OS GOSTOS DE EUGÉNIO DE ANDRADE

Certo dia, um jornalista perguntou a Eugénio de Andrade: “Então de que é que gosta?” Ele respondeu assim:

«De framboesas. Do Mozart. Do Moby Dick. Do Walt Whitman. Das infantas de Velázquez. Gosto das Geórgicas e da Ilíada. De cerejas, de gatos e do Miguel. Gosto de Florença e Praga e Oxford. Gosto dos oiros e dos vermelhos de Rembrandt, das naturezas-mortas de Morandi. Gosto de Li Bai e da canção única de Meendinho. Gosto de Andrei Tarkovsky, dos versos de Pessanha, de Cesário. Gosto de espirituais negros. Gosto da sombra dos plátanos e das ilhas gregas. Gosto de muros brancos, de praças quadradas. Gosto dos madrigais de Monteverdi, da Casa sobre a cascata de Frank Lloyd Wright. Das Variações Goldberg. Das Illuminations. Gosto do deserto, dos coros alentejanos. Gosto de minha mãe e de Virgínia Woolf. Da Via Ápia. Gosto dos esquilos do Central Park e das dunas de Long Island no inverno. Gosto de um verso do Cesariny: “Conto os meus dias, tangerinas brancas”. Gosto do aroma do feno e de Schumann. Gosto do cheiro dos corpos que se amam. Hoje, não gosto de mais nada.»