Ainda templo, mรฃe
a quente alegria
desse ventre
concha limpa
branco tempo
onde de rosas
teu odor
foi meu canto
e meu sustento.
Tenho รกgua na saudade
e sรณ nรฃo grito
para nรฃo acordar
o teu sono repousado
nesse cais estrelado
em que te habito.
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CITANDO VICTOR HUGO | 13-06-2013
A mulher nua รฉ uma mulherย armada
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ย ย ย ANTรNIO LOBO ANTUNES
A cultura รฉ uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lรช nunca serรก um povo escravo! ย ย ย
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TรO DOCE | MARIA TERESA HORTA
Tรฃo doce quanto secreta
tรฃo secreta
e tรฃo vazia
Tem no peito um leopardo
e alma de malvasia
Tรฃo duvidosa e perene
tรฃo ardente que despia
Do coraรงรฃo a pantera
que no corpo lhe crescia
Tรฃo macia quando era
se era meiga
e sedenta
Veneno de beladona
doce de cereja preta
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VASCO GRAรA MOURA | VAI-SE A LASCIVA MรO
vai-se a lasciva mรฃo devagarinho
no biquinho do peito modelando
como nuns versos conhecidos quando
uma mulher a meio do caminho
era de vento e nuvens, sombras, vinho,
e sonoras risadas como um bando.
os dedos lestos vรฃo desenredando
roupa,cabelos, fitas, desalinho.
a noite desce e a nudez define-a
por contrastes de luz e de negrume
ponto por ponto, alรญnea por alรญnea.
memรณria e amor e mรบsica e ciรบme
transformados nos cachos da glicรญnia,
macerando no verรฃo sombra e perfume.
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FLORBELA ESPANCA
Eu queria mais altas as estrelas,
Mais largo o espaรงo, o Sol mais criador,
Mais refulgente a Lua, o mar maior,
Mais cavadas as ondas e mais belas;
Mais amplas, mais rasgadas as janelas
Das almas, mais rosais a abrir em flor,
Mais montanhas, mais asas de condor,
Mais sangue sobre a cruz das caravelas!
E abrir os braรงos e viver a vida:
– Quanto mais funda e lรบgubre a descida,
Mais alta รฉ a ladeira que nรฃo cansa!
E, acabada a tarefa… em paz, contente,
Um dia adormecer, serenamente,
Como dorme no berรงo uma crianรงa!
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E quando me escrevias, era tรฃo belo o que me contavas que me despia para ler as tuas cartas. Sรณ nua eu te podia ler | Mia Couto
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SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
Pudesse eu nรฃo ter laรงos
nem limites
ร vida de mil faces
transbordantes
Para poder responder
aos teus convites
Suspensos na surpresa
dos instantes!
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SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
Cรดncavas de ter
Longas de desejo
Frescas de abandono
Consumidas de espanto
Inquietas de tocar e nรฃo prender.
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CASIMIRO DE BRITO
Quando os teus joelhos
encobrem as tuas รกguas
meu desejo aumenta
Tรฉpidos os seios
que me dรกs a beber
mas antes mil beijos
Cubro-te de flores
carnais. Que mais te darei?
Tudo o que pedires
Entro e desfaleรงo
no altar em que teu corpo
dรณcil se transforma
Tentaรงรฃo de beijos
os seios que adivinho
sob o teu vestido
Descendo elevo-me
ao jardim do teu corpo
tanta flor a colher
Degusto encantado
o mel das tuas carรญcias
todo o meu te dou
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PABLO NERUDA
Saberรกs que nรฃo te amo e que te amo
pois que de dois modos รฉ a vida,
a palavra รฉ uma asa do silรชncio,
o fogo tem a sua metade de frio.
Amo-te para comeรงar a amar-te,
para recomeรงar o infinito
e para nรฃo deixar de amar-te nunca:
por isso nรฃo te amo ainda.
Amo-te e nรฃo te amo como se tivesse
nas minhas mรฃos a chave da felicidade
e um incerto destino infeliz.
O meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando nรฃo te amo
e por isso te amo quando te amo.
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CHARLES BUKOWSKI
Long walks at night
that’s what good for the soul
peeking into windows
watching tired housewives
trying to fight off
their beer-maddened husbands.
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ALBERTO CAEIRO | FERNANDO PESSOA
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas รฉ como se os guardasse.
Minha alma รฉ como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mรฃo das Estaรงรตes
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pรดr de sol
Para a nossa imaginaรงรฃo,
Quando esfria no fundo da planรญcie
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza รฉ sossego
Porque รฉ natural e justa
E รฉ o que deve estar na alma
Quando jรก pensa que existe
E as mรฃos colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ruรญdo de chocalhos
Para alรฉm da curva da estrada,
Os meus pensamentos sรฃo contentes.
Sรณ tenho pena de saber que eles sรฃo contentes,
Porque, se o nรฃo soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar ร chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Nรฃo tenho ambiรงรตes nem desejos
Ser poeta nรฃo รฉ uma ambiรงรฃo minha
ร a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo ร s vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
ร sรณ porque sinto o que escrevo ao pรดr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mรฃo por cima da luz
E corre um silรชncio pela erva fora.
Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que estรก no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mรฃos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idรฉias,
Ou olhando para as minhas idรฉias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem nรฃo compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.
Saรบdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapรฉu largo
Quando me vรชem ร minha porta
Mal a diligรชncia levanta no cimo do outeiro.
Saรบdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva รฉ precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pรฉ duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural โ
Por exemplo, a รกrvore antiga
ร sombra da qual quando crianรงas
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.
Alberto Caeiro (heterรดnimo de Fernando Pessoa)
Do livro โO Guardador de Rebanhosโ
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CARLOS DRUMMOMD DE ANDRADE
Amor, amor, amor
o braseiro radiante que me dรก, pelo orgasmo, a explicaรงรฃo do mundo.
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CARLOS DRUMMOMD DE ANDRADE
Ausรชncia
Por muito tempo achei que a ausรชncia รฉ falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje nรฃo a lastimo.
Nรฃo hรก falta na ausรชncia.
A ausรชncia รฉ um estar em mim.
E sinto-a, branca, tรฃo pegada, aconchegada nos meus braรงos,
que rio e danรงo e invento exclamaรงรตes alegres,
porque a ausรชncia, essa ausรชncia assimilada,
ninguรฉm a rouba mais de mim.
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FERREIRA GULLAR | TRADUZIR-SE
Uma parte de mim
รฉ todo mundo:
outra parte รฉ ninguรฉm:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
รฉ multidรฃo:
outra parte estranheza
e solidรฃo.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoรงa e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
รฉ permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
รฉ sรณ vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
โ que รฉ uma questรฃo
de vida ou morte โ
serรก arte?
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รlvaro de Campos: “Ora porra!”
Ora porra!
Entaฬo a imprensa portuguesa รฉ
que eฬ a imprensa portuguesa?
Entaฬo eฬ esta merda que temos
que beber com os olhos?
Filhos da puta! Naฬo, que nem
haฬ puta que os parisse.
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Federico Garcรญa Lorca
A las cinco de la tarde.
Eran las cinco en punto de la tarde.
Un niรฑo trajo la blanca sรกbanaย
a las cinco de la tarde.
Una espuerta de cal ya prevenida
a las cinco de la tarde.
Lo demรกs era muerte y sรณlo muerte
a las cinco de la tarde.
El viento se llevรณ los algodones
a las cinco de la tarde.
Y el รณxido sembrรณ cristal y nรญquel
a las cinco de la tarde.
Ya luchan la paloma y el leopardo
a las cinco de la tarde.
Y un muslo con un asta desolada
a las cinco de la tarde.
Comenzaron los sones de bordรณn
a las cinco de la tarde.
Las campanas de arsรฉnico y el humo
a las cinco de la tarde.
En las esquinas grupos de silencio
a las cinco de la tarde.
ยกY el toro solo corazรณn arriba!
a las cinco de la tarde.
Cuando el sudor de nieve fue llegando
a las cinco de la tarde
cuando la plaza se cubriรณ de yodo
a las cinco de la tarde,
la muerte puso huevos en la herida
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
A las cinco en Punto de la tarde.
Un ataรบd con ruedas es la cama
a las cinco de la tarde.
Huesos y flautas suenan en su oรญdo
a las cinco de la tarde.
El toro ya mugรญa por su frente
a las cinco de la tarde.
El cuarto se irisaba de agonรญa
a las cinco de la tarde.
A lo lejos ya viene la gangrena
a las cinco de la tarde.
Trompa de lirio por las verdes ingles
a las cinco de la tarde.
Las heridas quemaban como soles
a las cinco de la tarde,
y el gentรญo rompรญa las ventanas
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
ยกAy, quรฉ terribles cinco de la tarde!
ยกEran las cinco en todos los relojes!
ยกEran las cinco en sombra de la tarde!
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To be, or not to be | William Shakespeare
[Hamlet]
To be, or not to be: that is the question:
Whether ‘tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles,
And by opposing end them. To die: to sleep;
No more; and by a sleep to say we end
The heart-ache, and the thousand natural shocks
That flesh is heir to, ‘tis a consummation
Devoutly to be wish’d. To die, to sleep;
To sleep: perchance to dream: aye, there’s the rub;
For in that sleep of death what dreams may come,
When we have shuffled off this mortal coil,
Must give us pause: there’s the respect
That makes calamity of so long life;
For who would bear the whips and scorns of time,
The oppressor’s wrong, the proud man’s contumely,
The pangs of despised love, the law’s delay,
The insolence of office, and the spurns
That patient merit of the unworthy takes,
When he himself might his quietus make
With a bare bodkin? who would fardels bear,
To grunt and sweat under a weary life,
But that the dread of something after death,
The undiscover’d country from whose bourn
No traveler returns, puzzles the will,
And makes us rather bear those ills we have
Than fly to others that we know not of?
Thus conscience does make cowards of us all,
And thus the native hue of resolution
Is sicklied o’er with the pale cast of thought,
And enterprises of great pith and moment
With this regard their currents turn awry
And lose the name of action.
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INVICTUS
Poema de Inspiraรงรฃo de Nelson Mandela
William Ernest Henley
Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.
In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.
Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.
It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.
——
INVICTO
William Ernest Henley
Da noite escura que me cobre,
Como uma cova de lado a lado,
Agradeรงo a todos os deuses
A minha alma invencรญvel.
Nas garras ardis das circunstรขncias,
Nรฃo titubeei e sequer chorei.
Sob os golpes do infortรบnio
Minha cabeรงa sangra, ainda erguida.
Alรฉm deste vale de ira e lรกgrimas,
Assoma-se o horror das sombras,
E apesar dos anos ameaรงadores,
Encontram-me sempre destemido.
Nรฃo importa quรฃo estreita a passagem,
Quantas puniรงรตes ainda sofrerei,
Sou o senhor do meu destino,
E o condutor da minha alma.
——
(ver os 2 vรญdeos sem e com traduรงรฃo, declamado por Alan Bates)
VIDEO
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LUรS VAZ DE CAMรES
Alma minha gentil, que te partiste
Tรฃo cedo desta vida descontente,
Repousa lรก no Cรฉu eternamente,
E viva eu cรก na terra sempre triste.
Se lรก no assento Etรฉreo, onde subiste,
Memรณria desta vida se consente,
Nรฃo te esqueรงas daquele amor ardente,
Que jรก nos olhos meus tรฃo puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Algลฉa cousa a dor que me ficou
Da mรกgoa, sem remรฉdio, de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tรฃo cedo de cรก me leve a ver-te,
Quรฃo cedo de meus olhos te levou.
Luรญs Vaz de Camรตes, in “Sonetos”
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POESIA PALACIANA |ย Joรฃo Roiz Castell-Branco
Senhora, partem tam tristes
meus olhos por vรณs, meu bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguรฉm.
Tam tristes, tam saudosos,
tam doentes da partida,
tam cansados, tam chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
Partem tam tristes os tristes,
tam fora dโ esperar bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguรฉm.
in Cancioneiro Geral de Garcia de Resende (1516)
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ESTE INFERNO DE AMAR | ALMEIDA GARRETT
Este inferno de amar – como eu amo! –
Quem mo pรดs aqui n’alma… quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que รฉ a vida – e que a vida destrรณi –
Como รฉ que se veio a atear,
Quando – ai quando se hรก-de ela apagar?
Eu nรฃo sei, nรฃo me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez… – foi um sonho –
Em que paz tรฃo serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar…
Quem me veio, ai de mim! despertar?
Sรณ me lembra que um dia formoso
Eu passei… dava o sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? – Nรฃo no sei;
Mas nessa hora a viver comecei…
in ‘Folhas Caรญdas’
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A confissรฃo de um vagabundo |ย Serguei Iessiรชnin
Nem todos sabem cantar
Nรฃo รฉ dado a todos ser maรงรฃ
Para cair aos pรฉs dos outros.
Esta รฉ a maior confissรฃo
Que jamais fez um vagabundo.
Nรฃo รฉ ร toa que eu ando despenteado,
Cabeรงa como lรขmpada de querosene sobre os ombros.
Me agrada iluminar na escuridรฃo
O outono sem folhas de vossas almas,
Me agrada, quando as pedras dos insultos
Voam sobre mim, granizo vomitado pelo vento.
Entรฃo limito-me a apertar mais com as mรฃos
A bolha oscilante dos cabelos.
Como eu me lembro bem entรฃo
Do lago cheio de erva e do som rouco do amieiro
E que nalgum lugar vivem meu pai e minha mรฃe,
Que pouco se importam com meus versos,
Que me amam como a um campo, como a um corpo,
Como ร chuva que na primavera amolece o capim.
Eles, com seus forcados, viriam aferrar-vos
A cada injรบria lanรงada contra mim.
Pobres, pobres camponeses,
Por certo, estรฃo velhos e feios,
E ainda temem a Deus e aos espรญritos do pรขntano.
Ah, se pudessem compreender
Que o seu filho รฉ, em toda a Rรบssia,
O seu melhor poeta!
Seus coraรงรตes nรฃo temiam por ele
Quando molhava os pรฉs nos charcos outonais?
Agora ele anda de cartola
E sapatos de verniz.
Mas sobrevive nele o antigo fogo
De aldeรฃo travesso.
A cada vaca, no letreiro dos aรงougues,
Ele saรบda ร distรขncia.
E quando cruza com um coche numa praรงa,
Lembrando o odor de esterco dos campos nativos,
Lhe dรก vontade de suster o rabo dos cavalos
Como a cauda de um vestido de nooiva.
Amo a terra.
Amo demais a minha terra!
Embora a entristeรงa o mofo dos salgueiros,
Me agradam os focinhos sujos dos porcos
E, no silรชncio das noites, a voz alta dos sapos.
Fico doente de ternura com as recordaรงรตes da infรขncia.
Sonho com a nรฉvoa e a umidade das tardes de abril,
Quando o nosso bordo se acocorava
Para aquecer os ossos no ocaso.
Ah, quantos ovos nos ninhos das gralhas,
Trepando nos seus galhos, nรฃo roubei!
Serรก ainda o mesmo, com a copa verde?
Sua casca serรก rija como antes?
E tu, meu caro
E fiel cachorro malhado?!
A velhice te fez cego e resmungรฃo.
Cauda caรญda, vagueias no quintal,
Teu faro nรฃo distingue o estรกbulo da casa.
Como recordo as nossas travessuras,
Quando eu furtava o pรฃo de minha mรฃe
E mordรญamos, um de cada vez,
Sem nojo um do outro.
Sou sempre o mesmo.
Meu coraรงรฃo รฉ sempre o mesmo.
Como as centรกureas no trigo, florem no rosto os olhos.
Estendendo as esteiras douradas de meus versos
Quero falar-vos com ternura.
Boa noite!
Boa noite a todos!
Terminou de soar na relva a foice do crepรบsculoโฆ
Eu sinto hoje uma vontade louca
De mijar, da janela, para a lua.
Luz azul, luz tรฃo azul!
Com tanto azul, atรฉ morrer รฉ zero.
Que importa que eu tenha o ar de um cรญnico
Que pendurou uma lanterna no traseiro!
Velho, bravo Pรกgaso exausto,
De que me serve o teu trote delicado?
Eu vim, um mestre rigoroso,
Para cantar e celebrar os ratos,
Minha cabeรงa, como agosto,
Verte o vinho espumante dos cabelos.
Eu quero ser a vela amarela
Rumo ao paรญs para o qual navegamos.
Expoente de uma ramificaรงรฃo das vanguardas, o Imagismo, Serguei Iessiรชninย simbolizou a tragรฉdia vivida pelos grandes poetas soviรฉticos: viveu 30 anos de grande furor literรกrio e pessoal, foi casado com a precursora da danรงa moderna. Isadora Duncan, e encerrou sua vida suicidando-se num quarto de hotel.
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Ergo uma rosa | Josรฉ Saramago
Ergo uma rosa, e tudo se ilumina
Como a lua nรฃo faz nem o sol pode:
Cobra de luz ardente e enroscada
Ou ventos de cabelos que sacode.
Ergo uma rosa, e grito a quantas aves
O cรฉu pontua de ninhos e de cantos,
Bato no chรฃo a ordem que decide
A uniรฃo dos demos e dos santos.
Ergo uma rosa, um corpo e um destino
Contra o frio da noite que se atreve,
E da seiva da rosa e do meu sangue
Construo perenidade em vida breve.
Ergo uma rosa, e deixo, e abandono
Quanto me doi de mรกgoas e assombros.
Ergo uma rosa, sim, e ouรงo a vida
Neste cantar das aves nos meus ombros.
Josรฉ Saramago
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POEMA | JOSร TOLENTINO MENDONรA
Perdemos repentinamente
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos conservar
mas levamos anos
a esquecer alguรฉm
que apenas nos olhou.
ย in A Noite Abre Meus Olhos
Josรฉ Tolentino Mendonรงa
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A Minha Religiรฃo รฉ o Novo | Gonรงalo M. Tavares
A minha Religiรฃo รฉ o Novo.
Este dia, por exemplo; o pรดr do Sol,
estas invenรงรตes habituais: o Mar.
Ainda:
os cisnes a Ralhar com a รกgua. A Rapariga mais bonita que
ontem.
Deus como habitante รบnico.
Todos somos estrangeiros a esta Regiรฃo, cujo รบnico habitante
verdadeiro รฉ Deus (este bem podia ser o Rรณtulo do nosso
Frasco).
Dele tambรฉm se podia dizer, como homenagem:
Hรณspede discreto.
Ou mais pomposamente:
O Enorme Hรณspede discreto.
Ou dizer ainda, para demorar Deus mais tempo nos lรกbios ou
neste caso no papel, na escrita, dizer ainda, no seu epitรกfio que
nunca chega, que nunca serรก รบtil, dizer dele:
em todo o lado รฉ hรณspede,
e em todo o lado รฉ Discreto.
Gonรงalo M. Tavares , in “Investigaรงรตes. Novalis”
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A LรNGUA LAMBE |ย Carlos Drummond de Andrade
A lรญngua lambe as pรฉtalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a lรญngua lavra
certo oculto botรฃo, e vai tecendo
lรฉpidas variaรงรตes de leves ritmos.
E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o cรฉu do cรฉu, entre gemidos,
entre gritos, balidos e rugidos
de leรตes na floresta, enfurecidos.
Carlos Drummond de Andrade
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Soneto 23 | William Skakespeare
Como no palco o ator que รฉ imperfeito
Faz mal o seu papel sรณ por temor,
Ou quem, por ter repleto de รณdio o peito
Vรช o coraรงรฃo quebrar-se num tremor,Em mim, por timidez, fica omitido
O rito mais solene da paixรฃo;
E o meu amor eu vejo enfraquecido,
Vergado pela prรณpria dimensรฃo.Seja meu livro entรฃo minha eloqรผรชncia,
Arauto mudo do que diz meu peito,
Que implora amor e busca recompensaMais que a lรญngua que mais o tenha feito.
Saiba ler o que escreve o amor calado:
Ouvir com os olhos รฉ do amor o fado.
William Skakespeare
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Temos a arte para nรฃo morrer da verdade.
Friedrich Nietzsche
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A uma senhora que me pediu versos | Machado de Assis
Pensa em ti mesma, acharรกs
Melhor poesia,
Viveza, graรงa, alegria,
Doรงura e paz.Se jรก dei flores um dia,
Quando rapaz,
As que ora dou tรชm assaz
Melancolia.Uma sรณ das horas tuas
Valem um mรชs
Das almas jรก ressequidas.Os sรณis e as luas
Creio bem que Deus os fez
Para outras vidas.
Machado de Assis
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Devemos julgar um homem mais pelas suas perguntas que pelas respostas.
Voltaire
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Ton silence |ย Malika Mellal
รcouter le silence
N’arrive qu’ร me faire peur
Je prรฉfรจre รฉcouter le bruit
Que le silence de la nuit
Le bruit parle ร mon cลur
Il est pour moi une chance.
Le bruit me sourit
Il me rappelle ร la vie
Le bruit accords de vibrations
Merveilleux mรฉlange de sons
Le bruit du vent dans mes cheveux
Caresses de souffles merveilleux
Celui du clapotis de pluie sur le toit
Jolie symphonie de perles d’รฉclats
Le bruit des jeux d’enfants
Qui figent un moment le temps
Le bruit des oiseaux dans leurs nid
Qui annonce que le printemps fleurit.
Le bruit de ton amour
Que je refuse sourd
Celui mรชme de ta colรจre
Sera toujours moins amer
Que ce silence que tu opรจres
Qui me ronge et m’exaspรจre.
Comment le silence peut-il me parler
Quand il est absence dรฉsespรฉrรฉe
Que veux tu que j’entende
D’un silence qui distande
Je prรฉfรจre les รฉclats de voix
ร ce silence qui broie
Je vis de mots murmurรฉs
De mots hurlรฉs , jamais trafiquรฉs
J’aime la vรฉritรฉ au silence dรฉguisรฉ.
Malika Mellal fรฉvrier 2018
Copyright@mellalmalika | Gustav Klimt
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A Giganta | Charles Baudelaire
No tempo em que a Natura, augusta, fecundanta,
Seres descomunais dava ร terra mesquinha,
Eu quisera viver junto d’uma giganta,
Como um gatinho manso aos pรฉs d’uma rainha!
Gosta de assistir-lhe ao desenvolvimento
Do corpo e da razรฃo, aos seus jogos terrรญveis;
E ver se no seu peito havia o sentimento
Que faz nublar de pranto as pupilas sensรญveis
Percorrer-lhe a vontade as formas gloriosas,
Escalar-lhe, febril, as colunas grandiosas;
E ร s vezes, no verรฃo, quando no ardente solo
Eu visse deitar, numa quebreira estranha estranha,
Dormir serenamente ร sombra do seu colo,
Como um pequeno burgo ao sopรฉ da montanha!
Charles Baudelaire , in “As Flores do Mal”
Traduรงรฃo de Delfim Guimarรฃes
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Quando um Homem Quiser | Josรฉ Carlos Ary dos Santos
Tu que dormes ร noite na calรงada do relento
numa cama de chuva com lenรงรณis feitos de vento
tu que tens o Natal da solidรฃo, do sofrimento
รฉs meu irmรฃo, amigo, รฉs meu irmรฃo
E tu que dormes sรณ o pesadelo do ciรบme
numa cama de raiva com lenรงรณis feitos de lume
e sofres o Natal da solidรฃo sem um queixume
รฉs meu irmรฃo, amigo, รฉs meu irmรฃo
Natal รฉ em Dezembro
mas em Maio pode ser
Natal รฉ em Setembro
รฉ quando um homem quiser
Natal รฉ quando nasce
uma vida a amanhecer
Natal รฉ sempre o fruto
que hรก no ventre da mulher
Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
tu que inventas bonecas e comboios de luar
e mentes ao teu filho por nรฃo os poderes comprar
รฉs meu irmรฃo, amigo, รฉs meu irmรฃo
E tu que vรชs na montra a tua fome que eu nรฃo sei
fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
pรตes um sabor amargo em cada doce que eu comprei
รฉs meu irmรฃo, amigo, รฉs meu irmรฃo
Ary dos Santos , in ‘As Palavras das Cantigas’
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Amor รฉ um Fogo que Arde sem se Ver | Luรญs Vaz de Camรตes
Amor รฉ um fogo que arde sem se ver;
ร ferida que dรณi, e nรฃo se sente;
ร um contentamento descontente;
ร dor que desatina sem doer.
ร um nรฃo querer mais que bem querer;
ร um andar solitรกrio entre a gente;
ร nunca contentar-se e contente;
ร um cuidar que ganha em se perder;
ร querer estar preso por vontade;
ร servir a quem vence, o vencedor;
ร ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos coraรงรตes humanos amizade,
Se tรฃo contrรกrio a si รฉ o mesmo Amor?
Luรญs Vaz de Camรตes , in “Sonetos”
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Amo-te Muito, Meu Amor, e Tanto | Jorge de Sena
Amo-te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Nรฃo finda
com o prรณprio amor o amor do teu encanto.
Que encanto รฉ o teu? Se continua enquanto
sofro a traiรงรฃo dos que, viscosos, prendem,
por uma paz da guerra a que se vendem,
a pura liberdade do meu canto,
um cรขntico da terra e do seu povo,
nesta invenรงรฃo da humanidade inteira
que a cada instante hรก que inventar de novo,
tรฃo quase รฉ coisa ou sucessรฃo que passa…
Que encanto รฉ o teu? Deitado ร tua beira,
sei que se rasga, eterno, o vรฉu da Graรงa.
Jorge de Sena , in โPoesia, Vol. Iโ
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Ser ou nรฃo Ser | William Shakespeare
Hamlet: Ser ou nรฃo ser, essa รฉ a questรฃo: serรก mais nobre suportar na mente as flechadas da trรกgica fortuna, ou tomar armas contra um mar de obstรกculos e, enfrentando-os, vencer? Morrer โ dormir, nada mais; e dizer que pelo sono se findam as dores, como os mil abalos inerentes ร carne โ รฉ a conclusรฃo que devemos buscar. Morrer โ dormir; dormir, talvez sonhar โ eis o problema: pois os sonhos que vierem nesse sono de morte, uma vez livres deste invรณlucro mortal, fazem cismar. Esse รฉ o motivo que prolonga a desdita desta vida.
William Shakespeare , in “Hamlet”
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Ausรชncia | William Shakespeare
Sofremos muito com o pouco que nos falta e gozamos pouco o muito que temos.
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Trรชsย Poemas de Joรฃo Guimarรฃes Rosa, do livro โMagmaโ
Gargalhada
Quando me disseste que nรฃo mais me amavas,
e que ias partir,
dura, precisa, bela e inabalรกvel,
com a impassibilidade de um executor,
dilatou-se em mim o pavor das cavernas vaziasโฆ
Mas olhei-te bem nos olhos,
belos como o veludo das lagartas verdes,
e porque jรก houvesse lรกgrimas nos meus olhos,
tive pena de ti, de mim, de todos,
e me ri
da inutilidade das torturas predestinadas,
guardadas para nรณs, desde a treva das รฉpocas,
quando a inexperiรชncia dos Deuses
ainda nรฃo criara o mundoโฆ
—
Revolta
Todos foram saindo, de mansinho,
tรฃo calados,
que eu nem sei
se fiquei mesmo sรณ.
Nรฃo trouxe mensagem
e nem deram senhaโฆ
Disseram-se que nรฃo iria perder nada,
porque nรฃo hรก mais cรฉu.
E agora, que tenho medo,
e estou cansado,
mandam-me emboraโฆ
Mas nรฃo quero ir para mais longe,
desterrado,
porque a minha pรกtria รฉ a minha memรณria.
Nรฃo, nรฃo quero ser desterrado,
que a minha pรกtria รฉ a memรณriaโฆ
—
Elegia
Teu sorriso se abriu como uma anรชmona
entre as covinhas do rosto infantil.
Estavas de pijama verde,
nas almofadas verdes,
os pezinhos nus, as pernas cruzadas,
pequenina,
como um รญdolo de jade
que teve por modelo uma princesa anamita.
Tuas mรฃos sorriam,
teus olhos sorriam,
o liso dos teus cabelos pretos sorria,
e mesmo me sorriste,
e foi a รบnica vezโฆ
Nรฃo pude calรงar, com beijos os teus pezinhos,
e nรฃo pudeste caminhar para mimโฆ
Mas รฉ bem assim que os meus sonhos se possuem.
do livro โMagmaโ
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Mia Couto | Para Ti
Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo
Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre
Para ti dei voz
ร s minhas mรฃos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nรณs
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e nรฃo dormรญamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridรฃo
nos cingisse a cintura
ficรกvamos nos olhos
vivendo de um sรณ
amando de uma sรณ vida
Mia Couto , in “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”
—
Mia Couto | Pergunta-me
Pergunta-me
se ainda รฉs o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na รกrvore do meu sangue
Pergunta-me
se o vento nรฃo traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fรบria
e o tropel de mil cavalos
Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersรฃo do meu ser
se eras tu
que reunias pedaรงos do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mรฃo descrente
Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistรฉrio indecifrรกvel
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer
Mia Couto , in ‘Raiz de Orvalho’
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Josรฉ Gomes Ferreira | (Junto a minha voz ao coro dos poetas mais novos.
Recuso-me a ter mais de vinte anos.)
Nรฃo, nรฃo queremos cantar
as canรงรตes azuis
dos pรกssaros moribundos.
Preferimos andar aos gritos
para que os homens nos entendam
na escuridรฃo das raรญzes.
Aos gritos como os pescadores quando puxam as redes
em tardes de fome pitoresca para quadros de exposiรงรฃo.
Aos gritos como os fogueiros que se lanรงam vivos nas fornalhas
para que os navios cheguem intactos aos destinos dos outros.
Aos gritos como os escravos que arrastaram as pedras no Deserto
para o grande monumento ร Dor Humana do Egipto.
Aos gritos como o idรญlio dum operรกrio e duma operรกria
a falarem de amor
ao pรฉ duma mรกquina de tempestade
a soluรงar cidades de fome
na cรณlera dos ruรญdos…
Aos gritos, sim, aos gritos.
E nรฃo hรก melhor orgulho
do que o nosso destino
de nascer em todas as bocas…
Nรณs, os poetas viris
que trazemos nos olhos
as lรกgrimas dos outros.
Josรฉ Gomes Ferreira
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O pรกssaro azul | Charles Bukowski
hรก um pรกssaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aรญ, nรฃo deixarei que ninguรฉm o veja.
hรก um pรกssaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uรญsque sobre ele e inalo
fumaรงa de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberรฃo que
ele estรก
lรก dentro.
hรก um pรกssaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aรญ,
quer acabar comigo?
(โฆ) hรก um pรกssaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estรฃo dormindo.
eu digo: sei que vocรช estรก aรญ,
entรฃo nรฃo fique triste.
depois, o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lรก dentro, nรฃo deixo que morra
completamente
e nรณs dormimos juntos
assim
como nosso pacto secreto
e isto รฉ bom o suficiente para
fazer um homem
chorar,
mas eu nรฃo choro,
e vocรช?
Traduรงรฃo: Pedro Gonzaga
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Tive amigos que morriam, amigos que partiam
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fรกcil
Procurei-me na luz, no mar, no vento.
Sophia de Mello Breyner Andresen
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ร um privilรฉgio feminino ser insensata.
Marlene Dietrich
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Uma guitara perpetua o verรฃo | maria isabel fidalgo
Longรญnqua, uma guitarra perpetua o verรฃo
na larga casa da saudade.
Abro as janelas do mar
e no clamor das ondas
o sol de agosto desce calmo
sobre os barcos.
Sou jovem em qualquer lado
onde hรก o brilho indomรกvel
dos anos, antes destes,
e de outros, longe de ti.
Chegam pescadores do lado
dos bรบzios e dos limos
com os pรฉs calรงados de sargaรงo
e a tarde รฉ um farol nas nossas mรฃos.
Cada palavra que dizes
รฉ um rio junto ร fonte,
uma claridade a abrir,
a subir a pique sobre o mundo.
Ouso pedir-te
que te escondas comigo
nesta ilusรฃo de juventude
plasmada na minha varanda
aberta sobre o mar;
que nรฃo apresses a voz;
que me deixes cerzida num abraรงo,
e que a tarde caia sobre nรณs
fulgente de ouro e luz
alheia ao peso do cansaรงo.
maria isabel fidalgo
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A Nรกusea | Jean Paul Sartre
Os homens. ร preciso amar os homens. Os homens sรฃo admirรกveis. Sinto vontade de vomitar โ e de repente aqui estรก ela: a Nรกusea. Entรฃo รฉ isso a Nรกusea: essa evidรชncia ofuscante? Existo โ o mundo existe -, e sei que o mundo existe. Isso รฉ tudo. Mas tanto faz para mim. ร estranho que tudo me seja tรฃo indiferente: isso me assusta. Gostaria tanto de me abandonar, de deixar de ter consciรชncia de minha existรชncia, de dormir. Mas nรฃo posso, sufoco: a existรชncia penetra em mim por todos os lados, pelos olhos, pelo nariz, pela bocaโฆ E subitamente, de repente, o vรฉu se rasga: compreendi, vi. A Nรกusea nรฃo me abandonou, e nรฃo creio que me abandone tรฃo cedo; mas jรก nรฃo estou submetido a ela, jรก nรฃo se trata de uma doenรงa, nem de um acesso passageiro: a Nรกusea sou eu.
Jean-Paul Sartre
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Jean Paul Sartre | Pensamento
ร preciso explicar por que o mundo de hoje, que รฉ horrรญvel, รฉ apenas um momento do longo desenvolvimento histรณrico e que a esperanรงa sempre foi uma das forรงas dominantes das revoluรงรตes e das insurreiรงรตes. E eu ainda sinto a esperanรงa como minha concepรงรฃo de futuro.
Jean-Paul Sartre
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Simone de Beauvoir | Pensamento
Nรฃo mais me deitar no feno perfumado ou deslizar na neve deserta.
Onde eu exatamente me encontro?
O que me surpreende รฉ a impressรฃo de nรฃo ter envelhecido, embora eu esteja instalada na velhice.
O tempo รฉ irrealizรกvel.
Provisoriamente o tempo parou para mim.
Provisoriamente.
Mas eu nรฃo ignoro as ameaรงas que o futuro encerra, como tambรฉm nรฃo ignoro que รฉ o meu passado que define a minha abertura para o futuro.
O meu passado รฉ a referรชncia que me projeta e que eu devo ultrapassar.
Portanto, ao meu passado, eu devo o meu saber e a minha ignorรขncia, as minha necessidades, as minhas relaรงรตes, a minha cultura e o meu corpo.
Hoje, que espaรงo o meu passado deixa para a minha liberdade hoje? Nรฃo sou escrava dele.
O que eu sempre quis foi comunicar unicamente da maneira mais direta o sabor da minha vida. Unicamente o sabor da minha vida.
Acredito que eu consegui fazรช-lo.
Vivi num mundo de homens, guardando em mim o melhor da minha feminilidade.
Nรฃo desejei e nem desejo nada mais do que viver sem tempos mortos.
Simone de Beauvoirย
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O Captain! My Captain! | BY WALT WHITMAN
O Captain! my Captain! our fearful trip is done,
The ship has weatherโd every rack, the prize we sought is won,
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring;
But O heart! heart! heart!
O the bleeding drops of red,
Where on the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.
O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;
Rise upโfor you the flag is flungโfor you the bugle trills,
For you bouquets and ribbonโd wreathsโfor you the shores a-crowding,
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
Here Captain! dear father!
This arm beneath your head!
It is some dream that on the deck,
Youโve fallen cold and dead.
My Captain does not answer, his lips are pale and still,
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will,
The ship is anchorโd safe and sound, its voyage closed and done,
From fearful trip the victor ship comes in with object won;
Exult O shores, and ring O bells
But I with mournful tread,
Walk the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.
WALT WHITMAN | Source: Leaves of Grass (David McKay, 1891)
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A FLOR | ALMADA NEGREIROS
Pede-se a uma crianรงa. Desenhe uma flor! Dรก-se-lhe papel e lรกpis. A crianรงa vai sentar-se no outro canto da sala onde nรฃo hรก mais ninguรฉm.
Passado algum tempo o papel estรก cheio de linhas. Umas numa direcรงรฃo, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fรกceis, outras mais custosas. A crianรงa quis tanta forรงa em certas linhas que o papel quase nรขo resistiu.
Outras eram tรขo delicadas que apenas o peso do lรกpis jรก era demais.
Depois a crianรงa vem mostrar estas linhas ร s pessoas:
Uma flor !
As pessoas nรฃo acham parecidas estas linhas com as de uma flor.
Contudo, a palavra flor andou por dentro da crianรงa, da cabeรงa para o coraรงรฃo e do coraรงรฃo para a cabeรงa, ร procura das linhas com que se faz uma flor, e a crianรงa pรดs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas sรฃo aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!
Almada Negreiros
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LETANรA DE MIS DEFECTOS | Guadalupe Teresa Amor Schmidtlein
“Soy vanidosa, dรฉspota, blasfema,
Soberbia, altiva, ingrata, desdeรฑosa;
pero conservo aรบn la tez de rosa.
La lumbre del infierno a mi me quema.
Es de cristal cortado mi sistema.
Soy egรณlatra, frรญa, tumultuosa.
Me quiebro frรกgil como mariposa.
Yo misma he construido mi anatema.
Soy perversa, malvada, vengativa.
Es prestada mi sangre y fugitiva.
Mis pensamientos son muy taciturnos.
Mis sueรฑos de pecado son nocturnos.
Soy histรฉrica, loca desquiciada;
pero a la eternidad ya sentenciada”
Guadalupe Teresa Amor Schmidtlein
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As balas | Fernando Assis Pacheco
Sรฃo de ferro. Ou de aรงo?
Diz-se que fazem ร entrada
um pequeno orifรญcio,
seguido de uma grande
devastaรงรฃo de carnes
sangrentas. Por isso matam.
Li tudo sobre a morte.
Escrevi sobre a minha
e depois embebedei-me.
A bala vem pelo ar
(ruรญdo onomatopaico) e
crava-se, cava, ceva-se
nessas carnes. Era a minha.
Tive uma bala marcada:
ร รบltima hora telefonei
a desistir. ‘da-se!
Pior para o Soares que entra
nestes versos jรก morto.
Sรฃo de ferro. A tua era,
รณ Soares, ou de aรงo,
e ยซagora choro contigoยป
ausente uma vila
branca do Alentejo: tu.
Diz-se que fazem assim
um pequenรญssimo estรบpido
orifรญcio (nรฃo quis ver)
como um botรฃo mas
destroem tudo, devastam
tecidos, vรญsceras nobres,
e entรฃo trazem atรฉ nรณs
a morte sanguinolenta.
Se ainda as fabricam
como no meu tempo, creio
que matam num, ah pois,
infinitรฉsimo de segundo.
ร brutal. Eu ouvi-as:
perde-se a tesรฃo por um sรฉculo.
Fernando Assis Pacheco
in A Musa Irregular
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Fyodor Dostoyevsky
Why was I calling you, wishing for you, why was I longing and thirsting for you with every curve of my soul and even with my ribs?
Fyodor Dostoyevsky, The Brothers Karamazov.
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Samuel Beckett
I know your sorrow and I know that for the likes of us there is no ease for the heart to be had from words or reason and that in the very assurance of sorrowโs fading there is more sorrow. So I offer you only my deeply affectionate and compassionate thoughts and wish for you only that the strange thing may never fail you, whatever it is, that gives us the strength to live on and on with our wounds.
Samuel Beckett, The Letters of Samuel Beckett Volume III: 1957-1965 (Cambridge University Press 10/16/2014)
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HERBERTO HELDER | (A CARTA DA PAIXรO)
Esta mรฃo que escreve a ardente melancolia
da idade
รฉ a mesma que se move entre as nascenรงas da cabeรงa,
que ร imagem do mundo aberta de tรชmpora
a tรชmpora
ateia a sumptuosidade do coraรงรฃo. A demรชncia lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se formam
as estaรงรตes atรฉ ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silรชncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coraรงรฃo que se alumia: a lรญngua
alumia-se: O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mรฃo que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, essa lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelaรงรฃo. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeรงa: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braรงo fincado em ti, uma veia
dentro
da tua รกrvore. Ou um filรฃo ardido de ponto a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde comeรงa a estrela animal.
Queima-te a espaรงosa
desarrumaรงรฃo das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entranรงada na terra. As mรฃos carregam a forรงa
desde a raiz
dos braรงos a forรงa
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a lรญmpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma danรงa atรฉ
ao poder com que te toco. A mudanรงa. Nenhuma
estaรงรฃo รฉ lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
รฉ tao feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatรณmico em que pulsas como um lenรงol lavrado.
A paixรฃo รฉ voraz, o silรชncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias cรดncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
ร de ouro a paisagem que nasce: eu torรงo-a
entre os braรงos. E hรก roupas vivas, o imรณvel
relรขmpago das frutas. O incรชndio atrรกs das noites corta
pelo meio
o abraรงo da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mรฃos sumptuosas.
A doรงura mata.
A luz salta ร s golfadas.
A terra รฉ alta.
Tu รฉs o nรณ de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insรณnia como o aroma entre os tendรตes
da madeira fria. รs uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguรญneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.
Herberto Helder
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AL BERTO | VIGรLIAS
pernoito
no interior do corpo desarrumado
o medo invade o penumbroso corredor
descubro uma cintilaรงรฃo de รกgua no estuque
uma cicatriz de cristais de bolor abre-se
porosa ao contacto dos dedos indica
que nรฃo haverรก esquecimento ou brisa
para limpar o tempo imemorial da casa
deste simulado sono ficou-lhe o amargo iodo
as madeiras enceradas cobertas de poeira
ervas secas ร chuva molhos de rosmaninho
junquilhos, bocas de lobo silenas, trevo
mas nenhuma fuga foi recomeรงada
a infรขncia permanece triste onde a abandonei
quase nรฃo vive
no entanto ouรงo-a respirar dentro de mim
agora tudo รฉ diferente
recomeรงo a viver a partir do vazio
da treva dos dias em silรชncio
por entre a pele e um feixe de magnificas veias
sinto o pรกssaro da velhice arrastando as asas
onde desenvolve o calmo voo lunar
enumero cuidadosamente os objectos, classifico-os
por tamanhos por texturas, por funรงรตes
quero deixar tudo arrumado quando a loucura vier
da extremidade aguรงada do corpo alado
e o rosto for devassado por um estilhaรงo de asa
entรฃo a vida abater-se-รก sobre a folha de papel
onde verso a verso
me ilumino e me desgasto.
Al Berto
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IRMANDADE
Sou homem: duro pouco
e รฉ enorme a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
Tambรฉm sou escritura
e neste mesmo instante
alguรฉm me soletra.
Octavio Paz e Kubrick em 2001 uma Odisseia no espaรงo
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Que รฉ feito de tudo?
Que fiz eu de mim?
Deixa-me dormir,
Dormir a sorrir
E seja isto o fim.
Fernando Pessoa
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Gosto da noite imensa,
triste, preta, como esta estranha borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim!…
Florbela Espanca
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O que nos tranquiliza no sono รฉ a certeza de que dele retornamos.
E ele nos cura temporariamente da fadiga pelo mais radical dos processos, isto รฉ, arranjando para que cessemos de existir durante algumas horas.
Marguerite Yourcenar
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O respeito pelo passado – eis o traรงo que distingue a instruรงรฃo da barbรกrie; as tribos nรณmadas nรฃo possuem nem histรณria, nem nobreza.
Alexander Pushkin
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Amar? Para quรช? Por um tempo, nรฃo vale a pena.
E, para sempre, รฉ impossรญvel.
Alexander Pushkin
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A melhor universidade รฉ a felicidade de viver.
Alexander Pushkin
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AOS MEUS AMIGOS | Alexander Pushkin
Os deuses ainda vos dรฃo
Dias e noites de alegria,
E amรกveis moรงas vos estรฃo
A examinar com simpatia.
Folgai, cantai, ficai a fruir
A noite, amigos, passageira,
E a vosso prazer sem canseira
Hei-de, entre lรกgrimas, sorrir.
Alexander Pushkin
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Eu amei-te; mesmo agora devo confessar,
Algumas brasas desse amor estรฃo ainda a arder;
Mas nรฃo deixes que isso te faรงa sofrer,
Nรฃo quero que nada te possa inquietar.
O meu amor por ti era um amor desesperado,
Tรญmido, por vezes, e ciumento por fim.
Tรฃo terna, tรฃo sinceramente te amei,
Que peรงo a Deus que outro te ame assim.
Alexander Pushkin
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Todos dizem: “Nรฃo hรก justiรงa na terra.” Mas tambรฉm nรฃo hรก justiรงa lรก no alto!
Alexander Pushkin
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A Extraordinรกria Aventura vivida por Vladimir Maiakรณvski.
No Verรฃo, na Datcha.
A tarde ardia em cem sรณis
O verรฃo rolava em julho.
O calor se enrolava
no ar e nos lenรงรณis
da datcha onde eu estava,
Na colina de Pรบchkino, corcunda,
o monte Akula,
e ao pรฉ do monte
a aldeia enruga
a casca dos telhados.
E atrรกs da aldeia,
um buraco
e no buraco, todo dia,
o mesmo ato:
o sol descia
lento e exato
E de manhรฃ
outra vez
por toda a parte
lรก estava o sol
escarlate.
Dia apรณs dia
isto
comeรงou a irritar-me
terrivelmente.
Um dia me enfureรงo a tal ponto
que, de pavor, tudo empalidece.
E grito ao sol, de pronto:
ยฟDesce!
Chega de vadiar nessa fornalha!
E grito ao sol:
ยฟParasita!
Vocรช aรญ, a flanar pelos ares,
e eu aqui, cheio de tinta,
com a cara nos cartazes!
E grito ao sol:
ยฟEspere!
Ouรงa, topete de ouro,
e se em lugar
desse ocaso
de paxรก
vocรช baixar em casa
para um chรก?
Que mosca me mordeu!
ร o meu fim!
Para mim
sem perder tempo
o sol
alargando os raios-passos
avanรงa pelo campo.
Nรฃo quero mostra medo.
Recuo para o quarto.
Seus olhos brilham no jardim.
Avanรงam mais.
Pelas janelas,
pelas portas,
pelas frestas
a massa
solar vem abaixo
e invade a minha casa.
Recobrando o fรดlego,
me diz o sol com a voz de baixo:
ยฟPela primeira vez recolho o fogo,
desde que o mundo foi criado.
Vocรช me chamou?
Apanhe o chรก,
pegue a compota, poeta!
Lรกgrimas na ponta dos olhos
– o calor me fazia desvairar, eu lhe mostro
o samovar:
ยฟPois bem,
sente-se, astro!
Quem me mandou berrar ao sol
insolรชncias sem conta?
Contrafeito
me sento numa ponta
do banco e espero a conta
com um frio no peito.
Mas uma estranha claridade
fluรญa sobre o quarto
e esquecendo os cuidados
comeรงo
pouco a pouco
a palestrar com o astro.
Falo
disso e daquilo,
como me cansa a Rostaยฒ,
etc.
E o sol:
ยฟEstรก certo,
mas nรฃo se desgoste,
nรฃo pinte as coisas tรฃo pretas.
E eu? Vocรช pensa
que brilhar
รฉ fรกcil?
Prove, pra ver!
Mas quando se comeรงa
รฉ preciso prosseguir
e a gente vai e brilha pra valer!ยฟ
Conversamos atรฉ a noite
ou atรฉ o que, antes, eram trevas.
Como falar, ali, de sombras?
Ficamos รญntimos,
os dois.
Logo,
com desassombro
estou batendo no seu ombro.
E o sol, por fim:
ยฟSomos amigos
pra sempre, eu de vocรช,
vocรช de mim.
Vamos, poeta,
cantar,
luzir
no lixo cinza do universo.
Eu verterei o meu sol
e vocรช o seu
com seus versos.
ยฟO muro das sombras,
prisรฃo das trevas,
desaba sob o obus
dos nossos sรณis de duas bocas.
Confusรฃo de poesia e luz,
chamas por toda a parte.
Se o sol se cansa
e a noite lenta
quer ir pra cama,
marmota sonolenta,
eu, de repente,
inflamo a minha flama
e o dia fulge novamente.
Brilhar para sempre,
brilhar como um farol,
brilhar com brilho eterno,
Gente รฉ pra brilhar
que tudo o mais vรก prรก o inferno,
este รฉ o meu slogan
e o do sol.
Vladimir Maiakรณvski
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Carpe Diem | Walt Whitman
Aproveita o dia,
Nรฃo deixes que termine sem teres crescido um pouco.
Sem teres sido feliz, sem teres alimentado teus sonhos.
Nรฃo te deixes vencer pelo desalento.
Nรฃo permitas que alguรฉm te negue o direito de expressar-te, que รฉ quase um dever.
Nรฃo abandones tua รขnsia de fazer de tua vida algo extraordinรกrio.
Nรฃo deixes de crer que as palavras e as poesias sim podem mudar o mundo.
Porque passe o que passar, nossa essรชncia continuarรก intacta.
Somos seres humanos cheios de paixรฃo.
A vida รฉ deserto e oรกsis.
Nos derruba, nos lastima, nos ensina, nos converte em protagonistas de nossa prรณpria histรณria.
Ainda que o vento sopre contra, a poderosa obra continua, tu podes trocar uma estrofe.
Nรฃo deixes nunca de sonhar, porque sรณ nos sonhos pode ser livre o homem.
Nรฃo caias no pior dos erros: o silรชncio.
A maioria vive num silรชncio espantoso. Nรฃo te resignes, e nem fujas.
Valorize a beleza das coisas simples, se pode fazer poesia bela, sobre as pequenas coisas.
Nรฃo atraiรงoes tuas crenรงas.
Todos necessitamos de aceitaรงรฃo, mas nรฃo podemos remar contra nรณs mesmos.
Isso transforma a vida em um inferno.
Desfruta o pรขnico que provoca ter a vida toda a diante.
Procures vivรช-la intensamente sem mediocridades.
Pensa que em ti estรก o futuro, e encara a tarefa com orgulho e sem medo.
Aprendes com quem pode ensinar-te as experiรชncias daqueles que nos precederam.
Nรฃo permitas que a vida se passe sem teres vividoโฆ
Walt Whitman
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A Grande Inteligรชncia รฉ Sobreviver | Gonรงalo M. Tavares
A grande Inteligรชncia รฉ sobreviver.
As tartarugas portanto nรฃo sรฃo teimosas nem lentas, dominam;
SIM, a ciรชncia.
Toda a tecnologia รฉ quase inรบtil e estรบpida,
porque a artesanal tartaruga,
a espontรขnea TARTARUGA,
permanece sobre a terra mais anos que o homem.
Portanto,
como a grande inteligรชncia รฉ sobreviver,
a tartaruga รฉ Filรณsofa e Laboratรณrio,
e o Homem que jรก foi Rei da criaรงรฃo
nรฃo passa, afinal, de um crustรกceo FALSO,
um lavagante pedante;
um animal de cabeรงa dura. Ponto.
Gonรงalo M. Tavares, in “Investigaรงรตes”
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A Minha Religiรฃo รฉ o Novo | Gonรงalo M. Tavares
A minha Religiรฃo รฉ o Novo.
Este dia, por exemplo; o pรดr do Sol,
estas invenรงรตes habituais: o Mar.
Ainda:
os cisnes a Ralhar com a รกgua. A Rapariga mais bonita que
ontem.
Deus como habitante รบnico.
Todos somos estrangeiros a esta Regiรฃo, cujo รบnico habitante
verdadeiro รฉ Deus (este bem podia ser o Rรณtulo do nosso
Frasco).
Dele tambรฉm se podia dizer, como homenagem:
Hรณspede discreto.
Ou mais pomposamente:
O Enorme Hรณspede discreto.
Ou dizer ainda, para demorar Deus mais tempo nos lรกbios ou
neste caso no papel, na escrita, dizer ainda, no seu epitรกfio que
nunca chega, que nunca serรก รบtil, dizer dele:
em todo o lado รฉ hรณspede,
e em todo o lado รฉ Discreto.
Gonรงalo M. Tavares, in “Investigaรงรตes”
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Se Tu Viesses Ver-me… | Florbela Espanca
Se tu viesses ver-me hoje ร tardinha,
A essa hora dos mรกgicos cansaรงos,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braรงos…
Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca… o eco dos teus passos…
O teu riso de fonte… os teus abraรงos…
Os teus beijos… a tua mรฃo na minha…
Se tu viesses quando, linda e louca,
Traรงa as linhas dulcรญssimas dum beijo
E รฉ de seda vermelha e canta e ri
E รฉ como um cravo ao sol a minha boca…
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus braรงos se estendem para ti…
Florbela Espanca , in “Charneca em Flor”
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A Besta | Maria Joรฃo Cantinho
De que tempo somos, agora
que a tempestade sopra de novo
e ao cรฉu sobe este monte de ruรญnas
devastaรงรฃo anoitecendo o mundo
tenta lembrar-te de que lado
veio um dia o alerta, de que armรกrio
saiu este cortejo de sombras
onde se gravou o que a histรณria
deixou escapar, nas malhas do mito
para de novo retornar
a besta silenciosa, a que vigia
sem que as pรกlpebras lhe desรงam
uma รบnica vez. Silente
talvez estivรฉssemos nรณs, os do Sul,
embriagados pela torpeza do metal
e por isso ela moveu-se devagar
como se fosse cinza na minha memรณria
MJC , ยซDo รnfimoยป – Editora Penalux, Brasil, 2018.
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Antes de amar-te, amor, nada era meu… | Pablo Neruda
Antes de amar-te, amor, nada era meu
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salรตes cinzentos,
Tรบneis habitados pela lua,
Hangares cruรฉis que se despediam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caรญdo, abandonado e decaรญdo,
Tudo era inalienavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguรฉm,
Atรฉ que tua beleza e tua pobreza
De dรกdivas encheram o outono.
Pablo Neruda
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CITAรรES
ร preciso ser duro, mas sem perder a ternura, jamais โฆ
Che Guevara
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Que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa prรณpria substรขncia, jรก que viver รฉ ser livre.
Simone de Beauvoir
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What Matters Most is How Well You Walk Through the Fire
Charles Bukowski
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Vita brevis, ars longa | A vida รฉ breve, a arte รฉ longa.
Hรก verdadeiramente duas coisas diferentes; saber e crer que se sabe. A ciรชncia consiste em saber; em crer que se sabe reside a ignorรขncia.
Para os males extremos, sรณ sรฃo eficazes os remรฉdios intensos.
Hipรณcrates
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1) – A fantasia, motor da infidelidade, ocupa-se em tornar-nos criativos. A imaginaรงรฃo estimula a mentira, que, quando bem-sucedida, nos dรก liberdades inimaginรกveis. Mentir รฉ descobrir opรงรตes. O segredo faz o resto. No adultรฉrio, as variaรงรตes de nรณs mesmos sรฃo infinitas.
2) – Os homens casam-se por cansaรงo. As mulheres, por curiosidade. Ambos se desiludem.
Lord Henry , em O Retrato de Dorian Gray, 1890.
3) – Nada mais glorioso do que a devoรงรฃo de uma mulher casada – o que o homem casado desconhece completamente.
Cecil Graham , em O Leque de Lady Windermere, 1892.
in DICIONรRIO SENTIMENTAL DO ADULTรRIO | FILIPA MELO , autora
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Entre nรณs e as palavras hรก metal fundente
entre nรณs e as palavras hรก hรฉlices que andam
e podem dar-nos morteย ย ย ย violar-nosย ย ย ย tirar
do mais fundo de nรณs o mais รบtil segredo
entre nรณs e as palavras hรก perfis ardentes
espaรงos cheios de gente de costas
altas flores venenosasย ย ย ย portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianรงas sentadas
ร espera do seu tempo e do seu precipรญcioAo longo da muralha que habitamos
hรก palavras de vidaย ย ย ย hรก palavras de morte
hรก palavras imensas, que esperam por nรณs
e outras, frรกgeis, que deixaram de esperar
hรก palavras acesas como barcos
e hรก palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posiรงรฃoEntre nรณs e as palavras, surdamente,
as mรฃos e as paredes de ElsinoreE hรก palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegรญveis ร boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossรญveis de escrever
por nรฃo termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braรงos dos amantes escrevem muito alto
muito alรฉm do azul onde oxidados morrem
palavras maternais sรณ sombra sรณ soluรงo
sรณ espasmos sรณ amor sรณ solidรฃo desfeitaEntre nรณs e as palavras, os emparedados
e entre nรณs e as palavras, o nosso dever falar
MรRIO CESARINY
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Quand une femme devient indiffรฉrente, vous saurez que vous lโavez perdue. Lร , il nโy a ni colรจre, ni haine, ni amour surtout. Quand lโindiffรฉrence sโinstalle, plus de retour, pas de regrets. Le contraire de lโamour nโest pas la haine, mais lโindiffรฉrence.
Fiodor Dostoรฏevski
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ENTRE O EXCESSO E O NADA
Ele tornou
voou
sempre voltava
deixando-a inundada
de prazer
e luz
a cobrir-se a si mesmo
de gosto
e de prata
Vem meu amor
Disse muito baixo
nรณs somos a queda
entre o excesso
e o nada
Maria Teresa Horta
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CONSTRUรรO
Amou daquela vez como se fosse a รบltima
Beijou sua mulher como se fosse a รบltima
E cada filho seu como se fosse o รบnico
E atravessou a rua com seu passo tรญmido
Subiu a construรงรฃo como se fosse mรกquina
Ergueu no patamar quatro paredes sรณlidas
Tijolo com tijolo num desenho mรกgico
Seus olhos embotados de cimento e lรกgrima
Sentou pra descansar como se fosse sรกbado
Comeu feijรฃo com arroz como se fosse um prรญncipe
Bebeu e soluรงou como se fosse um nรกufrago
Danรงou e gargalhou como se ouvisse mรบsica
E tropeรงou no cรฉu como se fosse um bรชbado
E flutuou no ar como se fosse um pรกssaro
E se acbou no chรฃo feito um pacote flรกcido
Agonizou no meio do passeio pรบblico
Morreu na contramรฃo atrapalhando o trรกfego
Amou daquela vez como se fosse o รบltimo
Beijou sua mulher como se fosse a รบnica
E cada filho seu como se fosse o prรณdigo
E atravessou a rua com seu passo bรชbado
Subiu a construรงรฃo como se fosse sรณlido
Ergueu no patamar quatro paredes mรกgicas
Tijolo com tijolo num desenho lรณgico
Seus olhos embotados de cimento e trรกfego
Sentou pra descansar como se fosse um prรญncipe
Comeu feijรฃo com arroz como se fosse mรกquina
Danรงou e gargalhou como se fosse o prรณximo
E tropeรงou no cรฉu como se ouvisse mรบsica
E flutuou no ar como se fosse sรกbado
E se acabou no chรฃo feito um pacote tรญmido
Agonizou no meio do passeio nรกufrago
Morreu na contramรฃo atrapalhando o pรบblico
Amou daquela vez como se fosse mรกquina
Beijou sua mulher como se fosse lรณgico
Ergueu no patamar quatro paredes flรกcidas
Sentou pra descansar como se fosse um pรกssaro
E flutuou no ar como se fosse um prรญncipe
E se acabou no chรฃo feito um pacote bรชbado
Morreu na contramรฃo atrapalhando o sรกbado
Chico Buarque de Hollanda | Prรฉmio Camรตes
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Adquiri esta regra
(ou nasci com ela) – e รฉ talvez uma moral – mover-me apenas em direcรงรฃo ao que gosto
[Gonรงalo M. Tavares]
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Some people never go crazy. What truly horrible lives they must lead.
[Charles Bukowski]
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O Meu Olhar
O meu olhar รฉ nรญtido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trรกs…
E o que vejo a cada momento
ร aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma crianรงa se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas nรฃo penso nele
Porque pensar รฉ nรฃo compreender…
O Mundo nรฃo se fez para pensarmos nele
(Pensar รฉ estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…
Eu nรฃo tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza nรฃo รฉ porque saiba o que ela รฉ,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que รฉ amar…
Amar รฉ a eterna inocรชncia,
E a รบnica inocรชncia nรฃo pensar…
Alberto Caeiro, in โO Pastor Amorosoโ
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Eu escrevia silรชncios, noites, anotava o inexprimรญvel, fixava vertigens.
Jโรฉcrivais des silences, des nuits, je notais lโinexprimable. Je fixais des vertiges.
ARTHUR RIMBAUD
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O mundo รฉ grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar รฉ grande e cabe na cama e no colchรฃo de amar. O amor รฉ grande e cabe no breve espaรงo de beijar.
Carlos Drummond de Andrade
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Nรฃo quero cantar amores,
Amores sรฃo passos perdidos,
Sรฃo frios raios solares,
Verdes garras dos sentidos.
Sรฃo cavalos corredores
Com asas de ferro e chumbo,
Caรญdos nas รกguas fundas,
nรฃo quero cantar amores.
Paraรญsos proibidos,
Contentamentos injustos,
Feliz adversidade,
Amores sรฃo passos perdidos.
Sรฃo demรชncias dos olhares,
Alegre festa de pranto,
Sรฃo furor obediente,
Sรฃo frios raios solares.
Dรก mรก sorte defendidos
Os homens de bom juรญzo
Tรชm nas mรฃos prodigiosas
Verdes garras dos sentidos.
Nรฃo quero cantar amores
Nem falar dos seus motivos.
GARRAS DOS SENTIDOSย
Agustina Bessa Luรญs
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Murielย |ย Ruy Beloย |ย dito por Luรญs Miguel Cintra
VIDEO
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DIANA VISHNEVA
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Imagine there’s no heaven
It’s easy if you try
No hell below us
Above us only sky
Imagine all the people living for today
Imagine there’s no countries
It isn’t hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people living life in peace, you
You may say I’m a dreamer
But I’m not the only one
I hope some day you’ll join us
And the world will be as one
Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or โฆ
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Devia morrer-se de outra maneira | Josรฉ Gomes Ferreira
Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentรญssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhรฃs, convocarรญamos
os amigos mais รญntimos com um cartรฃo de convite
para o ritual do Grande Desfazer: “Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
ร s 9 horas. Traje de passeio”.
E entรฃo, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimรดnia, virรญamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mรฃos quentes. Ternura de calafrio.
“Adeus! Adeus!”
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidรฃo de arrancar raรญzes…
(primeiro, os olhos… em seguida, os lรกbios… depois os cabelos… )
a carne, em vez de apodrecer, comeรงaria a transfigurar-se
em fumo… tรฃo leve… tรฃo sutil… tรฃo pรณlen…
como aquela nuvem alรฉm (vรชem?) โ nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lรกbios azuis …
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Fernando Pessoa | O poeta รฉ um fingidor
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J.C. Bach โCara, la dolce fiammaโ | Philippeย Jaroussky
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A Justiรงa das Multidรตes
Charles Baudelaire utilizou expressรตes “goรปt de la vengeance” (gosto da vinganรงa) e do “plaisir naturel de la demolition” (prazer natural da destruiรงรฃo) , para classificar as atitudes das multidรตes.
CARLOS MATOS GOMES
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“Nรฃo sรณ vos comeis uns aos outros, senรฃo que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrรกrio, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, nรฃo bastam cem pequenos, nem mil, para um sรณ grande.”
Padre Antรณnio Vieira, 1654