O fim da privatização como panaceia, Ricardo Paes Mamede

Obra do professor e economista Ricardo Paes Mamede contesta a ideia de que o
Estado deveria intervir o mínimo possível na economia

Adelto Gonçalves (*)
I

Que a privatização não é uma panaceia para os problemas econômicos ou de infraestrutura é
o que se vem constatando nos últimos tempos, especialmente no Brasil, a partir da privatização da
Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), concluída em julho de 2024
pelo governo estadual, depois de uma série de incidentes graves, que incluíram uma explosão de gás
no bairro do Jaguaré, na capital paulista, provocada pela inexperiência de operários de uma empresa
terceirizada, que deixou um morto e dezenas de imóveis destruídos.
No caso da Sabesp, o que se pode lembrar ainda é que, em vez a aumentar a eficiência
operacional, a privatização gerou expressivo número de reclamações, cortes de pessoal técnico,
aumento de tarifas, reajustes contratuais desfavoráveis aos trabalhadores e debates sobre a perda de
controle estratégico em serviços essenciais, como água e esgoto. Mas, se alguém ainda alimenta
dúvidas quanto à privatização como solução mágica, é recomendável que leia a obra Política
industrial. Como os Estados transformam as economias (Lisboa, Contraponto Editores, 2026), do
professor e economista Ricardo Paes Mamede, que contesta veementemente a ideia de que o Estado
deveria intervir o mínimo possível na economia, assumindo-se apenas como mero legislador e
regulador para garantir o funcionamento eficiente dos mercados. Para o economista, o século XXI
voltou a trazer a política industrial para o centro do debate político e econômico.
Em sua obra, o economista procura mostrar como os Estados podem agir para transformar
a estrutura das atividades produtivas, tendo em vista determinados objetivos públicos, esgrimindo
os prós e os contras da intervenção estatal enquanto ação modeladora das estruturas produtivas, bem
como na promoção de atividades específicas. Para tanto, com base nas experiências ocorridas em
séculos anteriores não só na Europa como nos Estados Unidos e na Ásia, mostra quais deveriam ser
as prioridades e os instrumentos da política industrial na governação.

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