ser sujeito à tortura do chinês. O pingo de água sobre a cabeça até ser insuportável. Com a diferença que este veneno penetra.

A insídia é a arma mais difícil de vencer, precisamente por que utiliza o envenenamento continuado, persistente, enleante, seguindo o princípio do grande poeta Aleixo de que a mentira para ser segura tem de ter alguma verdade à mistura.

Carlos Matos Gomes

Born 1946; retired military, historian

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