Se voltasse a encarnar, Jesus seria um Gigabit por Luís Carmelo

A imaginação socialmente legitimada foi um dos alicerces da modernidade (de Hume a Kant, a ideia evoluiu meteoricamente). A imaginação passou a ser sobretudo um dispositivo de produção ficcional que visa, a partir da tabula rasa (Damásio refere-se à mente como “contadora de histórias”), a possibilidade de tornar real dados sondados pelo sujeito. É este o alicerce do artista – que tem acesso a visões de completude ou de totalidade – sonhado pelos românticos alemães, sobretudo pelo chamado Círculo de Jena.

Acontece, no entanto, que a estética no seu devir idealista só se viria a enunciar, pela primeira vez, ao longo de setecentos, porque antes haviam já sido criadas condições para tal. A intemporalidade mitológica deu lugar à transcendência e esta acabaria por dar lugar ao sujeito moderno criador e questionador. Entre as duas últimas etapas, o gnosticismo ocupou uma posição importante e é curioso verificar que as suas diversas proveniências têm duas características essenciais: uma (aparentemente datada) que remete para a dimensão salvífica e uma outra que remete para a aceitação da gnose como conhecimento dos mistérios reservados apenas a uma elite.

Foi a partir desta disposição superadora e, também, de busca do inexplicável que, mais de milénio e meio depois do clímax gnóstico, em pleno Iluminismo, foi possível teorizar e crer na arte, na literatura e na estética, tal como hoje ainda as entendemos. É evidente que a pressuposição dos sentidos e da imaginação como vias ligadas a faculdades superiores do homem completou o quadro e legitimou as funções da arte e da estética no mundo moderno. É nessa medida que a dimensão criativa do sujeito é realçada, sendo-lhe atribuído o crédito de uma espécie de gnose exclusiva, superior e irrespondível (um crédito de que a noção “génio” de Kant foi apenas o prenúncio).

O mundo contemporâneo viu esta ideia (meio) sacralizada do artista e do escritor refluir em direcção a nichos sem grande visibilidade. A espectacularização do mundo criou, nas últimas décadas, uma espécie de novo Apocalipse (uma visão de deus, agora sem qualquer deus) feito de terminais, tabletes, bits e imagens, de acordo com o primado da ‘comunicação pela comunicação’. A literatura vive hoje no meio deste feérico espectáculo e tenta sobreviver nas brasas do churrasco – ou do mercado – que coloca à venda, só em papel (em Portugal), uns quarenta e tal livros por dia. O público deixou de andar atrás do escritor (há três milénios, com outras mediações, chamar-lhe-íamos profeta), porque a gnose que hoje mais o encanta, diverte e comove passou para o campo de uma renovada transfiguração: a hipnose digital. Jesus, se voltasse a encarnar, seria um Gigabit. Só assim conseguiria passar a sua mensagem.

Luís Carmelo

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