O 25 de Novembro e a sua novembreza | Carlos Matos Gomes

Escrevi há poucos dias um texto sobre o evento de apresentação do franchising português da CNN, realizado no edifício dos Jerónimos, na parte ocupada pelo Museu Arqueológico. Considero que os monumentos nacionais, evocadores do passado, podem e devem ser utilizados para eventos marcantes do presente. E o que se comemorava a 22 de Novembro é marcante em termos de apresentação e representação de um novo poder, da novembreza.

Não tive uma palavra de expetativa sobre o produto que vai entrar no mercado. Portugal é um pequeno país, não produz acontecimentos de relevo mundial, vive uma cómoda paz, felizmente. As notícias sobre Portugal serão sempre casos menores. A primeira página do tabloide Correio da Manhã, ou do site do Sapo explicam a nossa insignificância. Sem ovos não se fazem omeletas e a estação CNN Portugal não fará o milagre de nos colocar no centro de um universo de manipulação informativa, a não ser em caso de grande catástrofe. Espremerá até à última gota os pequenos frutos locais (ia a escrever furtos e também se adequava). A notícia importante no happening dos Jerónimos foram os seus convidados, que se entrevistaram uns aos outros, mesmos os exilados por terem cometido excessos ao trepar.

Historicamente as alterações de regime arrastam a mudança de classes no poder. Por razões de geografia e recursos, Portugal foi sempre um estado secundário na ordem europeia e teve desde o início elites de baixa extração na ordem politica e social do seu tempo. A nobreza portuguesa foi sempre de segunda linha. O casal fundador, Henrique e Teresa, era bastardo. A segunda dinastia foi inaugurada com um bastardo, João primeiro e por uma nobre, Filipa de Lencastre, uma mulher extraordinária, mas não princesa da casa real inglesa. Subido ao trono, o novo rei nobilitou os burgueses e os mestres de ofícios do Porto e de Lisboa, mais alguns aventureiros que o haviam apoiado Os Braganças eram duques e descendiam dos nobilitados saídos de Aljubarrota e das altercações de 1380, de Nuno Álvares Pereira, o filho de um prior de Cernache do Bonjardim.

O liberalismo criou uma caterva de barões e marqueses, Palmela, Cadaval, Mafra, Tancos, Ficalho, Tomar e até o do Farrobo, que foi também do Farrobodó. A nobreza vintista, de Costa Cabral, Passos Manuel, Saldanha, por exemplo. A República criou a sua casta nobre, assim como o Estado Novo salazarista. Inevitavelmente, o 25 de Abril de 74 criaria a sua.

Sucede que o 25 de Abril de 1974 se transformara num movimento popular de massas, que foi necessário conter e recolocar no seu sítio no «estado de ordens» em que vivemos e que o professor Luís Salgado de Matos muito bem estudou. Desse povo emergiram, como é histórico, pontas de lança mais ousados ou melhor apadrinhados, que fundaram novas casas nobres — as mais conhecidas serão, talvez, os Azevedo da Sonae e os Amorim das cortiças e da Galp, do Porto e do BPI, julgo, e os Jerónimo Martins, do Pingo Doce. Tramaram-se os antigos banqueiros do regime, os Espirito Santo.

O que temos hoje em termos de grupos sociais no poder político e económico é o povo nobilitado do 25 de Novembro, a que o 25 de Abril deu uma oportunidade de se assenhorear do castelo e dos brasões, utilizando basicamente três ferramentas de escalada: a lei de 1977, de delimitação dos setores, nacionalizados em Março de 1975, que abriu atividades e bens fundamentais da economia (em particular serviços e solos para urbanizar e construir) à iniciativa privada; as leis de 1986 e a revisão constitucional de 1989, que reprivatizaram a atividade bancária e, logo, ofereceram à nova nobreza a possibilidade de fabricar dinheiro (cunhar moeda); e, por fim, os fundos europeus após a entrada de Portugal na CEE.

A pequena multidão reunida nos Jerónimos em Novembro de 2021 para assistir ao lançamento de uma unidade do mais eficaz e insidioso exército de domínio: uma estação de televisão, representa a atual classe possidente, a novembreza, tal como os painéis de São Vicente, de Nuno Gonçalves, representaram os «senhores» de Portugal no século XV.

Os 400 convidados estavam nos Jerónimos a afirmar aos portugueses que Veni, vidi, vici, como César ao ocupar Roma. Eles são os novos barões, morgados e viscondes, madames, marquesas. São o «vino novello» dos italianos, ou o Beaujolais dos franceses, que a nossa água-pé, aberta em Novembro, imita o melhor que pode.

São descendentes de outros que, na sequência de acontecimentos marcantes da nossa história, nos trouxeram até aqui, onde estamos. São os filhos diletos do novo regime de distribuição de poderes que os portugueses escolheram e que, por isso, merece o maior respeito.

O 25 de Novembro de 1975 foi celebrado este ano a vinte e dois, e nos Jerónimos, com uma festa de arromba. Excelente.

Reina a paz, há fatos de bom corte e vestidos de lantejolas para exibir diante de um painel publicitário americano.

A data e o local foram os mais adequados para a cerimónia de entronização da nova nobreza.

O Eça de Queiroz faz muita falta para nos retratar estes velhos personagens com novos fatos. Dizia ele: A História é uma velhota, que se repete sem cessar.

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Matos Gomes

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