Como se constrói um inquestionável | Carlos Matos Gomes

(ou como os manhosos se oferecem para pastor, ou salvador sem parecer invejosos)

A propósito da nomeação do presidente da comissão para as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, ponto assente: Se lá chegar, serei o presidente da minha comemoração! Não procuro lugar.

As campanhas a propósito da nomeação da nomeação do presidente das comemorações oficiais dos 50 anos do 25 de Abril são idênticas a tantas outras a propósito da nomeação de tantos outros quadros, homens e mulheres para funções de relevo. Nunca o nomeado é o adequado. Nunca é inquestionável!

Este ruído tem como autores os que em várias partes do mundo e ao longo dos tempos, frequentemente em circunstâncias de ataque às liberdades e de redistribuição de riqueza convocam multidões para bater panelas contra os regimes de direitos fundamentais, mesmo com defeitos. Estas operações têm como finalidade sub-reptícia corroer o regime democrático com propostas de luta pela utopia da Sociedade Perfeita, do homem ou da mulher sem mácula e argumentos de fácil aquisição: transparência, privilégios, corrupção, compadrio, entre outros, mas sempre os mesmos.

O argumento agora trazido à praça para corroer o regime que existe de liberdades como as que os portugueses jamais tiveram na sua história é o de que o presidente da comissão das comemorações deveria ser “inquestionável”!

Mas a discussão sobre a demagogia do argumento do inquestionável demonstra a vitalidade dos ideais do 25 de Abril, expõe a liberdade que existe de facto para os portugueses exercerem o direito a recusar a unanimidade, a aceitar a condição humana com as suas imperfeições, isto a par do direito à maledicência a céu aberto.

O 25 de Abril teve o mérito, entre muitos outros, de conferir carta de alforria a uma legião que durante 40 anos, agradecida e mansa, dependeu dos favores dos próceres do regime. O 25 de Abril libertou recalcamentos morais e sociais. Outra vitória da democracia! Os frangos passaram a cantar de galo! Aí os temos a explicar o que não sabem, a manipularem polígrafos, a questionar dívidas soberanas e até a pintar planetas! Assim ganham para a bucha.

A Liberdade tem-lhes dado de comer. Então e eu? A Democracia é deles, a dos outros é corrupta, tortuosa, uma vergonha! Denigrem as qualidades dos outros para serem inquestionáveis. “Pimenta no olho dos outros é refresco!” É o seu conceito de ação política.

A revelação do país rancoroso a propósito da nomeação do presidente da Comissão dos 50 anos do 25 de Abril constitui mais uma vitória do 25 de Abril, a justificar 5 anos de celebração, ou mais! Durante esse quinquénio eles, os peticionários de inquestionáveis, terão liberdade para discutir os 14 que durou a guerra colonial e as dezenas de cerimónias do Dia da Raça! Uma raça que em meados do século vinte tinha 40% de analfabetos e uns quatro ou cinco milhões de emigrantes. Fortalecida por doenças endémicas como as sezões e a tuberculose, tudo acompanhado de cirroses, porque o vinho dava de comer a um milhão de portugueses. Discute-se agora o automóvel do presidente, mas haverá tempo para nos elucidarem que Salazar ia de mula às compras e à missa. Para publicitar as competências de António Ferro, inspirador dos festejos henriquinos e do Mundo Português.

Para os que exigem um inquestionável de curta duração para presidir à comissão dos 50 anos de democracia 5 anos é demais! Sem dúvida, bastariam dois dias: o da Raça e o das aparições de Fátima, mas assim eles perderiam oportunidades de ganhar a vida a enlamear os questionáveis que serão nomeados nos próximos 5 anos e que, felizmente, podem ser questionados!

O pícaro que proferiu a mais desconchavada prédica no dia nacional de Portugal de que há memória, critica o nomeado para as comemorações do meio século do 25 de Abril, mas inspirou-se nos discursos do Afonso Marchueta, governador civil de Lisboa, ou de Santos da Cunha, de Braga, para já não referir os do venerando Américo Tomás. Todos podiam ter sido seus colegas de anedota se tivesse nascido nos bons velhos tempos.

O 25 de Abril trouxe-os às delícias das classes médias com direito à liberdade do cartão de crédito é à prédica semanal num palanque de confrades, patrocinada e visada pelo herdeiro do SNI, a agência de intoxicação do Observador.

Falta a receita para fabricar inquestionáveis. Os inquestionáveis propostos pelos ratos de esgoto que pregam moral e virtude cozinham-se em caldo de mentira, num tacho de afogar ideias, batidos por um legionário, ou inquisidor. Temperam-se com censura, prisões e torturas. Deve o produto ir acompanhado de um alerta: O adepto de inquestionáveis é sempre um mixordeiro da Liberdade. A democracia é higiénica, convém que tomem banho.

Carlos Matos Gomes

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