FILOSOFIA POLÍTICA | Um gesto que abalou o mundo | “Gostaria de ser lembrada como alguém que quis ser livre, para que os outros pudessem também ser livres” Rosa Parks | por Nuno Ramos de Almeida in “Jornal i”

Precisamos de gente fiel à luta contra aquilo que está mal, necessitamos da singularidade de um acto, como o de Rosa Parks.

Precisamos de gente fiel à luta contra aquilo que está mal, necessitamos da singularidade de um acto, como o de Rosa Parks.

Parecia um dia como outro qualquer, 1 de Dezembro de 1955. Uma costureira de 42 anos sentou-se no autocarro nos lugares disponíveis para “gente de cor”. Na cidade de Montgomery, no estado do Alabama, a lei dizia explicitamente que quando os brancos não tivessem lugares sentados podiam obrigar os negros a levantar-se, e se o veículo estivesse muito cheio os negros podiam ser despejados para a rua.

Nesse dia vários brancos entraram no autocarro e muitos negros levantaram–se dos seus lugares. Mas não todos. Rosa Parks recusou fazê-lo. “Estou cansada de ser tratada como uma pessoa de segunda classe”, disse ao condutor.

O funcionário chamou a polícia. A mulher foi presa por não aceitar ser tratada como escrava.

Nesse mesmo dia, os habitantes negros da cidade de Montgomery deixaram de andar de autocarro. São os pobres que viajam nos transportes públicos. São os pobres que trabalham por salários de miséria. São eles que criam a riqueza de cidades como Montgomery. E aí, no estado do Alabama, os pobres são quase todos negros. O boicote durou 381 dias. 75% dos passageiros dos autocarros, os negros, não cederam. No fim do seu protesto, o Supremo Tribunal dos EUA considerou ilegais as leis racistas do estado do Alabama que discriminavam os negros nos espaços públicos. No dia 21 de Dezembro de 1956, o Reverendo Martin Luther King e outros activistas dos direitos cívicos foram os primeiros negros a viajar, como cidadãos iguais de direito, num autocarro da cidade de Montgomery.

Um acto que mudou a história. Rosa recusou-se a levantar-se do banco do autocarro para dar lugar aos brancos. Foi presa, mas a sua recusa atiçou a revolta pelos direitos iguais. As coisas nunca mais foram as mesmas. Um só gesto fez toda a diferença.

Vivemos hoje em Portugal em condições cada vez piores para a maioria da população.

Ao contrário dos contos de fadas ou dos filmes em que se come pipocas, nada obriga a que depois de uma tragédia haja um final feliz. Mas na nossa liberdade está inscrita a possibilidade de mudar as coisas. Por vezes basta um gesto corajoso.

Porque temos de viver num país em que em tempos de vacas gordas os banqueiros distribuem dividendos à conta dos nossos depósitos e em tempo de vacas magras esses mesmos banqueiros distribuem dividendos à conta dos nossos impostos?

Porque somos obrigados a aturar os governos do grande centrão que foram cúmplices das negociatas do BPN e das parcerias público-privadas?

Porque estamos condenados a aceitar um país que vai ao fundo enquanto os do costume enriquecem?

Numa das tragédias clássicas do teatro grego, “Antígona” opõe-se às leis da cidade que a impedem de enterrar o irmão. Para ela as leis da cidade não estão acima do dever. O seu sofrimento vai derrubar a tirania. Há milhares de anos, como agora, a liberdade vale mais que os repressores de turno. Basta um gesto para o perceber.

Precisamos de gente fiel à luta contra aquilo que está mal, necessitamos da singularidade de um acto, como o de Rosa Parks. Um acto de contágio que sirva para inocular a recusa de qualquer submissão.

Editor-executivo

Escreve à terça-feira

http://www.ionline.pt/opiniao/gesto-abalou-mundo … (FONTE)

Joana Bértholo

BERTHOLO-by-luis-de-barrosJoana Bértholo
nasceu em Lisboa em 1982 e passou boa metade desse entretanto no estrangeiro.

Em Lisboa formou-se em Design de Comunicação, em Buenos Aires mestrou-se em praticas artísticas de intervenção social e em Berlim doutora-se (ainda, e demoradamente) em Estudos Culturais. A sua tese fala muito de sombras.

Publicados tem pela editorial Caminho o romanceDiálogos para o Fim do Mundo (2010) e Havia – histórias de coisas que havia e de outras que vai havendo (2012) que saiu antes em versão mais curta pela editora Primeiro Exemplar (2006); e ainda pela Baleiazul o argumento banda-desenhado Ausência de Cor (1999).

Premiados tem vários contos, o projeto Boa-Nova(Prémio Jovens Criadores – Literatura, Clube Português de Artes e Ideias, 2005) e o romanceDiálogos para o Fim do Mundo (Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho, 2009).

A mencionar ainda o 1.º lugar no Concurso Literário Persona (2006), ou o Prémio Escrevendo a Partir da Pintura (Fundação Calouste Gulbenkian, 2000); a menção honrosa no Prémio Nacional de Literatura Juvenil Ferreira de Castro (1998); o Melhor Argumento para BD (SOSracismo e editora Baleiazul, 1999); Melhor Ensaio sobre o Movimento Olímpico (Comité Olímpico Português, 2000); e a menção honrosa no Prémio UP-Utopia (Universidade de Letras do Porto, 2005); entre outros.

Acredita no coletivo e faz parte de bastantes, a mencionar a plataforma Xerem e a plataforma editorial Amor-Livro. Há até livros-coletivos para os quais contribuiu com um capítulo, como é o caso d’O Caso do Cadáver Esquisito (edição Prado, 2011)

O último romance tem por título O Lago Avesso, e deve estar a sair.

mais?
http://www.unscratchable.info
http://cargocollective.com/amorlivro