As responsabilidades de Rui Rio e António Costa | José Pacheco Pereira in Jornal Público

Tirando Rio e Costa, não há nos partidos quem possa dar corpo a uma alternativa que dê esperança ao país.

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A profundidade do pântano da vida política portuguesa adensa-se todos os dias. Quando Guterres falou de pântano, estava apenas a temer a “coisa” e a ver se não entrava nela. Pode-se considerar que já lá tinha os pés, mas uma parte considerável do corpo ainda se encontrava fora, embora a responsabilidade de Guterres em perder a última oportunidade de sair sem dor do “monstro” seja enorme. Mas se o plano inclinado continuava, a alternância política como mecanismo renovador e dador de esperança ainda existia.

De Guterres ainda houve saída política para Barroso, com Manuela Ferreira Leite a tentar travar o caminho do descalabro e a não conseguir. Uma parte importante do PSD, a começar por Barroso e Santana Lopes, queriam-na fora do Governo o mais cedo possível, o que aconteceu. Atribuíam-lhe a responsabilidade da derrota eleitoral nas europeias. Depois Barroso fugiu, entregando o PSD e o Governo a Santana Lopes, que tirou rapidamente qualquer ilusão que existisse sobre o caminho para o pântano. O reino das trapalhadas foi curto, mas afastou o PSD do poder por muito tempo.

No entanto, o sistema de alternância ainda estava a funcionar. A dissolução da Assembleia feita por Sampaio mostrou que ainda funcionavam os mecanismos democráticos, e Sócrates iniciou um mandato com a força política que nenhum Governo tivera depois de Cavaco. Era uma enorme vantagem e uma enorme responsabilidade, com uma maioria parlamentar de um só partido, um forte apoio social e uma paralisia da oposição, traumatizada pela rejeição do Governo Santana Lopes. Dever-se-ia ter estado atento para o facto de se entrar no início de uma era de grandes rejeições, de votos maciços mais destinados a correr com o Governo anterior do que de entusiasmo no Governo seguinte e que isso iria marcar a ascensão e a queda dos governos com muito maior dramaticidade do que no passado.

Sócrates chegou ao poder com tudo a seu favor e, numa fase inicial de governação, usou esse poder de forma útil, principalmente no esforço de contenção do défice. Mas quando Sócrates pôde, à vontade, dar livre curso à sua concepção autoritária e abusiva do exercício do poder, utilizando o património nacional para desenvolver projectos de “bandeira” que cada vez eram mais de “bandeira” do que projectos, começou o descalabro que a crise de 2008 iria tornar irreversível e muito onerosa para o país.

Sócrates e um pequeno grupo à sua volta ainda não perceberam que o país não se limitou a rejeitá-lo, mas odeia-o activamente, e não é sem precaução que uso esta palavra, porque penso ser exacta e transmitir à perfeição um sentimento muito generalizado. Um número esmagador de portugueses considera-o culpado por uma parte importante das suas desventuras actuais, resultado da bancarrota de 2011, e por isso Sócrates é, junto com o actual Governo, um dos que não podem sair livremente à rua, sem risco pessoal, neste país que é suposto ser de brandos costumes. A sua anunciada ida regular à televisão é por isso o melhor serviço que o actual Governo pode esperar da RTP nestes tempos de aguda crise.

A queda de Sócrates e a ascensão de Passos Coelho representam já o novo padrão de rejeição veemente “deste” e voto por raiva no “outro”, seja ele qual for, que pode vir a ser o padrão eleitoral deste período de crise. E também aí, mesmo neste contexto, havia uma sensação de alternância, mas já com muito menos esperança. Mas alguma havia, e foi nessa base que o Governo Passos Coelho, assente numa maioria parlamentar de dois partidos, começou com excepcionais condições políticas para governar. Essas condições não vinham de grandes expectativas, que são em muitos casos ilusórias em democracia, mas numa disponibilidade dos portugueses para passar tempos difíceis. Já o disse e insisto, o enorme património desbaratado pelo actual Governo foi ter deitado fora uma coisa raríssima em democracia: uma consciência de que para “levantar” o país da crise da bancarrota havia que fazer sacrifícios.

O que aconteceu em seguida foi não só a destruição deste enorme capital mas a sua transformação no seu exacto oposto, uma indisponibilidade activa para qualquer medida que pareça de perto ou de longe significar mais austeridade. E as pessoas sabem, com um saber interiorizado e profundo, que são sujeitas a uma governação incompetente, caótica, errática, ignorante do seu país, apostando num discurso de colocar os portugueses uns contra os outros, governando com dolo e ostensivamente desprezando o sofrimento de muitos. E voltamos de novo ao efeito de rejeição, dramática, total, visceral, veemente.

Mas, de modo diferente ao que aconteceu com Santana Lopes, que favoreceu Sócrates, ou com Sócrates que favoreceu Passos Coelho, a rejeição de Passos Coelho não encontra em Seguro qualquer capacidade de fixação, alívio, esperança. Seguro pode até ser capaz de ganhar as eleições porque está lá no sítio certo no momento certo, mas não receberá qualquer capital político próprio, nem que seja a vaga expectativa de que se possa ficar melhor. Será um voto de desespero, sem ânimo nem sentido político útil. Tira-se o quente e coloca-se o morno. O pântano que está no Governo, desmoralizado e sem convicção, atascado nas suas incompetências e fragilidades, incapaz de sair do estado de estupor, agrava-se porque pura e simplesmente pode haver oposição, mas não há alternativa.

Toda a gente tem a convicção de que todos os defeitos da governação de Passos Coelho, a partidocracia, a incompetência, a falta de rumo, a mistura de dolo e covardia, que hoje são a norma, serão herdados por um herdeiro natural igualzinho ao seu antecessor, ou mesmo pior. O desespero de muitos portugueses nestes dias vem desta consciência de que no sistema político português os dois grandes partidos, PS e PSD, não fornecem, nem de perto nem de longe, a gente capaz de defrontar qualquer dos problemas do país. Mais do que isso: impedem, pela sua hegemonia no sistema partidário e político, a ascensão de gente capaz, nova ou velha, experiente ou capaz de ganhar experiência a curto prazo, que pudesse pelo menos morigerar a crise que atravessamos.

Para impedir Rui Rio no PSD, Menezes, Relvas e Passos são capazes de tudo. Para impedir Costa no PS, Seguro e os seus boys são igualmente capazes de tudo.

E todos eles pouco mais têm feito nos seus partidos do que colocar homens de mão, “jotas” de carreira e gente dos interesses autárquicos nos locais-chave para manter o sistema partidário bloqueado a qualquer sobressalto nacional que exigisse qualidade, dignidade, capacidade e consciência. Ou seja, que exigisse alguém que não sejam “eles”.

E, tirando estes dois homens, Rio e Costa, e pouco mais, não há no sistema partidário quem pudesse dar corpo a uma alternativa que desse esperança aos portugueses de que não estão condenados a uma austeridade sem fim, num ambiente de medo e empobrecimento. E que salvasse a deriva antidemocrática que cresce todos os dias. E nos fizesse voltar a uma soberania honrosa.

Por difícil que seja, por maiores que sejam as incompreensões, esperando a maior das hostilidades e todos os golpes baixos e altos, não contando com qualquer complacência da comunicação social, que participa na mesma mediocridade do sistema político actual com quem vive numa grande promiscuidade, e sem se preocuparem com sucessos garantidos, ou qualquer certeza antecipada, correndo o risco de não fazerem mais do que um gesto quixotesco, deviam falar entre si, às claras, sem disfarces, entenderem-se em tudo o que se podem entender – e muito é – e depois dirigirem-se aos seus partidos e ao país, numa atitude coerente com a ideia que ambos têm de que o país está mesmo numa situação de emergência nacional.

Ambos têm boas relações pessoais, e não tenho dúvidas de que nos pontos fundamentais sobre o retorno do país a uma normalidade democrática estão de acordo. Ambos têm uma consciência aguda do papel da partidocracia na crise, ambos tem experiência governativa local e nacional, ambos são moderados e capazes de falar com muita gente, do CDS à CGTP, ambos defendem que Portugal não pode “rasgar o memorando”, mas que deve negociar a sério a sua execução, ambos são europeístas e atlantistas, ambos são capazes de mobilizar os mais capazes sem medo da sua sombra, ambos são honestos e hostis à corrupção, vivem vidas modestas e não são deslumbrados, ambos são firmes e determinados. E acima de tudo, ambos têm uma aguda noção da crise do seu país. E não me venham com grandes “mas”, porque nesta altura vale mais a vontade do que as condições. Melhor ainda: as condições dependem da vontade.

http://www.publico.pt/opiniao/jornal/as-responsabilidades-de-rui-rio-e-antonio-costa-26266792 … (FONTE)

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