Vergílio ou Virgílio? | Frederico Lourenço

Não havendo a mínima dúvida de que o autor das «Bucólicas», das «Geórgicas» e da «Eneida» se chamava PVBLIVS VERGILIVS MARO – portanto, em português, Vergílio – porque é que as pessoas preferiram, durante toda a Idade Média e até praticamente aos dias de hoje, chamar-lhe Virgílio?

Antes de entrar nesta floresta de controvérsia, começo por uma declaração de simpatia subjectiva para com o nome «Virgílio». Acho um nome lindo, escrito assim com «i» na primeira sílaba, e envio daqui um cumprimento cordial a qualquer Virgílio (em Portugal ou no Brasil) que esteja a ler este texto. E, quanto ao poeta romano, quem sabe se ele até não gostaria de ver esta versão do seu nome? Eu não me importaria nada de ser «Friderico» em vez de «Frederico».

Objectivamente, porém, o nome latino é VERGILIVS. Verificamos isso em inscrições do período republicano e ainda do início do período imperial. Os preciosos manuscritos do século V (hoje em Florença e no Vaticano), que são os testemunhos mais antigos da obra do nosso poeta, grafam o nome, sem lugar para dúvida, como VERGILIVS, não só nos títulos das obras, como no famoso verso das «Geórgicas», que é a única passagem em que o poeta nos diz o seu nome e a sua residência: «naquele tempo me alimentava – a mim, Vergílio – a doce / Nápoles…» (Geórgicas 4.563-4; em latim, «illo Vergilium me tempore dulcis alebat / Parthenope…»).

Como surgiu, então, a forma Virgílio? E porquê?

Há duas razões possíveis, embora nenhuma delas seja absolutamente certa.

A primeira (quanto a mim a mais provável) é a associação do nome do poeta à palavra latina para virgem: «virgo». Porquê? Porque o poeta teria tido, segundo uma das biografias antigas, uma personalidade virginal, a ponto de ser conhecido em Nápoles pela alcunha «Parténias» (um nome que adapta a palavra grega para virgem, «parthénos»); além de que, na posterior imaginação cristã, o príncipe dos poetas pagãos teria profetizado o nascimento de Jesus Cristo.

A segunda é a associação do nome do poeta à palavra latina para varão ou varinha, «virga»: é que, por razões que também não são claras, estabeleceu-se durante a Idade Média a noção de que o Poeta tinha sido um grande entendido nas artes mágicas e na astrologia.

Nas considerações seguintes sobre «Virgílio como virgem pré-cristã» e sobre «Virgílio feiticeiro-astrólogo», referirei o seu nome como «Virgílio» (entre aspas). No final deste texto voltarei a Vergílio.

Comecemos com a concepção medieval de «Virgílio», o feiticeiro-astrólogo. O túmulo do poeta em Nápoles atraiu sempre um interesse enorme, tanto na Antiguidade Tardia como na Idade Média. Autores medievais registaram fenómenos estranhíssimos causados pelos restos mortais do poeta: tempestades e tremores de terra. No final do século XII, o bispo alemão Conrado visitou Nápoles e escreveu numa carta que, quando os restos mortais de «Virgílio» eram expostos à atmosfera, o céu ficava negro; surgia logo uma tempestade e o mar ficava revolto e encrespado.

No século XIII, um letrado inglês chamado Gervásio («Gervase of Tillbury») pediu autorização ao rei normando Rogério II para abrir o túmulo de «Virgílio», onde teria sido encontrado, junto dos ossos, um livro de magia. Os restos mortais do poeta terão sido então levados para o Castel dell’Ovo (junto da actual Via Partenope em Nápoles), para que nenhum estrangeiro se apoderasse deles.

Segundo outras tradições medievais, os restos mortais de «Virgílio» estariam numa grande montanha perto de Nápoles (certamente o Vesúvio), donde surgiam tempestades aterradoras e tremores de terra.

Para onde teriam ido parar os restos mortais de «Virgílio»? Esse mistério continua sem solução (embora o túmulo de Vergílio em Piedigrotta ainda seja visitável hoje em Nápoles).

Mas teria «Virgílio» morrido MESMO? É que outra versão medieval conta como o apóstolo São Paulo encontrou na zona de Nápoles uma caverna subterrânea, guardada por dois homens de bronze. Lá dentro, o santo encontrou o fantasma de «Virgílio», lendo um livro à luz da vela. O apóstolo, aterrorizado, saiu logo a correr.

São Paulo é o elo entre «Virgílio feiticeiro-astrólogo» e «Virgílio virgem pré-cristã», porque já era conhecida, na Antiguidade Tardia, a tradição de que São Paulo visitara o túmulo de «Virgílio» e que se lamentara por não ter podido converter ao cristianismo o poeta que, para muitos cristãos, fora um prenunciador da sensibilidade cristã. E a razão disto não era só o facto de a Bucólica 4 ter sido lida como profecia sobre o nascimento do Menino Jesus: a própria Eneida era susceptível de uma leitura cristã, na medida em que a sua mensagem imperialista da supremacia de Roma sobre os outros povos constituía o alicerce em que se pôde construir a supremacia da religião cristã e a sua imposição a todos os povos da terra.

Num poema do século V do autor hispânico Prudêncio, o meu homónimo São Lourenço afirma que Cristo autorizou a supremacia de Roma, porque Roma une todos os povos da terra na mesma língua latina, do mesmo modo como o cristianismo os une sob a mesma religião (cf. Prudêncio, «Peristephanon» 2). Outro texto poético do mesmo autor cita literalmente as palavras de Júpiter sobre o «império sem fim» outorgado a Roma, transferindo-as para império sem fim do cristianismo («Contra Símaco» 1).

Vamos agora para a associação «Virgílio = virgem». Que, de resto, não está inteiramente dissociada da de «Virgílio = feiticeiro-astrólogo», já que a ocorrência mais significativa da palavra «Virgo» teve, para o próprio poeta, significação astrológica: refere o signo do Zodíaco, a Virgem, no v. 6 da Bucólica 4.

Porém, para leitores cristãos essa Virgem era obviamente a Virgem Maria, de quem se podia pensar que «Virgílio» teria sido devoto, se ele tivesse sido cristão. A personalidade do poeta teria sido virginal, segundo a biografia antiga que lhe atribui a total indiferença ao sexo. E «Virgílio» pôs em prática, sem o conhecer, o preceito de São Paulo de que os homens solteiros não devem casar (1 Coríntios 7:27 «noli quaerere uxorem»). «Virgílio» teria, assim, a característica necessária para fazer parte do séquito do Cordeiro de Deus no livro de Apocalipse, constituído exclusivamente por homens virgens «que não se conspurcaram com mulheres» (Apocalipse 14:4).

Mas temos aqui um problema. A biografia antiga que atribui a «Virgílio» os traços virginais de um homem indiferente ao sexo é já do final do século IV. Outra biografia, do século II, diz algo de muito diferente: ele gostava de sexo e teve vários namorados, dos quais se mencionam dois (Alexandre e Cebes).

É claro que não podemos confiar nas biografias antigas de poetas, porque elas extrapolam habitualmente elementos da obra do poeta para a sua suposta vida. O tal Alexandre, pretenso namorado de «Virgílio», terá sido inventado a partir do nome de Aléxis, na Bucólica 2.

Abramos então a caixa de Pandora do problema da orientação sexual de «Virgílio». Os classicistas que não ignoram simplesmente a questão da sexualidade de «Virgílio» dividem-se entre aqueles que dão crédito à tradição antiga sobre a sua homossexualidade (e não se trata de académicos a puxar a brasa à sua sardinha, porque muitos deles são heterossexuais) e aqueles que (por razões lá deles) a negam com veemência.

A pergunta é: existe algum elemento na obra de VERGÍLIO (voltamos agora ao nome latino do poeta) que (1) confirme a sua preferência por homens e que (2) justifique de alguma maneira a alcunha «Parténias» que lhe terá sido dada pelos napolitanos quando ele lá vivia (segundo as mesmas biografias de fidedignidade duvidosa)?

Comecemos pela alcunha. Sabemos que, em grego, a palavra que traduzimos por «virgem» (parthénos) significava simplesmente «menina» ou «mulher jovem»: não indicava necessariamente virgindade. Assim, é muito possível que algum traço de personalidade tido como efeminado tenha levado à alcunha «Menina». Por outras palavras, o facto de Vergílio ter sido percepcionado como pouco masculino e como detentor de sensibilidade feminina pode ter sido a razão da alcunha. Na verdade, nada nos revela mais o lado feminino de Vergílio do que a sua capacidade incrível de se colocar dentro da cabeça de Dido no Livro 4 da Eneida.

Mas existe outra teoria sobre a alcunha «Parténias», proposta por Jane Lightfoot. O erudito grego Parténio foi mentor de Vergílio e do seu amigo Cornélio Galo: Jane Lightfoot aventa a hipótese de lhe ter sido dada a alcunha de «Parténias» porque os napolitanos o tomavam como namorado de Parténio.

Esta hipótese sobre a vida sentimental de Vergílio é diferente da que o dá como amante dos jovens Alexandre e Cebes. Porque Parténio seria um homem mais velho do que Vergílio, o que colocaria o autor das Bucólicas no papel de amado e não no de amante. Gregos e romanos preocupavam-se obsessivamente com o papel activo e o papel passivo na relação homossexual: dizer de Vergílio que ele era uma «Menina» (Parténias) seria o mesmo que dizer que ele era homossexual passivo.

Encontramos alguma fundamentação concreta para isso na obra de Vergílio? Nenhuma.

Alguma sugestão velada? Aí, eu já diria: talvez.

O autor das Bucólicas assume o heterónimo Menalcas de forma explícita na Bucólica 5, o poema central da colectânea. Nessa Bucólica 5, Menalcas assume também a autoria da Bucólica 3, poema onde temos um dos momentos mais explosivos da poesia antiga (que é também uma das razões pelas quais a Bucólica 3 nunca é ensinada – tal como a Bucólica 2 – nas aulas de latim).

Na Bucólica 3, Dametas, amigo de Menalcas (Vergílio), afirma que testemunhou Menalcas no papel de homossexual passivo. Acusação – se é para ser acusação – a que Menalcas não responde, nem se dá ao trabalho de rebater. Quem cala consente?

Enfim: este texto já vai longo. Mas já deu para perceber que, ao usarmos o nome «Virgílio», estamos a evidenciar a longa recepção da obra e personalidade do poeta desde a Idade Média aos nossos dias: «Virgílio» o mágico, o astrólogo, o pré-cristão, o «homem-virgem».

Ao usarmos o nome Vergílio, estamos a tentar apenas pôr em primeiro plano o poeta VERGILIVS que morreu em 19 a.C., tentando libertá-lo (tanto quanto possível) de tudo o que a imaginação de um tempo, que não era o dele, projectou nele.

Para quem se interesse por ler mais sobre estes temas, recomendo:

– a minha recente edição das Bucólicas, onde algumas destas questões são abordadas;

– M. Pavia, «Virgil as a Magician», Classical Journal 46 (1950), pp. 61-64;

– J. Trapp, «The Grave of Vergil», Journal of the Warburg and Courtauld Institutes 47 (1984), pp. 1-31;

– J. Lightfoot, Parthenius of Nicaea, Oxford, 1999.

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