A celebração interior da literatura | Luís Carmelo

Foi Ducrot quem escreveu que o fenómeno religioso não se poderia explicar, caso “a própria língua não tornasse possível a fala de alguém ser simplesmente a fala de outrem” (1 ).

Este ponto de vista simplista, mas interessante, põe em paralelo a voz do profeta que transmitia a voz de deus e o encantamento digital das mil mediações que nos repõem, hoje, o mundo na nossa sala de estar. Há em ambos os casos uma distância entre a voz que se ouve e uma outra voz que se oculta.

Mas eu não creio, sinceramente, que o fascínio pelo sagrado resida nesse jogo – por mais sofisticado que seja – entre bastidores e boca de cena. O sagrado não é, pois, apenas uma forma dramatúrgica de conforto.

O que nos atrai ao sagrado é o mesmo que faz o homem pensar. Nós pensamos com imagens que se reproduzem como cerejas (Damásio, em O Sentimento de Si, prefere falar de um fluxo de imagens que se move “para a frente no tempo, depressa ou devagar, de forma ordeira ou sobressaltada e, algumas vezes, avança não apenas numa sequência mas em várias” (2 ). Apesar de não nos podermos comparar a um catavento, andamos, por vezes, lá perto: passeamo-nos na rua, entramos num café, guiamos um carro e, ao lado da concentração, a nossa cabeça é um moinho sempre a rodar, sempre em movimento.

O que é que esta turbulência da nossa mente tem a ver com o sagrado? É simples: o sagrado baseia-se no mistério. E há uma vantagem no mistério que é, ao mesmo tempo, também, a sua essência. É que o mistério é como uma sombra em torno da qual é possível construir ilimitados percursos. Não se trata de explicar por que razão essa sombra existe, mas de a contornar, de a percorrer, de a envolver, porventura de a amar. Grande parte da existência e do discurso dos homens faz-se a partir dessa circum-navegação que nunca mais acaba. Um ritual de imagens, ritos, palavras segredadas e gestos que se reproduz, ao longo do tempo, apenas para sublinhar a importância da sombra. Uma circularidade interior que move e faz mover a mesma intensidade com que a poesia nos conquista no centro da sua afirmação muito específica e intemporal.

No fundo, o labirinto do culto é muito semelhante ao labirinto com que as imagens encenam a consciência, ou com que as palavras encontram as suas cenografias a bordo dos poemas que as fazem aparecer e ser.

O cinema, quando foi inventado, também trouxe para o lado de fora da nossa cabeça esta luta livre entre a montagem e o modo desabrido com que as imagens se podem conotar ou reproduzir, na nossa frente, sem cessar. O cinema é, sob o ponto de vista físico, como substância, uma verdadeira sombra. Melhor: sombra e luz que se alternam. E que, com o seu movimento, nos mobilizam a pulsação mais vital. O mesmo se pode dizer da literatura, a maior produtora de imagens da nossa experiência milenar.

O sagrado é, ao fim e ao cabo, um modo confortável de imitar e plagiar a nossa mente, mas é também a radiografia permanente do seu funcionamento. É por isso que o sagrado e o homem se confundem. Ao lado do sagrado, o cinema e a literatura têm sido uma ilustração fantástica e fantasmática deste desejo profundo de brindarmos ao universo com uma máscara de nós próprios. É por isso que ainda aqui continuamos: a respirar a faúlha incerta de que é feita a literatura e a sua permanente e silenciosa celebração.

Luís Carmelo

(1 ) – Enunciação em Enciclopédia Einaudi, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1984/II, pp. 387.

(2 )  – O Sentimento de Si – O corpo, a emoção e a neurobiologia da consciência, Publicações Europa-América, Lisboa, 2000, p.362.

 

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