Nicolau Breyner: a morte não o matou | Luís Osório

1.

Lembrei-me hoje de Nicolau Breyner.

Estava a tomar o pequeno-almoço e ocorreu-me que não lhe telefono há muito tempo – só ao fim de alguns segundos me veio à cabeça que o Nicolau já partiu quase há seis anos.

Deixe-me contar duas ou três coisas.

Ele merece bem que o recordemos.

Não acham?

2.

Foi num dia chuvoso e a sua casa parecia triste, pelo menos foi o que achei quando lá estive. Entrevistei-o durante umas quantas horas e julgámos sair do encontro como amigos. Disse-lhe: podes ter a certeza de que te vou telefonar, deixa passar umas semanas porque isto não acaba aqui. Não eram palavras de circunstância, estava mesmo convencido de que assim seria e ele, ainda à porta, respondeu no mesmo tom. Mas não. Nunca mais lhe telefonei. Reencontrei-o algumas vezes, trocámos abraços e sorrisos cúmplices. Nada mais.

3.

Nicolau Breyner.

Um extraordinário ator que me confessou ter ficado escravo do fillet mignon. Tantos sonhos de juventude e papéis ambicionados, tantas viagens previstas para lutar por uma hipótese de marcar o seu tempo, mas depois um convite aqui e outro ali, a popularidade muito cedo, os autógrafos e as luzes da pequena ribalta a entorpecerem-lhe os músculos e a travaram-lhe a ambição.

Saiu do Conservatório com o potencial para ser o mais completo de todos os atores dramáticos, a maioria dos professores assim o vaticinava. Só que o país tinha mercado para os que faziam rir, para os que divertiam e Nicolau aproveitou obrigando os portugueses a renderem-se aos seus talentos na comédia.

4.

Tinha a ilusão de que ia durar 380 anos, a eternidade é o mínimo que se pode exigir quando parecemos imortais. A altura para se cumprir acabaria por chegar, disso estava certo. Decidiu gozar o momento e as ovações populares num Parque Mayer ainda sem luzes fundidas. Habituou-se ao fillet mignon. Em troca só tinha de fazer rir as pessoas mesmo quando lhe apetecia fazê-las chorar e, se fosse caso disso, contar uma anedota e dar uma festinha à criança. Nestes tempos de juventude bebia muito, apaixonava-se muito, chorava muito e andava muito à porrada – a pancadaria era uma espécie de iniciação à vida adulta, pelo menos o avô João, latifundiário de Serpa, segredava-lhe isso.

5.

É por nunca me ter esquecido da história do Nicolau e do avô João que escrevo este postal. Lembro-me de lhe ter perguntado pelo pai e de Nicolau pouco me ter dito; contou-me que a mãe se assustara muito com o marido porque este, sonâmbulo, um dia fora buscar o bebé Nicolau à cama. Bem, assustou-se ao ponto de o bebé ter passado a dormir em casa dos avós maternos. 

O avô João, também o primeiro nome de Nicolau, foi a pessoa que mais o marcou. Perdeu o dinheiro e as propriedades por causa de um sócio a quem tudo confiou, faziam anos no mesmo dia e sempre acreditou serem coincidências a mais para acreditar que o destino dos dois não estivesse ligado.

6.

Nada do que possuía no Alentejo ficou na posse da família. O jovem, que ouvia as peças inventadas pelo avô, jurou-lhe que um dia haveriam de regressar a Serpa e construir uma casa que perdurasse por gerações. Nicolau cumpriu a promessa, mas João já não estava vivo para comprovar o quanto o neto era confiável. Não descansou enquanto a promessa esteve por cumprir, uma promessa que lhe fez num dia em que este lhe confessou não gostar de Lisboa porque sempre que abria a porta não conseguia ver o campo – «um dia, prometo-te, quando abrires a porta os teus olhos vão perder de vista a terra», jurou Nicolau. Mas Lisboa revelou-se fatal para o avô. O rapaz completara 14 anos quando morreu. E, de alguma forma, foi por causa dele e das suas histórias imaginadas que Nicolau entrou no Conservatório e se tornou ator.

Também foi por causa dele que, já famoso, comprou um monte em Serpa e construiu uma casa. À terra chamou O Monte das Promessas e, na primeira noite, fez questão de estar sozinho. Não dormiu por um minuto que fosse – agradeceu ao avô por todo o amor que ainda guardava dentro de si, fez-lhe perguntas e quase me jurou, na conversa que nunca esquecerei, que o avô João esteve presente e lhe respondeu a todas as questões que precisavam ainda de resposta.

7.

Os que nos conhecem à superfície julgam-nos sempre nessa dimensão. Na maior parte das vezes nem fazem por mal, se apenas pudéssemos julgar os que conhecemos em profundidade a vida tenderia à monotonia – e sabemos o quanto fugimos disso como o diabo da cruz. De Nicolau Breyner, já o afirmei, esperava-se que contasse anedotas. Pelo menos até fazer um papel dramático na telenovela Vila Faia, nenhum português imaginaria que o Nico pudesse ser o mais sério entre os sérios. Da mesma maneira que muitos o julgaram pelas constantes mudanças de estado civil, por ter tido vários casamentos e vários outros ameaços – «ninguém acredita que a única coisa que verdadeiramente procurei foi a paz, uma urgência insuportável de paz», quase em silêncio mo disse.

Compreendo-o muito bem. Como o compreendi quando me contou que a única coisa que sentia ter de sobra era a falta de tempo. Esse foi o motivo que o levou a comprar uma cadeira de baloiço. Por entre estas e outras palavras fez questão de me jurar o seu amor à vida, uma imensa paixão de futuro que o fez sempre levantar-se quando já não parecia existir mais caminho para baixo.

8.

Um vencedor com um sabor amargo de derrota, foi como se definiu. Alguém que fica para a história do país, sem dúvida, mas que julga ter renegado os sonhos de juventude e ido pelo caminho mais fácil. Pensou sair do país e pagar o preço que fosse necessário para cumprir um destino grandioso. Pensou fazê-lo antes de lhe terem surgido os primeiros convites, os autógrafos, o dinheiro, os neóns da cidade, as bebedeiras, as paixões. Um beco sem saída.

Vale o que vale, é apenas a minha opinião, mas Nicolau Breyner foi o melhor ator português. O seu sabor amargo a derrota talvez não seja mais do que um sinal de preferência poética pelos loosers. Foi um vencedor por ter sabido cumprir as suas promessas. E naquele anoitecer em sua casa, confesso-o agora, fui intermediário de uma promessa solene que fez às suas filhas. Se por um mero acaso morresse antes de se casarem, elas poderiam procurá-lo atrás de si. Se isso acontecesse bastaria que olhassem para trás porque ele lá estaria – «é aí que me poderão procurar porque será aí que estarei».

É aí que está.

É aí que continuará.

Um abraço forte, Nicolau. 

Um dia continuamos a conversa.

LO

Retirado do Facebook | Mural de Luís Osório

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