MERCADORES DE GENTE | Cecília Prada

Alberto da Costa e Silva, diplomata,poeta e africanólogo, deve ser figura ainda lembrada em Portugal, onde foi embaixador do Brasil, e também pelos seus estudos das ex-colonias portuguêsas na África e do relacionamento entre as várias literaturas lusófonas. Um de seus mais interessantes livros é  Francisco Félix de Souza, mercador de escravos,  (2004), onde mostra um personagem altamente interessante: um mestiço baiano que tendo chegado à África sem um tostão, em pouco tempo se tornou um  dos maiores mercadores de escravos da história e um potentado africano, com o título de “chachá” ou vice-rei de Ajudá. Chegou a ser considerado, na sua época (nascido em 1754,ou em 1768, e morto em 1849), como um dos três homens mais ricos do mundo. Suas letras eram honradas em todas as praças da Europa, e até mesmo sua palavra era tida como garantia suficiente de vultosas transações. O que é mais interessante nessa figura, porém, é que, mesmo exercendo uma das mais cruéis e repugnantes profissões, conseguiu granjear, pela sua habilidade, inteligência  e carisma, a estima e o apreço tanto de brancos como de negros, sendo tido até hoje como um grande benfeitor da comunidade “brasileira” do Daomé. O vice-cônsul britânico naquele país, John Duncan, ainda que lamentando a espécie de comércio feito por Francisco Félix, dizia que ele era “o homem mais humano e generoso das costas da África”– contribuía para essa fama, certamente, o esplendor com que Francisco recebia, em sua enorme mansão, entre baixelas de ouro maciço, louças monogramadas, pratas e cristais, acepipes e vinhos caros, os oficiais de marinha de todas as nacionalidades, inclusive os ingleses que, cumprindo tratados e determinações de sua Corte, davam caça aos navios negreiros do próprio “chachá”.

Mais monstruosos do que ele – que embora pobre e mestiço (não se sabe bem se cafuzo ou mulato), nunca foi escravo – eram, porém, os numerosos ex-escravos que, uma vez libertos no Brasil, regressavam à África para também enriquecerem no tráfico de gente. Todas as minúcias comerciais, as intrigas políticas entre as nações, as formas de cativeiro,manutenção e transporte dos negros, são estudadas pelo autor com um apuro que somente os mais de 50 anos que consagrou a assuntos africanos poderiam ter propiciado – pelo conjunto de sua obra, Costa e Silva é reconhecido como o maior africanólogo brasileiro vivo.

O seu projeto de escrever sobre Francisco Félix data da adolescência – desde os 15, 16 anos, foi guardando tudo o que encontrava sobre ele, achando, porém, que o material era pouco e esparso e talvez não justificasse um livro. Com o correr do tempo esse processo foi revertido – outros historiadores, importantes, começaram a publicar textos sobre o complexo personagem. Sua história foi contada em um romance, O vice-rei de Udá, de Bruce Chatwin, e até mesmo em filme: Cobra verde, de Werner Herzog. Pensou então o autor que talvez não valesse a pena retomar o assunto, mas, como diz, “o meninote que continua dentro de mim protestou” – pois para cada história contada varia o enfoque, segundo a imaginação do narrador.

O ponto de vista adotado por Costa e Silva foi o rigor historiográfico. Sem deixar de valorizar os aspectos pitorescos dessa fabulosa história que se lê de uma assentada, ele nos traça um vasto painel do tráfico negreiro, em toda a sua hediondez, e da vida que se desenvolvia nos países da costa africana. Onde reis negros cobertos de ouro e de sedas do Oriente tinham um poder inexcedível sobre seus súditos, exercendo naturalmente,eles próprios, o tráfico – em um tempo em que até sacrifícios humanos eram realizados rotineiramente. No próprio funeral do “chachá” Francisco Félix – que faleceu,segundo a maioria dos autores, aos 94 anos, deixando 53 mulheres, 80 filhos e 12.000 escravos –, sete robustos jovens foram oferecidos à sua família pelo rei Guezo para serem sacrificados, como  prova de apreço e amizade. Dizem ainda que em sua tumba – que,à maneira daomeana, foi erigida dentro do seu quarto, ao lado da cama –, foram também enterrados com ele um menino e uma menina, sacrificados.

A leitura desse precioso livro, apaixonante, nos dá mais do que uma contribuição historiográfica: conduz inevitavelmente o leitor a uma reflexão filosófica sobre as sociedades humanas em geral, e sobre a própria essência do homem – esse homo hominis lupus, animal tão contraditório, capaz de reunir em si lampejos do divino sobrepostos à mais grosseira e visceral brutalidade.

Cecília Prada

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.