O Inferno de Dante capitalista e pós-moderno | António Pinho Vargas

111apv 01Os media, as tvs, tratam com o mesmo entusiasmo, todos os acontecimentos que seleccionam como se todos tivessem a mesma importância. A expressão que há uns anos se tentou introduzir na área cultural, “indústria de conteúdos”, que, aliás, desapareceu com a mesma velocidade com que foi introduzida por algumas luminárias industriais, aplica-se com mais propriedade a esta máquina diária de produção de eventos; o que disse fulano é tratado como o que disse sicrano; a crise financeira de Chipre tem a mesma importância da crise financeira do Sporting; a remodelação de dois ministros é tratada como idêntica – como assunto propulsor de discursos – a uma manifestação de um milhão de pessoas; a gritaria da Assembleia de manhã é transposta para uma pequena gritaria à noite em vários canais em simultâneo sobre os mesmos assuntos que foram discutidos à tarde. E todos, mas todos os “acontecimentos” servem para uma tempestade imparável de comentários, debates, entrevistas, seguidas de análises das entrevistas anteriores e assim sucessivamente. Com uma variante: a crise de todos os dias é suspensa todas as segundas-feiras para se juntarem vários grupos de 3 pessoas e falarem de futebol à mesma hora, não de futebol propriamente dito, mas da vária miséria que anda à sua volta, da qual esses programas fazem parte integrante.
O inferno não deve ser muito diferente de tudo isto (somado multiplicado, amplificado e eternizado).
Quanto tudo é equivalente a qualquer outra coisa é o mesmo que qualquer coisa ser equivalente ao nada.
Claro que não é verdade. Mas parece. É uma indústria de “conteúdos” florescente, produtora de um stress síncrono no qual todos participamos (dentro ou fora) com maior ou menor alegria, ou com maior ou menor fúria.

Falta apenas um aspecto a constatar: a arte nunca existe.

António Pinho Vargas

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.