BISCATES – Manifestar e Protestar – o onanismo dos partidos de protesto – por Carlos de Matos Gomes

Texto retirado do blog “a viagem dos argonautas”, com a devida vénia.

http://aviagemdosargonautas.net/2014/06/03/2060341/

carlosdematosgomes

Manifestar e Protestar – o onanismo dos partidos de protesto

O protesto tanto pode ser uma faca – e neste caso de dois gumes – como um escudo. Tanto podemos protestar para atacar e alterar uma situação como apenas para nos defendermos. Para evitarmos a mudança fazendo de conta que a desejamos.

Esta ambiguidade é a base em que assenta a tática dos chamados partidos de protesto. Protestam para se defender, para esgotar em seu proveito as energias dos que têm razão para protestar. O protesto, na medida em que não se dispõem a colaborar em nenhuma solução que não seja a totalidade da sua, esgota-se nele mesmo, satisfá-los como se satisfazem os onanistas.

Os partidos de protesto têm uma só actividade, um programa resumido a um ponto: Colocar a maior quantidade possível de cidadãos na rua a protestar, a manifestarem-se. O passo seguinte, com os manifestantes já em casa, é os dirigentes surgirem na televisão a garantir que a manifestação foi um sucesso. E até à próxima. A luta continua.

Ora a política é, no fundo, uma actividade que visa encontrar soluções para o melhor governo de uma sociedade. Não é a pastorícia de um rebanho. É curioso notar que nas sociedades primitivas os membros das assembleias podem protestar, mas são obrigados a apresentar uma solução e a participar nela. Caso não o aceitem fazer são banidos. Isto é, são desmascarados, votados ao ostracismo. Nas permissivas sociedades complexas, o protesto inconsequente é, tal como o onanismo e a publicidade enganosa (aos shampôsanti-caspa, p.exemplo) um direito. Os partidos de protesto sobrevivem seguindo o princípio da propaganda aos remédios miraculosos: por mais bolachas dietéticas que coma, nenhuma mulher fica com o corpo da manequim do anúncio.

O protesto defensivo – eu critico, eu manifesto o meu repúdio, mas não contem comigo para colaborar naquela que não é a minha solução (sempre um passo à frente do que é possível alcançar) é um embuste, mas um embuste rentável, porque cómodo: não implica nenhuma mudança no status quo. O protesto defensivo é eminentemente conservador. Tanto mais conservador quanto mais exacerbado parece o protesto.Como dizia o estratego chinês SunTze para a guerra: a maior vitória é vencer sem combater, também para os partidos do protesto a melhor maneira de não altera nada numa sociedade é prometer uma revolução geral!

O ideal de uma organização de protesto é uma manifestação que forma um círculo e roda sobre si mesma, com as gentes gritando palavras de ordem, agitando cartazes sem sair do mesmo local.

Após uma jornada de protesto, a primeira acção dos organizadores devia ser: o que fazer a seguir com a força dos que congregámos para atingir o que lhes propusemos. Como obrigar aqueles contra quem protestámos a fazer o que queremos? Não. A única açao é a de gritar que a simples reunião dos manifestantes foi uma vitória em si mesma.

O protesto defensivo assenta na convicção de que aquelas contra quem se protesta são um grupo bondoso, disponível para ouvir os ofendidos e emendar os seus erros. O protesto defensivo é, afinal, um pedido. Diz aos oponentes: vejam lá, meus caros senhores ministros e secretários de estado, patrões e empresários em geral,as maldades que andam a fazer, certamente por descuido, por não terem estudado bem os assuntos. Dêem-nos ouvidos e tomem o bom caminho. Esse protesto está a dizer que quem governa tem todas as possibilidades de governar bem, basta querer e emendar-se. E que quem protesta não quer ir para o lugar deles, nem governar. O protesto defensivo assenta num complexo de inferioridade.

A dualidade do protesto deve ser trazida para o centro da discussão política. O protesto defensivo e inconsequente tem de ser apresentado como uma forma de populismo, isto é, de acção política que se baseia na exploração dos sentimentos e das reacções primárias. A exploração do instinto e da irracionalidade de que todos os seres humanos são também formados.

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