Gnaisse – o novo romance de Luís Carmelo

Gnaisse_convite_LCVem aí o meu próximo romance. Vai ser lançado hoje, na Barraca (Cinearte / a Santos). Intitula-se ‘Gnaisse‘ e será lançado pelo Valério Romão e pelo Raul Henriques. É o meu 12º publicado. O tempo foge (e reencontra-se). Espero que toda/o(s) apareçam por lá. (Luís Carmelo)

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Mapa Mudo – labirinto poético

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Um devaneio alimentado durante trinta anos. O intricado credível de cidades imaginadas num planeta possível. Sem legendas ou sinalética, não existem vetores que conduzam o visitante recém-chegado. Todas as direções lhe estão abertas: a descoberta transforma-se uma experiência pessoalíssima. O tricotado destas cidades, onde podemos reconhecer ruas, bairros, zonas agrícolas, marinas, aeroportos, estádios de futebol e até uma base militar, não seguiu um plano premeditado. Como todas as cidades, o seu traçado foi crescendo, evoluindo de acordo com o gosto dos tempos. Zonas históricas foram arrasadas para dar lugar a novas e largas avenidas. Em exposição na galeria Abysmo. O autor considera a possibilidade de organizar visitas guiadas. A não perder.

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Genealogias da Cultura | Luís Carmelo | Lançamento dia 12 de Dezembro, 19 horas no Corte Inglês

capa_Cultura_3DbSINOPSE

“Genealogias da Cultura pretende ser uma contribuição para o debate sobre o que é – e o que significa hoje – a cultura. Distanciada dos limites da história ou da antropologia, a obra centra-se sobretudo na área da significação ou, mais canonicamente, da semiótica. Partindo do princípio de que a cultura é sempre uma construção, o livro aborda diversos níveis de tematização do mundo, integrando em dez capítulos matérias tão diversas como as escatologias, as utopias, os programas modernos, a fragmentação das narrativas do nosso dia-a-dia, o culto do património, a crise, o poder das conotações ou ainda o papel da instantaneidade tecnológica na era da rede. Genealogias da Cultura procura levar a cabo um diagnóstico das várias camadas que se organizam na substância de conteúdo que todos partilhamos, numa perspectiva que não é imune à hibridez que cada vez mais se entretece entre local/territorial e global. Uma obra que tenta dinamicamente apurar aquilo que continuamos a designar por “cultura”, muitas vezes como se fosse uma coisa dada, óbvia e definitiva.”

A propósito de “A Dobra do Crioulinho”, de Luís Carmelo

DobraEscrevo estas palavras como leitora. Não está aqui em causa a análise literária exaustiva, que deixo para os peritos, mas a simples tradução do impacto que a leitura deste romance me suscitou. As frases iniciais transportam-nos de imediato para uma paisagem em que apetece entrar. E olhar. Pode ler-se, em dado momento: ”A paisagem é a súmula demorada de todos os olhares que até hoje a terão esboçado.”. Entrei, portanto, com a lentidão de quem se quer demorar, com o olhar pronto a desenhá-la ao ritmo do espanto.

Deixei-me conduzir por imagens assombrosas, que foram construindo à minha passagem um mundo novo, que fui desbravando numa permanente descoberta. Entrei numa vila. E era como se já lá tivesse estado, e conhecesse as gentes que a habitavam, tal o realismo do retrato criado. Caminhei no empedrado imaculado, entrei na livraria, passei junto ao café, demorei-me em frente à Igreja de Nossa Senhora dos Ares. Conheci as pessoas que se movem por estas ruas, entrei nas suas casas. Percebi as suas tristezas e os seus sonhos. Despedi-me com a saudade de quem deseja ficar, só mais um pouco. No olhar, a promessa de um regresso. Talvez eu tenha deixado naquela paisagem um pouco de mim. Afinal, os meus olhos também a esboçaram. Penso que, ao ler uma história, o leitor mergulha no mar de sonhos de quem a escreveu. Ao sair, deixa lá os seus próprios sonhos. E aquele mar torna-se, de repente, um oceano.

Obrigada ao autor por me ter permitido a entrada neste pequeno mundo encantado, onde puras delícias espreitam a cada esquina.

Teresa Sande

(Luís Carmelo, A Dobra do Crioulinho, Editora Quidnovi, 2013)

Leitura pública de “Macunaíma no meu Pátio” de Luís Carmelo a 18 de Julho, quinta-feira | 18.00 horas no CNC – Centro Nacional de Cultura

LUISCARMELO

Leitura pública de “Macunaíma no meu Pátio”
de Luís Carmelo
18 de Julho, quinta-feira | 18.00 horas

Sala Sophia de Mello Breyner, Centro Nacional de Cultura
Rua António Maria Cardoso, 68

Entrada livre

“Macunaíma no meu Pátio” é um livro inédito de Luís Carmelo. Baseado na rescrita de Macunaíma de Mário de Andrade, o relato segue as instáveis linhas narrativas do original brasileiro, embora recrie e reinvente tudo o resto: espaço, linguagem, ritmo, mitologias e situações. Escrito em Abril de 2013, a obra, antes ainda de conhecer a sua edição em papel, vai ser apresentada em público em Évora através duma leitura que será levada a cabo pelo próprio autor.

A celebração interior da literatura | Luís Carmelo

Foi Ducrot quem escreveu que o fenómeno religioso não se poderia explicar, caso “a própria língua não tornasse possível a fala de alguém ser simplesmente a fala de outrem” (1 ).

Este ponto de vista simplista, mas interessante, põe em paralelo a voz do profeta que transmitia a voz de deus e o encantamento digital das mil mediações que nos repõem, hoje, o mundo na nossa sala de estar. Há em ambos os casos uma distância entre a voz que se ouve e uma outra voz que se oculta.

Mas eu não creio, sinceramente, que o fascínio pelo sagrado resida nesse jogo – por mais sofisticado que seja – entre bastidores e boca de cena. O sagrado não é, pois, apenas uma forma dramatúrgica de conforto.

O que nos atrai ao sagrado é o mesmo que faz o homem pensar. Nós pensamos com imagens que se reproduzem como cerejas (Damásio, em O Sentimento de Si, prefere falar de um fluxo de imagens que se move “para a frente no tempo, depressa ou devagar, de forma ordeira ou sobressaltada e, algumas vezes, avança não apenas numa sequência mas em várias” (2 ). Apesar de não nos podermos comparar a um catavento, andamos, por vezes, lá perto: passeamo-nos na rua, entramos num café, guiamos um carro e, ao lado da concentração, a nossa cabeça é um moinho sempre a rodar, sempre em movimento.

O que é que esta turbulência da nossa mente tem a ver com o sagrado? É simples: o sagrado baseia-se no mistério. E há uma vantagem no mistério que é, ao mesmo tempo, também, a sua essência. É que o mistério é como uma sombra em torno da qual é possível construir ilimitados percursos. Não se trata de explicar por que razão essa sombra existe, mas de a contornar, de a percorrer, de a envolver, porventura de a amar. Grande parte da existência e do discurso dos homens faz-se a partir dessa circum-navegação que nunca mais acaba. Um ritual de imagens, ritos, palavras segredadas e gestos que se reproduz, ao longo do tempo, apenas para sublinhar a importância da sombra. Uma circularidade interior que move e faz mover a mesma intensidade com que a poesia nos conquista no centro da sua afirmação muito específica e intemporal.

No fundo, o labirinto do culto é muito semelhante ao labirinto com que as imagens encenam a consciência, ou com que as palavras encontram as suas cenografias a bordo dos poemas que as fazem aparecer e ser.

O cinema, quando foi inventado, também trouxe para o lado de fora da nossa cabeça esta luta livre entre a montagem e o modo desabrido com que as imagens se podem conotar ou reproduzir, na nossa frente, sem cessar. O cinema é, sob o ponto de vista físico, como substância, uma verdadeira sombra. Melhor: sombra e luz que se alternam. E que, com o seu movimento, nos mobilizam a pulsação mais vital. O mesmo se pode dizer da literatura, a maior produtora de imagens da nossa experiência milenar.

O sagrado é, ao fim e ao cabo, um modo confortável de imitar e plagiar a nossa mente, mas é também a radiografia permanente do seu funcionamento. É por isso que o sagrado e o homem se confundem. Ao lado do sagrado, o cinema e a literatura têm sido uma ilustração fantástica e fantasmática deste desejo profundo de brindarmos ao universo com uma máscara de nós próprios. É por isso que ainda aqui continuamos: a respirar a faúlha incerta de que é feita a literatura e a sua permanente e silenciosa celebração.

Luís Carmelo

(1 ) – Enunciação em Enciclopédia Einaudi, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1984/II, pp. 387.

(2 )  – O Sentimento de Si – O corpo, a emoção e a neurobiologia da consciência, Publicações Europa-América, Lisboa, 2000, p.362.

 

Curso de escrita criativa – B-Learning – Porto (6 de Abril a 15 de Junho) – Versão de 10 semanas | Docente: Luís Carmelo

Curso de escrita criativa – B-Learning – Porto (6 de Abril a 15 de Junho)- Versão de 10 semanas

CONTEÚDOS:

Bloco 1 – Descrição/Seleccionar, ordenar, singularizar.
Bloco 2 – Descrição/Pontos de vista.
Bloco 3 – Descrição/Impressionismo e expressionismo.
Bloco 4 – Descrição/ Paisagens e ambientes.
Bloco 5 – Narração/Matéria e circunstâncias.
Bloco 6 – Narração/Os pontos de vista narrativos.
Bloco 7 – Narração/Exposição, complicação, clímax e desfecho.
Bloco 8 – Figurações e funções.
Bloco 9 – Poética/Expressão poética, metáfora e autoreferencialidade.
Bloco 10 – Poética/O eixo das similaridades e a questão do ritmo.
COMPETÊNCIAS A INTERIORIZAR:
1 – Aprofundar de modo muito pragmático as potencialidades plásticas oferecidas pela língua portuguesa.
2 – Optimizar a expressão individual, através da indagação experimental e da exploração dos materiais linguísticos.
3 – Incorporar e aplicar dispositivos que optimizarão a eficácia nas áreas da descrição, da narração e da poética.
4 – Estimular a expressão estética, aliando dados técnicos à natureza codificadamente literária.

PREÇO: 252 €

Ver aqui: http://www.escritacriativaonline.com/artigo.asp?cod_artigo=180849

Das Culturas

Design: a poética em estado bruto

Neste livro Luís Carmelo fala-nos do design e da sua relação profunda e perene com a ilusão humana, com o sonho, mas com um sonho em que se pode tocar.

O design começou por ser a pele dos objectos a forma exterior visível e texturada para passar a ser ergonómico, uma pele que é o prolongamento da nossa pele. Tornando-se presente em todos os objectos, evidenciando-se para além da sua forma ou da sua função, acabou por integrar o nosso olhar sobre todas as coisas, como “uma hipnose com os pés na terra.”

“No tempo das narrativas orgânicas e axiais, tudo apontava para âncoras particularmente fixas (heróis mitológicos, o nome de Deus, os valores ideológicos, tanto faz). Agora, os signos apontam para os signos, os sinais para os sinais e os avisos para os avisos.”
Neste livro existe um percurso pela história do design, pelas suas propostas, por alguns objectos que marcaram o autor e até pelas redes sociais, por “esses instrumentos de inscrição expressiva como o Facebook e o Twitter que passaram a traduzir, como nenhuns outros, este renovado design baseado na fórmula vintage “Think small”.

No entanto alerta-nos para o facto de “apeado da eficácia, o design morre, mumifica…”
“Nem sempre o design se dirige para o casamento entre a estética e a eficácia. Muitas vezes reentra num jogo que apenas visa o próprio jogo.” Um ardil de sedução, uma astúcia que propõe a quem o use uma descoberta, um empenho, um entrar nesse jogo, “aspira sobretudo ao logro de quem o use.”

Este livro leva-nos a descobrir o design sobre uma perspectiva apaixonada, numa narrativa poética. “Um novo Deus em cena a escrever direito por linhas muito subtis.”

Se voltasse a encarnar, Jesus seria um Gigabit por Luís Carmelo

A imaginação socialmente legitimada foi um dos alicerces da modernidade (de Hume a Kant, a ideia evoluiu meteoricamente). A imaginação passou a ser sobretudo um dispositivo de produção ficcional que visa, a partir da tabula rasa (Damásio refere-se à mente como “contadora de histórias”), a possibilidade de tornar real dados sondados pelo sujeito. É este o alicerce do artista – que tem acesso a visões de completude ou de totalidade – sonhado pelos românticos alemães, sobretudo pelo chamado Círculo de Jena.

Acontece, no entanto, que a estética no seu devir idealista só se viria a enunciar, pela primeira vez, ao longo de setecentos, porque antes haviam já sido criadas condições para tal. A intemporalidade mitológica deu lugar à transcendência e esta acabaria por dar lugar ao sujeito moderno criador e questionador. Entre as duas últimas etapas, o gnosticismo ocupou uma posição importante e é curioso verificar que as suas diversas proveniências têm duas características essenciais: uma (aparentemente datada) que remete para a dimensão salvífica e uma outra que remete para a aceitação da gnose como conhecimento dos mistérios reservados apenas a uma elite.

Foi a partir desta disposição superadora e, também, de busca do inexplicável que, mais de milénio e meio depois do clímax gnóstico, em pleno Iluminismo, foi possível teorizar e crer na arte, na literatura e na estética, tal como hoje ainda as entendemos. É evidente que a pressuposição dos sentidos e da imaginação como vias ligadas a faculdades superiores do homem completou o quadro e legitimou as funções da arte e da estética no mundo moderno. É nessa medida que a dimensão criativa do sujeito é realçada, sendo-lhe atribuído o crédito de uma espécie de gnose exclusiva, superior e irrespondível (um crédito de que a noção “génio” de Kant foi apenas o prenúncio).

O mundo contemporâneo viu esta ideia (meio) sacralizada do artista e do escritor refluir em direcção a nichos sem grande visibilidade. A espectacularização do mundo criou, nas últimas décadas, uma espécie de novo Apocalipse (uma visão de deus, agora sem qualquer deus) feito de terminais, tabletes, bits e imagens, de acordo com o primado da ‘comunicação pela comunicação’. A literatura vive hoje no meio deste feérico espectáculo e tenta sobreviver nas brasas do churrasco – ou do mercado – que coloca à venda, só em papel (em Portugal), uns quarenta e tal livros por dia. O público deixou de andar atrás do escritor (há três milénios, com outras mediações, chamar-lhe-íamos profeta), porque a gnose que hoje mais o encanta, diverte e comove passou para o campo de uma renovada transfiguração: a hipnose digital. Jesus, se voltasse a encarnar, seria um Gigabit. Só assim conseguiria passar a sua mensagem.

Luís Carmelo