Mambordel by Chico Buarque de Hollanda

O rei pediu quartel
Foi proclamada a república
Neste bordel

Eu vou virar artista
Ficar famosa, falar francês
Autografar com as unhas
Eu vou, nas costas do meu freguês

Eu cobro meia entrada
Da estudantada que não tem vez
Aqui no meu teatro
Grupo de quatro paga por três

O rei pediu quartel
Foi proclamada a república
Neste bordel

Faço qualquer negócio
passo recibo, aceito cartão
Faço facilitado, financiado
E sem correção

Ao povo nossas carícias
Ao povo nossas carências
Ao povo nossas delícias
E nossas doenças

Uma mulher espera por mim by Walt Whitman

Uma mulher espera por mim, ela tudo contém, nada falta,
No entanto, tudo ficou faltando se o sexo faltou, ou se o orvalho do varão certo estivesse faltando.

O sexo contém tudo, corpos, almas,
Significados, experiências, purezas, delicadezas, resultados, promulgações,
Canções, mandamentos, saúde, orgulho, o mistério da maternidade, o leite seminal,
Todas as esperanças, benefícios, doações, todas as paixões, amores, belezas, deleites da terra,
Todos os governos, juízes, deuses seguiram pessoas da terra,
Estes estão contidos no sexo como partes de si mesmo e justificativas de si mesmo.

Sem pejo a mulher de quem eu gosto conhece e assegura a delícia do seu sexo,
Sem pejo a mulher de quem eu gosto conhece e assegura as suas.

Agora vou dispensar-me de mulheres frias,
Vou ficar com ela que espera por mim e com aquelas mulheres que são apaixonadas e me satisfazem,
Vejo que me compreendem e não me negam,
Vejo que são dignas de mim, serei o marido vigoroso de tais mulheres.

Elas não são em nada menos do que eu,
Têm a face curtida por sóis luzentes e o sopro dos ventos,
A sua carne possui a velha divina maleabilidade e energia,
Sabem como nadar, remar, cavalgar, lutar, atirar, correr, golpear, recuar, avançar, resistir, defenderem-se,
São irrevogáveis quanto a seus direitos – são calmas, claras, seguras de si próprias.

Trago-as para perto de mim, vocês mulheres,
Não posso deixá-las ir, faria bem a vocês,
Estou para vocês e vocês estão para mim, não apenas para o nosso bem, mas para o bem de outros,
Envoltos em vocês adormecem os maiores heróis e bardos,
Recusam-se a despertar ao toque de qualquer homem, a não ser eu.

Sou eu, mulheres, faço meu caminho,
Sou duro, amargo, grande, indissuadível, mas amo-as,
Eu não as faço sofrer além do necessário para vocês,
Eu verto a substância para encetar filhos e filhas aptos para estes EUA, pressiono com o músculo rude e lento,
Eu me abraço efetivamente, não escuto súplicas,
Não ouso me afastar até que deposite o que, há muito, estava acumulado dentro de mim.

Através de vocês faço escoar os reprimidos rios de mim mesmo,
Em vocês contenho mil lágrimas progressivas,
Sobre vocês eu enxerto os enxertos do mais amado de mim e da América,
Os pingos que destilo sobre vocês farão crescer moças impetuosas e atléticas, novos artistas, músicos e cantores,

As crianças que eu gerar sobre vocês hão de gerar crianças por sua vez,
Hei de exigir homens e mulheres perfeitos do meu consumir amoroso,
Espero que eles se interpenetrem com outros, como eu e vocês nos interpenetramos agora,
Vou contar os frutos das ejeções abundantes deles, assim como conto os frutos das ejeções abundantes que eu agora dou,
Vou aguardar as colheitas de amor, desde o nascimento, vida, morte, imortalidade, do que planto tão amorosamente agora.

Teatro Rápido – Antevisão Janeiro 2013

O Ano Novo começa. E com ele o Teatro Rápido só pode prometer mais e bom teatro. Com a expectativa de todas as novas possibilidades que um recomeço cria, o primeiro mês do ano vai ser dedicado às Promessas. Para nós, a de proporcionar a quem nos visita 15 minutos de teatro; para os espectadores, a de saírem com um sorriso na cara, esquecerem os problemas, ou pensarem na vida. Comece o ano cheio de promessas com o TR!

ver mais aqui:  http://teatrorapido.blogspot.pt/

TimeOutPrémiosCorvo

Morreu Joaquim Benite (1943-2012) por Lauro António in Blog “Lauro António apresenta”

Morreu um amigo. Quando assim é, difícil se torna sequer falar. Fomos muito próximos durante muito tempo. Ambos críticos, eu de cinema, ele de teatro, no “Diário de Lisboa”. Lá pelos anos 60. Ambos apaixonados pelo que escrevíamos. Fizemos depois carreiras diversas, mas lado a lado. Ambos apaixonados pelo que fazíamos. Acompanhei a sua actividade sempre com redobrado interesse, pela qualidade das suas propostas, mas também com o olhar de amigo que gosta de ver o amigo afirmar-se por mérito próprio. Sei que ele me seguia com igual emoção. A emoção que nos unia quando nos encontrávamos, aqui e ali, no Famafest que eu dirigia em Famalicão, onde fez parte do Júri Internacional em 2010, ano em que foi igualmente homenageado, no Teatro Municipal de Almada que dirigia e onde encenava espectáculos que ficarão na nossa recordação, no Festival que superiormente dirigia, um dos melhores da Europa no campo do teatro. Benite partiu mas o seu trabalho, consistente e coerente, a sua alegria de viver, o seu forte abraço, esses ficarão, triste consolação numa carreira brilhante que se finou. Que o exemplo não se cale. Por isso aqui fica um abraço para a Teresa, os filhos e também para o Rodrigo, seu assistente durante anos.
Perguntaram-lhe se achava que ficaria na História. Respondeu: “Os encenadores nunca ficam na história. Só os escritores, como o Shakespeare. Sabe, acho que vale a pena viver para nos divertirmos. Lutar por coisas, para cumprir missões, não. O teatro é um sinal de civilização que está na origem da sociedade. Até nos animais. Quando chego a casa, o meu cão faz uma dança que parece egípcia, pá. São rituais de representação. Mas o teatro não tem missão nenhuma. É uma coisa que as pessoas fazem porque gostam e as outras vêem porque lhes dá prazer”.
É tudo verdade. Mas ficarás na História, claro!

Nota do Teatro Municipal de Almada:

O encenador Joaquim Benite, director do Teatro Municipal de Almada e do Festival de Almada, faleceu esta noite, na sequência de complicações respiratórias motivadas por uma pneumonia. O fundador da Companhia de Teatro de Almada preparava a estreia absoluta em Portugal de Timão de Atenas, de Shakespeare, que representaria o seu regresso à actividade após um período de ausência dos palcos por motivo de doença. O País perde assim um dos seus mais prestigiados encenadores, ligado ao movimento de renovação do Teatro português no período que antecedeu e que se seguiu à Revolução de 1974.
Joaquim Benite nasceu em Lisboa em 1943. Começou a trabalhar como jornalista, aos 20 anos, no jornal República. Posteriormente fez parte da redacção do Diário de Lisboa e foi chefe de redacção dos jornais O séculoO diário. Foi crítico de teatro no Diário de Lisboa e em diversas revistas e publicações.
Em 1971 fundou o Grupo de Campolide e estreou-se na encenação com O avançado centro morreu ao amanhecer, de Agustin Cuzzani. Com a peça Aventuras do grande D. Quixote de la Mancha e do gordo Sancho Pança, de António José da Silva, ganhou, no ano seguinte, o Prémio da Crítica para o melhor espectáculo de teatro amador.
Em 1976, no Teatro da Trindade, transformou o Grupo de Campolide em companhia profissional. Em 1978 asua companhia instala-se em Almada, cidade de onde não mais sairia, e que transformou num dos principais focos teatrais do País, cujo expoente máximo será porventura o Festival de Almada, criado em 1984, e que em 2013 terá a sua 30ª edição. Em 1988, Joaquim Benite inaugura o primeiro Teatro Municipal dessa cidade, e em 2005 é finalmente concluído o projecto do novo Teatro Municipal de Almada — num edifício da autoria de Manuel Graça Diase Egas José Vieira —, que se tornou num dos principais teatros do País.
Tendo criado mais de uma centena de espectáculos, Joaquim Benite foi responsável pela estreia em teatro de José Saramago, de quem dirigiu A noite (1979) e Que farei com este livro? (1980 e 2007). Encenou ainda obras de Shakespeare, Molière, Brecht, Lorca, Bulgakov, Camus, Adamov, Gogol, Beckett, Albee, Neruda, Thomas Bernhard, Sanchis Sinisterra, Antonio Skármeta, Pushkin, Peter Schaffer, Marguerite Duras, Dias Gomes, Nick Dear, O’Neill, Marivaux, Feydeau, Almeida Garrett, Gil Vicente, Raul Brandão, entre muitos outros.
Entre os seus últimos trabalhos contam-se: Que farei com este livro, de José Saramago(2007); as óperas A clemência de Tito, de Mozart (2008), O doido e a morte(2008) e A rainha louca (2011), de Alexandre Delgado; O presidente, de Thomas Bernhard (2008);Timon de Atenas, de Shakespeare (Festival de Mérida, 2008); A mãe, de Brecht (2010); Tuning, de Rodrigo Francisco (2010); Troilo e Créssida, de Shakespeare (2010); e Hughie e Antes do pequeno-almoço, de Eugene O’Neill (2010).
Entre os numerosos prémios e distinções com que foi distinguido, Joaquim Benite foi agraciado com as Medalhas de Ouro dos Municípios de Almada e da Amadora, e as Medalha de Mérito Cultural do Ministério da Cultura e Mérito Distrital do Governo Civil de Setúbal. Foi-lhe também atribuído o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique; os graus de Cavaleiro e Oficial da Ordem das Artes e das Letras de França; e o grau de Comendador da Ordem do Mérito Civil de Espanha.
FONTE:  http://lauroantonioapresenta.blogspot.pt/2012/12/morreu-joaquim-benite-1943-2012-morreu.htmlJoaquim benite

Os filósofos e a discussão pública por Aires Almeida in Blog da Crítica

Nigel Warburton postou no seu blog Virtual Philosopher a lista dos 10 filósofos vivos que mais têm contribuído para o debate público. Claro que há muitos outros filósofos, tão ou mais interessantes, e que não contribuem tanto como aqueles para o debate público. O mérito filosófico e a contribuição para o debate público não são exactamente coincidentes. Dificilmente se imagina um filósofo da matemática, por muito brilhante que seja do ponto de vista filosófico, ter o impacto público que um filósofo político tem.  Ainda assim, a contribuição para o debate público de ideias não deixa de ser um indicador da importância e da influência de alguns filósofos, pelo que a lista de Warburton tem algum interesse.

Não sei com que critérios foi elaborada a lista, mas decidi gastar dois minutos a pesquisar no Google os nomes daquela lista, mais dois ou três que estranhei não ver lá, tendo-me limitado a ver o número total de referências.
Tenho de confessar a minha ignorância em relação a Cornel West, de quem conhecia o nome e pouco mais. Mas, a seguir ao esmagador Peter Singer, o mais referido no Google é precisamente West. Isto se não contarmos com todas as vezes que Umberto Eco é referido, caso contrário, este ficaria em segundo lugar (mesmo assim muitíssimo longe de Singer). Só que a maior parte das referências a Eco são sobre os seus romances e não propriamente sobre as suas ideias filosóficas, pelo que não estão relacionadas com o seu contributo para a discussão pública. Mas pude confirmar que alguns nomes ausentes da lista de Warburton são mais frequentes na net do que outros que lá estão. São, por exemplo, os casos de Anthony Grayling e de Roger Scruton. Sobretudo o primeiro destes.
Uma das muitas coisas (e são tantas!) que os números do Google não mostram, é que alguns filósofos mais jovens têm sido recentemente cada vez mais referidos, o que indica que estão talvez mais presentes na discussão pública actual do que outros que já andam por aí há mais tempo. Parece-me que o caso de Sandel, um filósofo relativamente jovem, tem marcado mais o espaço público da discussão filosófica nos últimos tempos do que o veterano Habermas: o primeiro livro publicado por Habermas data de 1962, ao passo que o primeiro publicado por Sandel data de 1982.
Tendo todos estes aspectos em conta, eu faria uma lista ligeiramente diferente da de Warburton, acrescentado-lhe mais dois nomes. A lista ficaria assim:
1. Peter Singer
2. Michael Sandel
3. Cornel West
4. Amartya Sen
5. Daniel Dennett
6. Anthony Grayling
7. Kwame Appiah
8. Jürgen Habermas
9. Martha Nussbaum
10. Umberto Eco
11. Roger Scruton
12. Ronald Dworkin
Claro que a influência de cada um entre os seus pares é outra coisa. Para terminar, sublinhe-se o facto de Dennett navegar em águas diferentes (nem melhores nem piores) de todos os outros. O que vos parece?
FONTE:  http://blog.criticanarede.com/search/label/Filosofia

Talvez uma crónica por António Paiva

Nascemos impregnados de uma estranha substância que nos deprime, e nos confere uma estranha apetência cultural para a infelicidade. E ao que parece só a inacção nos consola, porque nos preserva o gozo de sofrer.

Secretamente todas as mulheres desejam um homem que tenha em si algo de poeta. Durante o ritual de conquista todos eles ensaiam versos até no olhar. Elas encarnam o papel de musas. Mas a convivência prolongada acaba por provocar a erosão. O erotismo arrefece e inicia-se a terrível dança do suportar a presença do outro com mais ou menos subtileza. É terrível de dizer, é chocante ler, constrangedor falar, insuportável admitir. Mas é a realidade disseminada no lar doce lar comum. À noite vem a ânsia de apagar a luz, esconder suspiros na almofada e fixar o olhar na parede – vidas tão comuns como o respirar.

Habitamos um mundo de tal modo organizado que perdemos a liberdade, abdicamos das emoções e censuramos o desejo. A eficiência e a eficácia material anulam o saber do espírito, tornamo-nos autómatos como as máquinas que nos substituem nas tarefas. Dizem que crescemos intelectualmente, que nos tornámos mais inteligentes – não estou certo disso – o que sei é que perdemos a coragem e a determinação. Porque ligar uma máquina que nos substitui não carece de coragem nem de determinação. Basta um gesto vulgar; pressionar um botão. O homem delega e ao delegar demite-se – anula-se.

Passamos tanto tempo nos lugares e nunca lá estamos. Vamos mas não estamos. E às vezes bastava um pequeno gesto, uma carícia, para nos colocar lá, e tudo seria substancialmente diferente, substancialmente melhor. Temos muitas vidas terrenas antes da última, mais nenhuma depois dela – já escutei crenças – não mais do que isso. Em que acredito eu?, acredito que o medo corrompe e corrói, e temos tanto medo de nós, que culpamos terceiros. E porque ainda ninguém a escriturou notarialmente como propriedade sua – a culpa morre sempre solteira.

António Paiva

O oráculo como arte e o design como pausa – Luís Carmelo in PNETdesign

Visitei, no primeiro sábado de Junho, uma interessantíssima exposição da artista plástica Ana Bezelga (que reside e trabalha na Suécia). Desde logo pelo local: um cubo branco situado no meio de um dos maiores Shoppings da Grande Lisboa: o “Alegro” de Alfragide.

Ninguém suporia encontrar no meio desta sucessão de lojas, mesmo em frente a um microestádio para entreter as crianças durante o Mundial, uma galeria de arte onde a ironia como que suspende a disforia. Eu escrevi “disforia” e “ironia”? Sim. Dois universos que se atravessam sob o signo do seu reverso: a euforia. A euforia do olhar, a exaustão dos reflexos, a pujança quase salvífica do consumidor.

O design é a pausa que permite toda esta súbita convivência, não haja a mais pequena dúvida. Pausa no meio da voragem das formas que propagam um mesmo acontecimento, um mesmo percurso, um mesmo sabor, um mesmo caudal de apetências. É por isso que o design é tanto melhor quanto mais a sua morfologia for transparente. Que ninguém dê por ela e… já se sabe: o arquitecto e o designer sentir-se-ão como os maiores foliões deste mundo. Ao invés, a arte precisa de altar para se rever no seu frémito de sopro do mundo. Um fôlego que carece de ritual para que o mais comum dos mortais dela se aproxime. Um fôlego que também necessita de uma mediação, de um silêncio ou de um separador discreto, mas de um separador. Não a parede de pedra do museu, mas a simples asa de espírito que a sugira.

Ora, este cubo tem todos esses condimentos: trata-se de uma basílica de luz, meio invisível. Mas o mais fascinante é que a exposição relata, com a sua linguagem tão simples quanto ortodoxa (sem o recheio e o derrame dos altares prolixos), todo este jogo. Parodiando-o, enquanto clama e se enuncia com alguma gravidade formal. Não é por acaso que a brancura do espaço é secundado pelas molduras brancas expostas e pela luz tão branca quanto o livro: sim, o ‘Livro’ que anuncia, como um manuscrito também de luz, o próprio ser que está em jogo. Há cinco exemplares do livro à entrada da exposição e, por dentro, nas paredes, dezenas de molduras brancas ocupam o espaço, sendo sobre elas projectado a preto um conjunto de formas/fórmulas geométricas – a maior parte delas obliteradas. Essas formas/fórmulas surgem no livro e são acompanhadas por frases/citações que, no seu conjunto, consubstanciam um manifesto. Mas um manifesto que vive da incorporação (transformando o citacional em original) e que, sobretudo, não visa um objecto singularizado.

A euforia do Shopping vive bem a par desta pulsação que lhe devolve o jogo e silencia o devir. E o que é que se exprime nesse manifesto sem objecto, mas com um sujeito que abarca, de lés a lés, o ‘não dito’ da basílica cúbica?

A exaustão e a intermitência aparecem como motivos do “Motivo” maior – é esse, afinal, o nome da exposição de Ana Bezelga. A separação entre vida e arte impõe-se como tema, ao lado da interrogação sobre o papel dos museus, transformados numa espécie de ‘ar’, neste tempo em que o ‘de dentro’ e o ‘de fora’ se diluem cada vez mais. Também se evidenciam as funções (dos objectos, da arte, da vida real), dissociadas quase sempre dos sentidos que lhe são dados pelas muitas providências da vida. O espaço é, também, equação maior deste manifesto; desde logo, ao aferirem-se noções como a de dimensão (viverão as dimensões da tangibilidade que as agencia?), de forma (será o movimento – “sair e entrar” – a própria abertura da forma?) ou de matéria (um esteio que encarna e se desfragmenta ao mesmo tempo?). Enfim: a estética irrompendo como disposição, como sintaxe e como oficina num espaço concreto que põe em questão o estúdio (do artista) e que irrompe/se mostra em pleno processo (embora a contemporaneidade do “processo” nos indique sobretudo a palavra que traduz a angústia do fim da era dos grandes acontecimentos).

A certa altura, o Antigo Egipto surge como metáfora da ‘representação da representação’: o ‘mise en abime’ que faz de uma narrativa o local onde a luz pode aparecer em todo o lado, embora estando apenas ‘ali’. Estriando a identidade, como se esta não fosse o inexorável sinal de uma incerteza. Ditando certezas sobre os usos, quando todo o uso é um signo e tudo pode ser signo, assim o sentido e o ser se revejam nessa ininterrupta correspondência. Afirmando que a objectividade não é uma celeuma à espera de concertação. Sobrepondo a forma à capacidade de a poder observar (génese de todos os “monumentos”) ou subvalorizando a forma às suas sombras possíveis. Esse tipo de narrativa autista, pautada pelo maravilhoso dos seus impactos e certezas, adoraria que o espaço não fosse um vazio à espera de categorias que o pudessem pensar e/ou alterar. Contudo, o espaço criado por Ana Bezelga supera-se ao conotar o irrespondível, postulando-se assim muito para além das monossemias da letra.

A exposição de Ana Bezelga é silenciosamente irónica. Pela sua colocação, montagem e poder de afirmação. O que nela se exibe é tão conceptual quanto sensorialmente surpreendente. Um ‘ser ou não ser’ que se enuncia como se fosse uma perspectiva, nela podendo entrever-se a fusão de muitos opostos. O que nela se exibe é a inexistência do todo, em abono da sequência que o projecta como se fosse um repouso desejado pelos deuses. Ao olhar para o interior deste ‘cubo basílica’ feito de brancura e de luz, apercebemo-nos de que os objectos são apenas a vaidade de quem os usa. É por isso que a contingência ganha margem de manobra como olhar que a própria exposição reivindicaria: como se reflectir a realidade fosse recortar do grande fluxo apenas as pegadas errantes da gaivota. Talvez porque aquilo que é trazido (de volta) para o estúdio do artista equivalha à natureza de um lapso. Um lapso que se pretende único, no entanto, ainda que encenando – sem fim – a esfera do reprodutível.

Há um instante (o tempo ‘Aion’ sobrepõe-se aqui ao tempo ‘Chronos’) em que uma questão muito interessante que é colocada acerca da diferença entre criar e mostrar, entre aparecer e revelar-se, entre cosmogonia e escatologia. Mostrar apenas aquilo que torna possível o acto de mostrar? Impedir os efeitos? (mas como é que se entenderiam os deuses, pergunta-se?) Ao fim e ao cabo, os efeitos (a perlocução) e a essência das coisas (como diria Platão) não são opostos: são apenas modos de postular horizontes. Como duas cores numa superfície que acabam por apagar tudo o que as envolve, dando-se assim a ver. Mostrar como obsessão: a repetição como modo simples de revelação (o ‘já-aqui-sempre’ em vez do ‘fiat’ decisivo). Até porque muito provavelmente a arte do futuro corresponderá à vida sem fios, sem corpo e sem estações orbitais. Como um simples eco, essa curva de reverberação que cabe na linguagem como um jogo cabe na arquitectura para apenas dizer (e interrogar) o espaço.

Voltemos ao Shopping: de facto, o consumidor é o mais emblemático dos peregrinos: ou não fosse o peregrino – e também o artista – aquele que troca a vida pela aura. E por que não decorar a casa “burguesa” (é tão bom ser burguês!) nas lojas do Shopping? O profeta Daniel também decorou o trono do altíssimo. Bem sabia ele que o congelamento das formas nunca é momentâneo: apenas o seu nome o é. Eis a grande vantagem do ser humano: inventar linguagens, cubos, projecções, fórmulas, conceitos e Shoppings. Como quem faz do design a maior das pausas. A grande tranquilidade. O verdadeiro homem invisível. Nada sei sobre o que é o “Motivo” de Ana Bezelga – a arte é irrespondível, sublinhe-se –, mas não há indiferença possível que o possa definir. Vale a pena visitá-lo. Como se fosse o último de todos os oráculos.

NOTA: Espaço 3/Espaço ao Cubo/Motivo/Ana Bezelga/5 a 23 de Junho/Alegro Alfragide.

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O Processo é o Projecto por Márcia Novais em 16 de Outubro de 2010 in PNETdesign

Eram nove quando chegamos à Casa da Música. Ainda não estava muita gente por lá, e as que estavam eram maioritariamente funcionários ou da organização da AGI. Ficamos uns dez minutos à espera para levantarmos os bilhetes, mas ninguém estava na bilheteira; alguém nos veio dizer que só abria às 9.30 e que fôssemos tomar um café – o horário das AGI começava às 10, o que não aconteceu, contribuindo para o atraso geral durante o dia. O tema foi o Processo é o Projecto, sendo expectável que os intervenientes apresentassem o seu processo de trabalho, fosse em relação apenas a um projecto ou à sua forma de trabalhar. As conferências seriam de vinte minutos, desde a manhã até ao final da tarde. Houve duas alterações no alinhamento: o irmão de Javier Mariscal veio substituí-lo e Henrik Kubal veio por vez de Étienne Mineur.

Paula Scher fez uma breve introdução à Alliance Graphique Internacionale, contextualizando a sua origem e passado até ao presente; criada no pós-Guerra por suíços e franceses, teve até hoje cerca de seiscentos membros.

Chico e Rita foi o filme de animação que Javier Mariscal fez durante seis anos. Não sendo um projecto restritamente gráfico, os cenários estavam muito bem trabalhados, principalmente na replicação da tipografia de cada cidade. No entanto, toda a apresentação incidiu mais no processo do aspecto musical do filme, o que reduziu a sua abrangência.

Desde há muito que sigo o trabalho do colectivo A2. Henrik Kubal apresentou vários projectos, no qual se depreendeu uma certa obsessão com a perfeição, através do contínuo processo de trabalho à volta da font New Rail, que irá ser posta à venda em breve.

A intervenção de Marjan Bantjes foi extremamente sedutora para o público. Quando nos falou do seu processo de trabalho, falou-nos de tudo o que nós gostaríamos que acontecesse connosco: primeiro, dorme muito (disse isso enquanto nos mostrava imagens da sua cama, da sua poltrona, chaise-longue (…)) e que as suas melhores ideias são as quando acorda. Depois pensa sobre o trabalho e são projectadas imagens do seu alpendre ou da sua sala de estar. Depois começa a trabalhar e fica horas a olhar para o trabalho para perceber como está a correr. Depois finaliza-o, consoante o media em que está a trabalhar. Uma das conclusões que temos do seu processo de trabalho, o que já tinha levantado por Kubal, é a ideia de desistir e começar de novo e de aproveitar algo deste processo.

Process is what happens to you while you’re making other plans. Esta apropriação de Abbott Miller explica o seu método de trabalho. Através de pequenas analogias como A book is a movie you hold in your hands ou An exhibition is a room with a plot, foi apresentado o seu trabalho relativo a cada frase, tocando ali e aqui no processo.

Stefan Sagmeister está para o design como o Morrissey está para a música. Apresentou novamente The Happy Designer, que começa a ser uma revisitação constante de cada conferência. Apesar disso, ele é um entretainer. Tal como Miller, através de statements, foi mostrando projectos.

O momento em que Bruno Monguzzi se coloca no meio do palco a gritar por Sara (Fanelli) a simular carícias, é provavelmente um dos mais memoráveis de toda a AGI. No entanto, devo dizer que o mais me interessou foi a forma como ele vê que a tipografia deve ser utilizada: esta deve funcionar da mesma maneira que o locutor usa a voz e as mãos.

Michael Bierut finalizou, trocando as voltas em relação às outras apresentações. O que mostrou foi um projecto que, a nível processual, foi atribulado, começando por erros ortográficos (Have you red?), subestimação do público-alvo e ainda a percepção que as pessoas que usufruem das bibliotecas não entendem o que ele fez, dando mais valor ao trabalho comissariado de ilustração que ao rebranding das bibliotecas.

No final, a ideia transversal a todas as apresentações foi a de give up and start over. Curioso ainda, perceber que os grandes – sim, grandes, sendo a AGI um grupo de elite – também se vêem aflitos quando encaram o brief. Um dos maiores problemas das

conferências foi exactamente algumas delas não se focarem no tema; algumas foram apresentações de trabalhos, excluindo completamente a questão do processo. No entanto, a título de exemplo, a apresentação do Peter Knapp das revistas Elle dos anos 60 foi muito interessante, ou ainda, a de Ang Sang-Soo.

No todo, o balanço é positivo. Uma sala cheia para assistir a conferências sobre design indica que há um público para estas e que, provavelmente, deverão acontecer mais. Assim o espero.

Márcia Novais