PNETliteratura de novo online

Vitor_foto _120x1201 – Após período de ausência por graves  dificuldades financeiras felizmente resolvidas, voltamos a ter o site online.

2 – Do facto apresentamos as nossas desculpas, aceitando desde já as críticas por não termos de imediato informado do problema.

3 – A coordenação do site continuará a cargo de Vítor Coelho da Silva, deixando de haver Editor.

4 – Os escritores que pretenderem publicar no site deverão enviar os textos e fotos para vcs.viplano@hotmail.com.

5 – Estamos a desenvolver nova versão que entrará brevemente online.

6 – O URL http://www.pnetliteratura.pt foi entretanto capturado e registado por outra entidade. Do facto demos conhecimento à FCCN que em resposta nos aconselhou a recorrer a um Tribunal Arbitral. Esse site pirata tem alguns textos copiados do nosso, o que muito lamentamos. Pedimos desculpa aos autores por este abuso que nos é alheio. Obviamente que não cederemos à chantagem de negociar com este cavalheiro.

7 – Por avaria num dos quatro discos do servidor onde está instalado, de que só tardiamente nos apercebemos, alguns textos de vários autores desapareceram. Estamos a desenvolver esforços para a sua completa recuperação, nomeadamente aguardando a entrega de back-ups antigos.

8 – Registámos os URL http://www.pnetliteratura.com e http://www.literatura-pnet.com. De futuro passaremos a utilizar estes dois endereços.

9 – O signatário continua a desenvolver esforços no sentido de se realizar um Festival Literário em Fátima com periodicidade anual. A 1ª edição deverá ocorrer ainda este ano, de 19 a 22 de Novembro.

Lisboa 15 de Fevereiro de 2014

Vítor Coelho da Silva, administrador

A propósito de “A Dobra do Crioulinho”, de Luís Carmelo

DobraEscrevo estas palavras como leitora. Não está aqui em causa a análise literária exaustiva, que deixo para os peritos, mas a simples tradução do impacto que a leitura deste romance me suscitou. As frases iniciais transportam-nos de imediato para uma paisagem em que apetece entrar. E olhar. Pode ler-se, em dado momento: ”A paisagem é a súmula demorada de todos os olhares que até hoje a terão esboçado.”. Entrei, portanto, com a lentidão de quem se quer demorar, com o olhar pronto a desenhá-la ao ritmo do espanto.

Deixei-me conduzir por imagens assombrosas, que foram construindo à minha passagem um mundo novo, que fui desbravando numa permanente descoberta. Entrei numa vila. E era como se já lá tivesse estado, e conhecesse as gentes que a habitavam, tal o realismo do retrato criado. Caminhei no empedrado imaculado, entrei na livraria, passei junto ao café, demorei-me em frente à Igreja de Nossa Senhora dos Ares. Conheci as pessoas que se movem por estas ruas, entrei nas suas casas. Percebi as suas tristezas e os seus sonhos. Despedi-me com a saudade de quem deseja ficar, só mais um pouco. No olhar, a promessa de um regresso. Talvez eu tenha deixado naquela paisagem um pouco de mim. Afinal, os meus olhos também a esboçaram. Penso que, ao ler uma história, o leitor mergulha no mar de sonhos de quem a escreveu. Ao sair, deixa lá os seus próprios sonhos. E aquele mar torna-se, de repente, um oceano.

Obrigada ao autor por me ter permitido a entrada neste pequeno mundo encantado, onde puras delícias espreitam a cada esquina.

Teresa Sande

(Luís Carmelo, A Dobra do Crioulinho, Editora Quidnovi, 2013)

TABULA RASA

220px-John_LockeTabula rasa é uma expressão latina que significa literalmente “tábua raspada”, e tem o sentido de “folha de papel em branco”. A palavra tabula, neste caso, refere-se às tábuas cobertas com fina camada de cera, usadas na antiga Roma, para escrever, fazendo-se incisões sobre a cera com uma espécie de estilete. As incisões podiam ser apagadas, de modo que se pudesse escrever de novo sobre a tabula rasa, isto é, sobre a tábua raspada ou apagada. Como metáfora, o conceito de tabula rasa foi utilizado por Aristóteles (em oposição a Platão) e difundido principalmente por Alexandre de Afrodisias, para indicar uma condição em que a consciência é desprovida de qualquer conhecimento inato – tal como uma folha em branco, a ser preenchida.1

Já na Modernidade, o conceito será aplicado ao intelecto, na tese epistemológica que fundamenta o empirismo – vertente filosófica do século XVII, segundo a qual não existem ideias inatas, sendo que todo conhecimento se baseia em dados da experiência empírica.2

O argumento da tabula rasa foi usado pelo filósofo inglês John Locke (16321704), considerado como o protagonista do empirismo. Locke detalhou a tese da tabula rasa em seu livro, Ensaio acerca do Entendimento Humano (1690). Para ele, todas as pessoas nascem sem conhecimento algum (i.e. a mente é, inicialmente, como uma “folha em branco”), e todo o processo do conhecer, do saber e do agir é aprendido através da experiência. A partir do século XVII, o argumento da tabula rasa foi importante não apenas do ponto de vista da filosofia do conhecimento, ao contestar o inatismo deDescartes, mas também do ponto de vista da filosofia política, ao defender que, não havendo ideias inatas, todos os homens nascem iguais. Forneceu assim a base da crítica ao absolutismo e da contestação do poder como um direito divino ou como atributo inato.3

A teoria da tabula rasa também fundamenta uma outra corrente da filosofia e da psicologia, o behaviorismo clássico. O behaviorismo atual, que é obehaviorismo radical, não se baseia na tabula rasa.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Tabula_rasa (FONTE)

Debaixo de Algum Céu – Nuno Camarneiro

Num prédio as vidas arrumam-se como livros numa estante. São histórias fechadas em si mesmas, ou nem tanto, porque as histórias têm tendência de ir por onde não devem.

São as personagens incertas que habitam aquele prédio à beira do mar. Delas não conhecemos o seu passado, também não iremos conhecer o seu futuro. Afinal, “uma história são pessoas num lugar por algum tempo.”

A escrita de Camarneiro é de uma grande coerência literária, desdobra-se em imagens de grande beleza poética, arranca estes personagens ao seu quotidiano, aos seus pensamentos, à intimidade da sua casa. São gente com paredes à volta. Têm todos um pouco uns dos outros, sem contudo o saberem ou se darem a conhecer. São como o padre que resgata o Menino Santo e o apresenta à sua Igreja. “O farol aceso cumpre a luz aos barcos que dela carecem.”

(ler mais em Acrítico – Leituras dispersas)

SOBRAS DE LOUCURA | Cecília Prada

Há na história da literatura uma variedade de escritores que vêm vindo, desde os primórdios da civilização humana,  dois tipos de escritores: os que se dizem “sãos”, normais; e os que são definidos como “loucos”, diferentes– em vários matizes, tonalidades e aceitações. Ou rejeições. Os primeiros são os meninos bonzinhos, o primeiro da classe – ou, meramente, o funcionário público da literatura, aquele que, em nosso tempo principalmente, está mais interessado em sua agenda, conta bancária e feiras de livros, de preferência internacionais. A receita de sua ficção – nós os temos aí às toneladas – é  a falta de estilo pessoal, vertida em prosa sem pensamento ou sobressalto, engordativa e abundante em enredos complicados (os históricos andam muito em moda), de preferência já votados a polpudas versões telenovelescas ou cinematográficas.

Os segundos : é grande sua variedade, englobados que estão dentro da categoria geral de todos aqueles escritores que vieram vindo, séculos afora, nos vários cantos da Terra, empenhados de modo tão visceralmente doloroso e difícil naquela luta “tão vã”– como dizia o poeta Drummond – a luta pela palavra, pela expressão do estranhamento cotidiano de si, do outro, do universo em que estamos todos metidos. Aqueles para os quais escrever é um imperativo interior que pode levá-los a extremos de satisfação ou de sofrimento, uma arte exigente, implacável, e certamente a mais solitária que existe.

Há mesmo na Inglaterra um curioso monumento, não me lembro em que lugar, “em homenagem ao escritor solitário”– uma enorme cadeira vazia que se levanta para  o céu – por entre suas pernas passa a história da humanidade. Homenageia um estranho, atordoado  e já raro ser – o “escritor literário” – que, se ainda não extinto hoje, estertora em meio à enxurrada editorial quantitativa despejada cotidianamente sobre sua cabeçapor todos os meios tradicionais ou up-to-date midiáticos, enquanto ele ainda tenta, qual Camões, salvar-se do naufrágio mantendo intacto o manuscrito de um poema, ou de um romance,  fora das águas.

Um ser que insiste em estar mergulhado, sempre, na compulsão de uma criação cujo mistério chega a desafiar até mesmo um dos maiores escritores da atualidade, Gabriel Garcia Marques, que pergunta: “Que tipo de mistério é esse, que faz com que o simples desejo de contar histórias se transforme numa paixão, e que um ser humano seja capaz de morrer por essa paixão, morrer de fome, de frio ou do que for, desde que seja capaz de fazer uma coisa que não pode ser vista nem tocada, e que afinal, pensando bem, não serve para nada?”

 

(É disso que trata meu décimo-terceiro livro, “PROFISSIONAIS DA SOLIDÃO”(artigos sobre literatura), que acaba de ser lançado pela Editora SENAC, de São Paulo – para o qual, gostaria muito esta autora de encontrar também editor em Portugal e em outros países lusófonos…)

O DEBITADOR por Cristina Carvalho

cc 01E então o rapaz levanta-se, entorta, ligeiramente, mas só ligeiramente a cabecinha para um lado – reminiscências de infância! -, ajeita os seus dois relógios, um em cada pulso, um verde, outro amarelo, esfrega as mãos, simula um auto-abraço, entrelaça os dedos das mãos, começa a andar de um lado para o outro do palco, com frenesim e alguma estudada e ensaiada atitude nervosa e começa a debitar um incompreensível, na sua totalidade, amontoado de palavras.

Dirige-se a um público atordoado – pensa ele – por tantas e singulares afirmações, um público que nem sabe bem onde é que está e o que veio ouvir.

O jovem debitador vomita e defeca palavras que não existem, questiona, ilude, prestidigita, inventa; o jovem debitador apresenta uma energia doentia, é baixote e ágil como um ladrão; forma frases compridíssimas, com mais palavras estrangeiras que portuguesas; tenta convencer em acto desesperado; de tempos a tempos, ergue os braços e incita a plateia a levantar-se e a aplaudir e faz-se de tal maneira insinuante que, num primeiro vislumbre, até confunde. E faz gestos que incitam a plateia a levantar-se, observa, ri-se e manda sentar, de novo! Apreciou a constatação: levantaram-se e baixaram-se a seu comando!

Eu sou quase Deus!

O jovem debitador não diz absolutamente nada. Nada de nada! É de uma banalidade confrangedora. São toneladas de lugares-comuns, resmas de frases feitas, pensamentos cansados, esgotados de tanto ouvidos. É um autómato, uma figura de cera que, se fôr deixada ao sol, derreter-se-à num ápice. Ele não sabe, ele não sente. Não deve ter sangue. A sua proclamada ambição e o seu expresso desejo é que todos os jovens deste desgraçado país trabalhem. E ele existe para nos convencer que, se não trabalham, é porque não querem e que se trabalhassem tinham sucesso garantido! Basta a vontade!! O rapaz é cansativo. Rebenta-nos de cansaço! Fala à velocidade da luz e não dá tréguas. Não tem tempos. Não tem noções. Impõe. Exige! Ordena!

Expulsa! Tudo explode à sua volta! Não! Não quero ouvi-lo nem mais uma fracção de segundo em todo o resto da minha vida!! Irra!

O debitador tem sido recebido em todo o lado. Nas televisões, nas rádios, nos jornais como se de um Messias se tratasse, um espalhador da palavra, um arrebimba-o-malho de certezas e confianças no nada, no zero. Nada! Diz nada! Não há, naquele discurso, nada de coerente, de sábio, de conhecedor. Não há vida. No seu discurso existem todas as sombras de todos os desesperos, de todas as angústias, de todas as incertezas.

O ignóbil disto tudo é o sorriso satisfeito dos que o elegeram para encabeçar um movimento destes: o empreendedorismo jovem! E também daqueles que lhe dão cobertura mediática. É que isto chama audiêêências! Muitas!

No olhar deste rapaz não existe nada a não ser a vontade desmedida de se fazer notado seja de que maneira seja. Um case study, para usar umas das suas muitas lenga-lengas anglo-saxónicas e que passo a dar exemplos:

Mind set, interface, feedback, swaip, pitch, slide, as we speak, expertise, spam, newsletters e desculpem-me os erros, que alguma coisa deve estar mal escrita.

Não existe naquele olhar uma única estrela! Nem um grão de pó de estrela! Não há o desenho do infinito, não há um horizonte de sonho, ainda que possa parecer. Daquele sonho inalcançável, que faz dos homens seres excepcionais. Não há sedas, nem veludos, nem esconderijos secretos, nem absurdos de fantasias! Não há nada que se vislumbre naquele olhar de tão perdido que anda!

Que triste vida!

Cristina Carvalho

Agosto 2013 – Pnet Literatura

http://pnetliteratura.pt/cronica.asp?id=5947 … (FONTE)

O Assobiador, de Ondjaki

Numa aldeia de velhos, no interior de Angola, onde se observa um estranho ritual de adoração dos burros, chegam dois personagens vindos de fora. O caixeiro-viajante e o assobiador.

O primeiro espreita a aldeia com a consciência de alguém “treinado nos campos da vida”,  “vendedor de bugigangas, de objectos para distrair ou encantar”, e o segundo assobia um choro como se tivesse por missão exultar a aldeia a um ritual pagão, catalisador de todas as forças, ele, o assobiador, “ o distribuidor enganoso e exclusivo que a tristeza arranjara para mostrar à Humanidade apenas a sua face bela”.

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