(Major-General Carlos Branco, in Facebook, 25/08/2022) | O Henrique Burnay foi à tosquia e saiu tosquiado | in Estátua de Sal

(Henrique Burnay respondeu ofensivamente ao texto do General Carlos Branco que publicámos aqui. A resposta que teve e que segue abaixo é demolidora e pedagógica. Parabéns Senhor General. Que não lhe doa a pena e o verbo para desancar em tão ignara e servil gente.

Estátua de Sal, 26/08/2022)


Esta guerra é fundamentalmente consequência de a obstinação de Washington querer integrar a Ucrânia na NATO, parte integrante do seu projeto hegemónico. Chamem-lhe autocracias, imperialismos, inventem as narrativas que quiserem. Mas é neste ponto que reside a coisa. Este conflito estava anunciado há décadas. Não por mim, mas por Kissinger, Mearsheimer, Stephen Walt, Keagan, muitos outros. Segundo HB também pulhas e homens sem vergonha. Como, aliás, alguns setores liberais da elite russa que não se revê em Putin.


Julgava o tema esgotado, mas parece que não. Tenho bloqueado quem neste mural ofende ou faz agressões verbais. Hoje tive de abrir uma exceção ao post do Dr. Henrique Burnay (HB), que veio ao meu mural apelidar-me de “vergonha de homem”. HB anda a ofender-me nas redes sociais, que lhe são próximas há meses (chama-me pulha e outros mimos). Hoje teve a desfaçatez de o vir fazer no meu mural do FB. Nunca o ofendi. Não é que não me faltasse vontade e pretexto. Procuro centrar-me no debate das ideias, e não em coisas ou pessoas. Neste tema, como noutros, encontramo-nos muito distantes.

A vinda HB ao meu mural suscita-me dois tipos de comentários. Um de natureza pessoal, neste caso incontornável, tendo em conta o seu comentário, e outro sobre a guerra na Ucrânia. HB é um dos exemplos mencionado no meu post inicial, de quem tem vivido à babuje do sistema, ao colinho e encostado ao poder, beneficiando das suas benesses e mordomias, de quem tem sempre dependido para viver. Entre outras coisas, foi assessor político de um deputado ao Parlamento Europeu (posteriormente seu colega numa empresa de lobbying) e assessor de uma ministra da justiça, que num ápice se transformou em banqueira, na Caixa Geral de Depósitos, coincidentemente com um período de festim que levou o banco quase à ruína, e que nós tivemos de chegar à frente e pagar a capitalização do banco. HR faz parte, ou gostaria de fazer parte da elite a que refiro no post inicial, a tal que nos conduziu onde nos encontramos como sociedade e como país. Também aqui nos encontramos a léguas de distância.

HR apresenta-se no seu CV também como professor universitário, convidado, de Lobbying. Convidado! O lobby dá de facto um jeito do caraças. O colinho do poder dá um conforto porreiro. Facilita mesmo muito a vida. Por isso, há que não agitar o status quo, para não perturbar a árvore das patacas.

Quanto à Ucrânia, mais alguns esclarecimentos para o HB. E estes são mesmo os últimos. Apesar de o ter reiterado inúmeras vezes nos artigos que tenho vindo a escrever, para que não restem dúvidas, a guerra na Ucrânia é uma condenável violação do Direito Internacional. Como são quase todas as guerras, tendo como referência a Carta das Nações Unidas. Como foram a invasão de Grenada (1983), o ataque à Jugoslávia (1999), a Guerra no Iraque (2003), a guerra na Síria (2011). O leque de violações não acaba aqui, curiosamente perpetradas sempre pelos mesmos. Estou curioso por ver o que HB escreveu sobre o Iraque, em 2003. Não passados 20 anos quando já sabíamos todos qual tinha sido o fim da história. Apoiou sanções e a ostracização dos EUA? algo parecido com o que está a acontecer agora? Ou limitou-se a condenar baixinho em murmúrio?

Convenientemente, HR finge que não sabe o que são guerras por procuração. Devia ter estado mais atento para perceber que estamos perante um conflito entre os EUA e a Rússia (e a China) para impedir a alteração da correlação de forças mundial. Como os EUA sabem quais poderiam ser as consequências de uma confrontação direta com estas duas potências, confronta-as recorrendo a proxis. Não morrem americanos, dá-se-lhes apoio político e financeiro. Falamos, pois, de um conflito entre a potência que defende o status quo e as potências revisionistas, correndo nós o risco de sermos arrastados todos para a hecatombe.

Ver os acontecimentos apenas pela lente do mau (agressor) contra o bom (a vítima), é uma forma básica e simplista de ver o problema. É boa para a propaganda, mas insuficiente do ponto de vista explicativo. HB tinha por obrigação de ver mais longe. É um tipo com mundo. Mas também percebo porque não quer ver. Ai o lobbying! Corria o perigo de perder o emprego e o negócio. A guerra na Ucrânia tem muitas dimensões, uma delas a de guerra civil, que começou em 2014. Tenho escrito muito sobre o assunto, não me vou repetir. O meu pensamento está expresso em muitos artigos de opinião, que aconselho HB a ler antes de vociferar diatribes.


Esta guerra é fundamentalmente consequência de a obstinação de Washington querer integrar a Ucrânia na NATO, parte integrante do seu projeto hegemónico. Chamem-lhe autocracias, imperialismos, inventem as narrativas que quiserem. Mas é neste ponto que reside a coisa. Este conflito estava anunciado há décadas. Não por mim, mas por Kissinger, Mearsheimer, Stephen Walt, Keagan, muitos outros. Segundo HB também pulhas e homens sem vergonha. Como, aliás, alguns setores liberais da elite russa que não se revê em Putin.


Sabíamos que a insistência da entrada da Ucrânia na NATO ia dar nisto. Era fatal como o destino. Este é o pensamento da escola neorrealista das relações internacionais em que me insiro e revejo. Curiosamente são os neorrealistas os defensores da paz, e os liberais e construtivistas os defensores da guerra.

Era uma guerra anunciada, e não ocorreu logo em 2014 porque Trump ganhou as eleições. Sabíamos que se os democratas as tivessem ganhado, a probabilidade de a guerra ter ocorrido mais cedo era muito elevada. A camarilha do establishment das relações exteriores da Sr.ª Clinton, tomou novamente conta da casa com a subida de Biden ao poder. Não vale a pena armar-nos em virgens ofendidas e imaculadas, defensores dos grandes valores da democracia e da ordem liberal. Talvez não seja por acaso que alguém se descuidou e disse que o objetivo de Washington era derrotar militarmente a Rússia na Ucrânia. Não fui eu que escrevi.

A presente crise em que a humanidade se encontra, à beira de um confronto mundial, entre os EUA, Rússia e China, começou com o golpe de Estado de 2014, patrocinado pelos EUA (hoje Washington assume isso. Victoria Nuland e o embaixador americano andaram a distribuir sandes aos revoltosos em Kiev. A Sr.ª Nuland gastou $5Bis na preparação do golpe. Na altura de escolher os ministros para o governo, mandou a Europa à fava) que substituiu um presidente democraticamente eleito, que defendia uma política de neutralidade (non block policy), por outro que abrisse as portas à entrada da Ucrânia na NATO, e voltássemos à estaca zero. Podia falar-lhe do dilema de segurança, das zonas de influência (teoria Monroe), segurança para uns, segurança para todos, mas isso HB terá de estudar.

Para concretizar os seus desejos hegemónicos os EUA não olham a meios, aliando-se seja a quem for. O inimigo do meu inimigo é meu amigo. Sabemos o que tem sido o resultado desta abordagem. Estamos todos lembrados da Santa Aliança com os Talibãs, quando em 1996 chegaram ao poder, porque lhes cheirava a pipeline, que não se concretizou por causa da UNOCAL. O mesmo veio a acontecer na Ucrânia. Talvez o liberal HR consiga explicar a lei de 1.7.2021, “sobre os povos indígenas da Ucrânia”, disponível em https://zakon.rada.gov.ua/laws/show/1616-20#Text, que consagra uma política baseada na pureza racial da nação ucraniana em nome da superioridade genética dos ucranianos puros sobre os russos, considerados “sub-humanos”.


Essa lei (que o governo de Kiev tem vindo a aplicar, militantemente) defende, em exclusivo, os direitos fundamentais dos “povos originários da Ucrânia”, também designados por “povos autóctones da Ucrânia” ou “povos indígenas da Ucrânia” (cossacos e judeus caraítas), proibindo “a negação da etnia ou identidade étnica” destes povos. Só a estes o Estado garante proteção “contra atos de genocídio ou quaisquer outros atos de coerção ou violência coletiva”, “contra quaisquer ações destinadas a encorajar ou incitar o ódio racial, étnico ou religioso contra eles.”


Os demais ucranianos, nomeadamente os eslavos (em regra de origem russa e russo-falantes), não fazem parte da “nação pura”, são considerados como o fazia a Alemanha nazi, seres inferiores, humanoides, gente sem direito a ter direitos, o que é uma maneira de encorajar o ódio racial, a violência e o genocídio contra eles (os grupos nazis, integrados no aparelho de estado, não se cansam de pregar e de praticar a “cruzada branca” contra os pretos da neve).

HR e os seus amigos deviam ter vergonha de apoiar esta gente em nome da liberdade e da democracia, e fingirem que não percebem que com posições destas nos estão a conduzir para a fossa. O modelo industrial europeu baseado nas vantagens competitivas obtidas à custa do gás barato russo ardeu. Agora vamos pelo cano de esgoto comprando gás aos EUA mais caro, mas é um gás da liberdade.

Limito-me a constatar factos. Eu percebo que as pessoas fiquem perturbadas quando perturbamos o repouso das suas certezas, construídas com as verdades que se “ouvem à noite nos telejornais”, para as quais HR está sempre disponível a contribuir. Quem sai desse registo e conta outras abordagens do problema é putinista. Por princípio, não tomo posição. Procuro apenas explicar os acontecimentos com (outros) argumentos. E aí é uma chatice. Cai o Carmo e a Trindade.

Não consegui ainda perceber o porquê de tanta acrimónia por causa da guerra na Ucrânia. Lembra-me os tempos do PREC em que famílias deixaram de se falar. Mas como a minha reforma e as minhas poupanças diminuem todos os dias, não é o caso de HR e de outros que vivem no quentinho do sistema, quero que esta guerra acabe, porque não pretendo sacrificar o meu futuro por causa da entrada da Ucrânia na NATO.

Sugiro a HR a publicação deste texto nas suas páginas das redes sociais (FB, Twitter, LinkedIn), pode ser que contribua para o seu esclarecimento e da sua audiência. Pelo menos, para não serem vulgares e comportarem-se com alguma elevação. Ninguém lhes fez mal.


Carlos Marques

 diz:

Que pena eu recusar usar o FB por uma questão de princípios. Este grande senhor Major General Carlos Branco escreve ainda melhor quando tem plena liberdade, do que quando tem as amarras editoriais do Jornal Económico.
Obrigado Estátua, que bela leitura!

Para a troca, recomendo esta leitura, do Coronel Austríaco Markus Reisner, um excelente analista militar cujo ponto de vista neutro q.b. sobre este conflito é uma lufada de ar fresco. Está em Alemão, mas isso não é nada que um tradutor automático não resolva. Vale mesmo a pena:

https://www.bundesheer.at/cms/artikel.php?ID=11511


Carlos Marques

 diz:

Deixo só um cheirinho da parte inicial do texto traduzido:

“Os serviços de inteligência ocidentais estão constantemente a relatar as sérias fraquezas da gestão das operações Russas e estão até a prever que o ataque Russo irá em breve colapsar. Mas esse colapso não ocorre. O contrário parece ser o caso.”

Compare-se este tipo de análise com a dos propagandistas e digam lá se a neutralidade q.b. não é uma lufada de ar fresco?

Analisando factos, em apenas meio parágrafo fica explícita ou implícita tanta coisa:
– mentiras fabricadas pela “intelligence”
– imprensa limitada à difusão e repetição dessas mentiras
– o colapso para breve das atuais linhas defensivas Ucranianas
– os propagandistas ocidentais a dizerem o contrário, só para levar o público a acreditar na vitória e apoiar o envio de mais armas de nodo a garantir o prolongamento do conflito

Nada que os mais atentos não soubessem já. Mas agora dito preto no branco por um militar ocidental de um país sem PCP. Vá, chamem “comunista” ou “putinista” a este também…

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