À procura do túmulo de Vergílio (Nápoles, Outubro 2021) Frederico Lourenço

Desde que descobri – já não sei como – que existe em Nápoles um lugar tido como o túmulo de Vergílio, não me largou mais a ideia de ir lá prestar homenagem ao deus maior do meu panteão. Graças ao talento organizacional do André, foi possível pôr essa aventura em marcha durante uma curta estadia em Itália. O problema foi perceber onde, em Nápoles, se situava o túmulo, já que toda a investigação que eu tinha feito (com a leitura de artigos eruditos em revistas de filologia clássica) me deixara sempre uma impressão confusa. O túmulo era em Posillipo (a colina nobre de Nápoles onde vivera a aristocracia na época romana – e o próprio Vergílio, muito provavelmente – e onde vivem agora os «calciatori», vedetas do futebol), ou no sopé da colina, em Piedigrotta?

E em qual dos dois parques napolitanos dedicados a Vergílio é que se situaria? No «Parco Virgiliano» ou no «Parco Vergiliano»? (Nunca nos livraremos do problema Vergílio/Virgílio…)

Começámos por ir primeiro ao Parco Virgiliano em Posillipo, o que proporcionou uma vista absolutamente deslumbrante sobre a baía de Nápoles com o Vesúvio. Fomos subindo e subindo; e apareceu ao longe um monumento que, visto de perto, era dedicado a… Mahatma Gandhi. Vimos uma senhora elegante a passear o cão e o André perguntou-lhe em italiano pelo túmulo de Vergílio. A senhora sabia perfeitamente do que se tratava e disse-nos que não era ali, no «Parco Virgiliano», mas sim no «Parco Vergiliano», que ficava mais abaixo (a 4 km, no GPS do André).

Depois de darmos voltas e mais voltas, acabámos finalmente por dar com o referido Parco Vergiliano, atrás da estação de comboios de Mergellina, ao lado de uma garagem. Mas o parque, logo por azar, estava fechado para obras. Para tentarmos chegar mais perto do túmulo, subimos lateralmente por um beco sem saída, onde o taxista conseguiu dar a volta numa garagem de reparação de automóveis. O André tirou a fotografia que acompanha este post, onde por cima do retrovisor (com o reflexo do nosso táxi!) se vê a estrutura em pedra onde se pensa que Vergílio terá sido sepultado.

Claro que ninguém pode ter a certeza de que se trata do local exacto onde os restos mortais de Vergílio foram depostos; mas a tradição de que foi neste local já vem da Antiguidade. Sabemos que o terreno foi comprado por Sílio Itálico, poeta latino da segunda metade do século I d.C., convencido de que era o lugar onde descansavam (decerto numa urna) os restos mortais de Vergílio. Muitos séculos mais tarde, foi visitado por Petrarca e por Boccaccio – e, a partir daí, nunca mais pararam as peregrinações ao lugar por parte de poetas e artistas. John Ruskin, o autor de «The Stones of Venice», foi lá no século XIX e ficou profundamente emocionado: chamou-lhe «a most glorious height of cave… an odd little house with a flat top».

Pela minha parte, não desisti ainda de chegar mais perto do túmulo e de conhecer melhor a sua história. Terei de lá voltar um dia. As tradições cristãs dizem-nos que São Paulo visitou o túmulo. Pode ser (ou não) verdade. Quem sabe? Mas quem não quer morrer sem lá ir um dia é um português, por acaso tradutor de São Paulo e de Vergílio.

Retirado do facebook | Mural de Frederico Lourenço

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.