Grandes eventos merecem grandes ajuntamentos Carlos Matos Gomes

Recebo, com algum adormecimento, notícias de irritação e de sentimento de ofensa à grandeza da pátria que a festa de inauguração do franchising português do canal de televisão americano CNN tenha sido realizada nuns anexos — que servem de Museu de Arqueologia — do local sagrado do antigo mosteiro dos frades Jerónimos. Um extraordinário monumento manuelino, a par do Convento de Cristo, em Tomar, que celebra as navegações dos portugueses de quinhentos e onde repousam o que se julgam ser os restos mortais de dois génios lusitanos, Luís de Camões e Fernando Pessoa.

Penso que a realização de eventos populares em locais históricos é uma boa técnica de marquetingue cultural, pois leva centenas ou milhares de portugueses a locais que, se não fossem esses tais eventos, nunca os “vivenciariam”, como dizem.

Entre as quatro centenas de convidados para a inauguração do franchising acredito que muitos deles jamais teriam posto os pés no Museu e, dos Jerónimos, conheceriam a bela fachada, ou a igreja quando lá teriam ido para algum casamento mais chique. Quanto aos espetadores da novel estação será ainda maior a percentagem dos que ficaram a saber da existência dos Jerónimos e do Museu pela festa televisionada. E, certamente, será ainda menor a percentagem dos que conheceriam a existência do Camões e do Pessoa, ou de múmias egípcias no museu, se não fosse esta brilhante festa, com faixas vermelhas nas portadas, num adorno de homenagem à cultura chinesa. Obra de velhos maoistas reciclados, talvez. Mas a Ásia e o Oriente são paisagens do nosso património. As faixas vermelhas estavam muito a propósito. E poderiam estar dragões de papel, biombos. Lá chegará a CNN Portugal.

O que aconteceu com a elite que foi aos Jerónimos ver velhos conhecidos, e dar-se a ver, trocar uns mexericos, dar e receber uns salpicos de má-língua, apreciar uns decotes, ou umas ancas e coxas, uns implantes de cabelo ou de outras parte da anatomia não é, na essência, diferente da celebração dos adeptos dos clubes de futebol no Marquês de Pombal, em Lisboa, ou nos Aliados, no Porto. Quantos portugueses souberam da existência de um tal Marquês de Pombal graças às vitórias no futebol do Benfica ou do Sporting? E quantos devem no Porto ao senhor Pinto da Costa e ao Madureira dos Super Dragões terem ouvido falar dos Aliados?

A Pátria que temos é a que os nossos antepassados nos deixaram. Eles construíram conventos para as celebrações que os levariam aos céus com orações, sacrifícios, jejuns e abstinências, recatos de carnes, esmagamento da sexualidade, votos de pobreza, dias inteiros de contemplação e meditação — nós, os atuais patriotas, aproveitamos essas construções para chegarmos, os melhores, evidentemente, aos céus, ao lucro, ao empreendorismo, aos prazeres da carne, ao pensamento rápido como um relâmpago, aos amores de atracão, como diria o Eça, ao quem quer casar com o gajo do Ferrari ou com a gaja da dança do varão. Do bacanal do Big Brother. Somos patriotas do nosso tempo. Nos Jerónimos cabem perfeitamente pop corn e Mac Donalds. Além de Coca Cola e populares de fato domingueiro e contas caladas.

O “evento” dos Jerónimos revela que estamos talvez já a celebrar a primeira fábrica dos unicórnios promovidos pelo novo presidente da Câmara de Lisboa. E isso merece festa de arromba como aquela com que a CNN Portugal nos brindou. Faltou apenas, ao que sei, aquele delicioso anuncio de que “Este programa foi-lhe oferecido por…” e que nos deixa agradecidos a quem nos vende o que não necessitamos, seja Gazprom ou cartões de crédito.

Mais, existem em Portugal vários “espaços” históricos cujo desfrute têm sido privilégio das classes mais snobes, de dignitários do Estado, nacionais e estrangeiros, de celebridades, de artistas conceituados, cientistas, políticos de altas responsabilidades, é o caso do Palácio da Ajuda, do de Queluz, de Sintra, do Panteão, do Palácio da Bolsa no Porto, do Palácio dos Duques de Bragança, em Guimarães, ou de Vila Viçosa, entre tantos outros. Ora, é altura de colocar esses “ativos” a render, ou, como dizia o banqueiro Ricardo Salgado numa escuta já em tempos de apertos no BES a propósito do atual prodígio da política: Temos de pôr o Moedas a funcionar.

Temos de por as moedas a funcionar, os conventos, os museus, os castelos, os paços, as cavalariças reais, os jardins, as tapadas. Abrir tudo o que é nosso ao povo. E foi isso que, a meu ver, ocorreu no Museu de Arqueologia, anexo aos Jerónimos, o povo entrou e tomou conta do espaço.

Esse povo que foi assistir ao arraial da CNN local deu até um exemplo de elevado civismo às claques do futebol, por exemplo, não há notícias de zaragatas nem bebedeiras, nem de confrontos com forças da ordem, nem de estragos nas cantarias e nas estátuas, nem nos túmulos dos heróis. Até um foragido à justiça confessou os seus finos sentimentos pela dedicada esposa e pelos meigos cãezinhos. O que revela que os cadastrados são, afinal, pessoas sensíveis e podem ser heróis populares, mesmo roubando aos milhões.

A CNN Portugal colocou o Rendeiro a render. E isso é um ativo que podia ser descontado nas suas dívidas, amortizadas em direitos televisivos. Um grande momento na descoberta de novos caminhos para a boa informação e a melhor formação do povo. Aquele povo está disposto a aplaudir o Rendeiro e quem o apoiar. A CNN Portugal, desde já.

Os portugueses são um povo humilde. Preocupado com o que os outros pensam de nós, o que vão dizer de nós. Ora os portugueses que foram filmados nos Jerónimos estavam todos muito bem aparelhados. Luzidios.

Os vendedores americanos que vieram assistir à inauguração do franchising da CNN devem ter ido a dizer bem deles. Admito que à chegada a Atlanta, a sede da empresa, tenham informado os seus superiores que, pelo que viram, pode não haver novidades em Portugal, mas que não faltarão comentários e análises. 400 convidados, vezes 15 minutos de conversa dá 100 horas de comentário! Se adicionarmos o futebol à razão de 4 horas por dia, façam as contas… A grelha está composta, basta um acidente de automóvel, um roubo num supermercado, mais as declarações do Presidente da República, do bastonário dos médicos, do Mário Nogueira, do Jorge Jesus, da Maria João Avilez…

Enfim, os Jerónimos prestaram mais um assinalável serviço à Pátria e o 25 de Abril criou um novo povo que ontem teve o dos seus momentos de glória, na primeira fila da História, ao lado de Camões e de Pessoa de que aqui ficam uns apartes:

Ó fraudalento gosto, que se atiça. Cua aura popular, que honra se chama” Camões

O povo é bom tipo. O povo nunca é humanitário. O que há de mais fundamental na criatura do povo é a atenção estreita aos seus interesses, e a exclusão cuidadosa, praticada tanto quanto possível, dos interesses alheios.

Bernardo Soares

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Matos Gomes

Born 1946; retired military, historian

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