Edgar – Poe(mas) em estórias de Eduíno de Jesus | Onésimo Teotónio Almeida

Está a circular por aí uma preciosa colecção de pequenos volumes vestidos de capas divinalmente desenhadas por um poeta chamado Eduardo Bettencourt Pinto que, na lonjura de Vancouver, sempre me pareceu o açoriano mais plantado nas ilhas que nem sequer lhe foram berço. Eduardo Bettencourt Pinto deu em editor de preciosidades e fez questão de primar conseguindo para cada volume uma apresentação gráfica correspondente. Depois de A Sagração do Amor, de Anabela Mimoso, e de Aubrianne, do próprio Eduardo Bettencourt Pinto, surge-nos a surpresa de Edgar, de Eduíno de Jesus.

Que o poeta era contista, já o sabíamos. Agora que o contista é poeta, não poderá nunca ser negado depois de lermos estes poemas-em-estória, ou estórias-em-poema. Plural, sim, porque são duas. Edgar dá o nome ao volume, se calhar em recôndita homenagem a Edgar Allan Poe. Porque o livrinho traz uma outra: “Num Outono, na Normandia”.

São sete páginas de Eduíno de Jesus em plenilúnio (se não conhecem o termo, leiam o primeiro conto), poeta-prosador e prosador-poeta, num acesso de prosa irreprimível (não lhes soa a nada? leiam o segundo conto).

Um milagre, este aparecimento em público. Porque Eduíno de repente volta as costas ao leitor e vai-se. Sem se despedir. (mais intertextualidades a convidarem-nos a uma visita a Edgar. Para lá ficarmos. A usufruir.)

O autor tem outros contos. Um deles, “As  Duas Mortes de Sibylla Van Hasselt”, veio à luz há anos na Atlântida. Sobre ele em tempos enviei ao autor o seguinte e-mail que, mutatis mutandis, se pode aplicar à escrita destes dois contos de Edgar:

        Caríssimo Eduíno,

        O teu conto é uma tapeçaria quase chinesa, todo urdido num conjunto esteticamente suspenso.  Tudo se passa num nível quase etéreo de evocação memorialista, quase sem as figuras tocarem o chão. Os objectos que referes parecem todos de porcelana chinesa. A narrativa flui numa linguagem límpida, clara e bonita, quase de aguarela chinesa, mas apenas ilusoriamente transparente visto ao fim e ao cabo não nos permitir entrar no universo do narrador, nem conhecer Sibylla ou Stephanie, porque há um véu sobre todo o quadro que sugere, deixa imaginar, mas não permite ao leitor penetrar, nem sequer tocar nas personagens.

        A Leonor viu a Sibylla como uma mulher do século XIX, uma figura do passado, fantasmática; mas ainda se consegue conhecer menos a Stephanie. O leitor fica à espera de mais porque o narrador nos deixa apenas à porta de um mistério.

        Quer a Leonor quer eu somos muito mais pelo “realismo”. A Leonor nem gostava de contos antes de vir para os EUA porque diz que não lhe dão para entrar no universo emocional das personagens. Aqui, os contos da revista New Yorker, que lê todas as semanas, fizeram-na mudar de opinião e agora gosta mesmo.

        Hoje, por cá, na literatura regressou-se a um tipo de narrativa menos quadro/pintura e mais envolvimento emocional do leitor num universo a três dimensões que se move como no cinema. Não é o romance à século XIX, porque os recursos a técnicas modernas de narrativa são altamente engenhosos. E a tradição anglo-americana de mergulho na psicologia das personagens que vão emergindo cada vez mais complexas e densas ao longo da narrativa, também torna a ficção anglo-americana bastante especial.

        O teu conto pertence a outro universo e, dentro desse universo, trata-se de uma construção de grande valor estético-literário, que só ganhará com a publicação dos contos em conjunto porque eles se enriquecerão muito uns aos outros e revelarão imenso sobre o universo estético do autor.

Os leitores ficam à espera de mais. E os amigos sentem-se com direito a isso.

Onésimo Teotónio Almeida

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