A Ética de Spinoza pode ser vista como um mapa: uma carta do mundo e da mente humana, por Marcos Bazmandegan

A Ética de Spinoza é um hipertexto. Um livro dinâmico, labiríntico, com inúmeras referências internas e quase nenhuma referência externa. Pretende ser um sistema fechado e infinito, imanente, autorreferencial.

Spinoza não remete o leitor para fora do texto, para outros autores ou obras. Continuamente remete para o próprio texto, para as definições e proposições anteriores que são premissas e pressupostos de outras proposições. A complexidade estrutural da Ética exprime a própria complexidade do universo, na sua teia de relações e afeções.

Na imagem abaixo vemos graficamente essa teia de relações que se estabelecem entre as cinco partes da Ética. Este mapa digital foi realizado por John Bagby, um estudante de doutoramento da Universidade de Boston e procura apresentar a estrutura argumentativa da Ética de Spinoza.

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Marguerite Yourcenar in “De olhos abertos”

Acredito que a amizade, como o amor do qual participa, exige quase tanta arte como uma figura de dança bem conseguida.

É preciso um grande entusiasmo e uma grande contenção, muitas trocas de palavras e muitos silêncios.

E, sobretudo, muito respeito. O sentimento da liberdade do outro, da dignidade do outro, a aceitação, sem ilusões, mas também sem a menor hostilidade ou o mínimo desprezo, de um ser tal como ele é.

La formulación de la ética en Spinoza y Lao Tsé, by Matías Soich | updates@academia-mail.com

El trabajo se propone desarrollar sucintamente la notable y poco explorada convergencia entre la doctrina de Spinoza y el taoísmo filosófico chino, tal como Lao Tsé lo inaugurara en el Tao Te King alrededor del siglo V a.C.

A fin de iluminar la cuestión es conveniente distinguir los dos grandes “momentos” de la Ética demostrada según el orden geométrico: por un lado, el “momento metafísico”, en el que se despliega la definición de Dios/Substancia como principio ontológico absoluto, único, eterno e infinito, existente en y por sí por la necesidad de su esencia, causa de la esencia y la existencia de la totalidad del universo.

Por otro lado el “momento ético”, consecuencia lógica del anterior, ya que la ética sólo tiene sentido para el ser humano como realización metafísica de su ethos particular. Esta realización no puede tener lugar sin un conocimiento adecuado de la potencia singular del hombre, que requiere a su vez el conocimiento de la potencia divina. La noción de conatus (como identificación de potencia y esencia) resulta aquí el nexo clave que habilita el pasaje de un “momento” a otro. A través de una exposición resumida de la doctrina taoísta intentaremos entonces mostrar que ésta comparte intuiciones fundamentales con el spinozismo en los dos momentos ya señalados.

Por una parte, su concepción metafísica del principio ontológico supremo (Tao) es muy similar a la spinoziana; por otra parte, también el taoísmo postula la paridad potencia/naturaleza en su concepto de Virtud (Te). Esto le permite derivar, partiendo de la ontología general, una ética de lo particular (humano), de la misma manera en que lo hiciera Spinoza siglos después.

SPINOZA E A LIBERDADE | por Marcos Bazmandegan

Spinoza contrapôs a Liberdade Humana (tema da Ética V) à Servidão Humana (tema da Ética IV), definindo servidão como a “impotência humana para regrar e reprimir os afectos.” (E4, pref.). Onde logo acrescenta: “o homem sujeito aos afectos não está sob jurisdição de si próprio, mas da fortuna, em poder da qual está de tal maneira que, apesar de ver o melhor para si, é, no entanto, amiúde coagido a seguir o pior.” (E4, pref.).

A servidão é, portanto, a nossa impotência de agir face à coação de causas externas contrárias à razão, que determina aquilo que é mais útil à conservação do nosso ser. Por sermos parte da natureza, limitados e superados pela potência das causas exteriores, sofremos, isto é, estamos submetidos à servidão dos afectos e necessariamente sujeitos às paixões. A servidão é, deste modo, uma condição humana universal. 

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Edição comemorativa da Ética de Aristóteles

António de Castro Caeiro assina a tradução, o prefácio, as notas e o glossário

Lisboa, 16 de abril de 2024 – Vinte anos depois da primeira edição, a Quetzal
volta a publicar a tradução integral de Ética a Nicómaco, um dos textos fundamentais de Aristóteles e da cultura ocidental, pela mão de António de Castro Caeiro, responsável também pelo prefácio, pelas notas e pelo glossário. Esta é uma edição especial, de capa dura e com uma reprodução integral do fresco Escola de Antenas, de Rafael, dos Museus do Vaticano.
Ética a Nicómaco trata da felicidade como projeto essencial do ser humano. Das virtudes, da sensatez, do que se pode e do que se deve fazer. Trata da possibilidade de se existir de acordo com as escolhas que fazemos. De se ser autónomo, de viver com gosto. Trata da procura do prazer pelo prazer – e do prazer pela honra. Da justiça. Das formas de vida que levam à felicidade. Da procura do amor. Temas dominantes no pensamento universal.
«Cabe a cada um contribuir para que os seus próprios filhos e amigos obtenham uma orientação em direção à excelência, ou pelo menos para se decidirem nessa direção», defende Aristóteles, ciente dos desafios de uma vida plenamente feliz: «É difícil responder a todas as situações no dia a dia com gentileza, suavidade, serenidade, tranquilidade.»
A nova edição de Ética a Nicómaco fica disponível a 18 de abril.

Ética, Baruch de Espinosa | Tradução de Diogo Pires Aurélio, Edição bilíngue, 640 p.16 x 23 cm, ISBN 978-65-5525-173-9, 2024 – 1ª edição

Baruch de Espinosa, ou Spinoza (1632-1677), nasceu em Amsterdã, filho de pais judeus emigrados de Portugal. Aos 24 anos, por suas opiniões pouco ortodoxas, foi expulso da sinagoga da cidade e acabou se mudando para Haia, onde publicou duas obras em vida: os Princípios da filosofia de Descartes (1663) e o Tratado teológico-político (1670), este editado de forma anônima. Sua obra magna, a Ética demonstrada segundo a ordem geométrica, só veio à luz no final de 1677, após a sua morte, com a publicação, por amigos, das Opera Posthuma, tendo logo entrado para o Index da Inquisição.

Constituída de cinco partes — “De Deus”, “Da natureza e da origem da mente”, “Da origem e da natureza dos afetos”, “Da servidão humana, ou das forças dos afetos” e “Da potência do entendimento, ou da liberdade humana” — e abordando questões de ontologia, epistemologia, física e psicologia, a Ética acabou se tornando uma das obras mais influentes do pensamento ocidental, sendo debatida apaixonadamente até os dias de hoje.

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ALTA CULTURA: LUXO OU NECESSIDADE?

O que é Alta Cultura? Qual a missão desta página (no Facebook)? Pareceria, dado a adjetivação, que pretendemos hierarquizar diferentes culturas arbitrariamente, um apelo etnocentrista ou “elitista”, com algum viés ideológico ou religioso. Mas não se trata disso. A página não tem qualquer finalidade ou compromisso político e ideológico.

Matthew Arnold, poeta e crítico britânico, em seu célebre ensaio “Cultura e Anarquia”, publicado em 1865, definiu ‘alta cultura’ como “o melhor do que uma sociedade pensou e falou”. 

No uso popular, o termo “alta cultura” identifica a cultura da classe alta (a antiga aristocracia), ou de uma classe de status (como a intelligentsia – elite intelectual); ou, ainda, e o principal, segundo o filósofo britânico e especialista em estética, Sir Roger Scruton, “o conjunto de produções culturais, principalmente artísticas, realizadas por meio de grande apuro técnico, levando em conta a tradição e a beleza”.

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MAIMÓNIDES E SPINOZA | por Marcos Bazmandegan

Moisés Maimónides é considerado o maior filósofo judeu medieval e, por muitos, o maior da filosofia hebraica.

A sua obra Guia dos Perplexos (Moreh Nebuchim em hebraico) é a obra de referência da filosofia judaica e na Idade Média marcou não só pensadores judeus como também cristãos, entre eles Alberto Magno e Tomás de Aquino. Conhecido pela sua teologia negativa, tentou racionalizar o conteúdo bíblico, afastando os crentes de uma imagem antropomórfica de Deus (um Deus à semelhança do Homem).

Valorizou a filosofia de Aristóteles e tentou conciliá-la com a teologia hebraica. Nasceu em Córdoba (Espanha), onde encontramos esta estátua, mas teve de partir para o Egipto, onde se tornou o médico do sultão, o famoso Saladino.

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Harry A. Wolfson, The Philosophy of Spinoza

“Os atributos são apenas palavras diferentes que expressam a mesma realidade e o mesmo ser da substância.”

“Spinoza explica claramente que por atributos infinitos, ele não entende um número infinito de mundos independentes, mas sobretudo um número infinito de aspetos de um só e único universo infinito, análogo à conceção medieval de atributos infinitos de Deus.”

Para os Spinozistas | Marcos Bazmandegan

Se o pensamento e a extensão são atributos divinos reais (e não existem somente na mente humana), porquê o Homem, enquanto parte e expressão de Deus/Todo/Substância, apenas expressa e é constituído por apenas 2 atributos (pensamento e extensão) e não por todos os outros na mesma proporção?

O que entende Spinoza por infinitos atributos? Quer significar apenas “poder ilimitado” ou está a afirmar que Deus/Substância/Natureza expressa-se de infinitas maneiras, tão diferentes entre si como são a extensão e o pensamento? Se assim for (de acordo com esta última interpretação), então qual a razão ou causa próxima para o Homem ser apenas constituído por 2 desses infinitos atributos?

Deixem a vossa opinião nos comentários.

AULA ABERTA | Introdução ao Pensamento de Spinoza | Midrash Centro Cultural | Prof.ª Mariana Monteiro

Doutora em Sociologia e Direito da Universidade Federal Fluminense, mestre em Direito Constitucional e Teoria do Estado pela PUC-Rio e graduada em Direito pela PUC-Rio/UniFMU-SP. É professora do curso de aperfeiçoamento em filosofia para o vitaliciamento e promoção na carreira de juiz da Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro (EMERJ) e no curso de graduação em Direito da Universidade Gama e Souza. Professora de cursos livres de filosofia da Casa do Saber.

Spinoza : la droite manière de vivre | Parole de philosophe

Comment mettre en pratique les principes de vie que nous enseigne Spinoza ? À la fin de la 4ème partie de L’Éthique, Spinoza a écrit un résumé simplifié de sa philosophie, une sorte de manuel facile à mémoriser, afin que chacun puisse l’utiliser dans sa vie quotidienne. C’est ce précis de philosophie spinoziste que nous allons étudier dans cet épisode.

Spinoza : qui est Dieu? | Parole de philosophe

Nous poursuivons notre étude complète de la philosophie de Spinoza avec la question : “Qui est Dieu ?”. Dans la 1ère partie de L’Éthique, Spinoza propose une conception de Dieu radicalement différente de celle que nous en avons traditionnellement. Cette conception de Dieu, souvent réputée comme la partie plus complexe de la pensée de Spinoza, est ici expliquée simplement.

O filme “Morte em Veneza” | por Victor Oliveira Mateus

O filme “Morte em Veneza”, que fez a minha geração embandeirar em arco, e que hoje é varrido para debaixo do tapete com aquele pudor hipócrita que a ignorância sempre traz. Esse filme é um magistral levantamento da dualidade ético-epistemológica que sempre tem lavrado na cultura ocidental.

W. K. C. Guthrie, na sua magistral História da Filosofia Grega em 6 volumes, não se coíbe em afirmar que o Pensamento Ocidental, ao longo dos séculos, não tem sido mais do que um confronto entre Platão e Aristóteles. Ou seja: entre o primado da Alma, do racional, com a subsequente subalternização dos sentidos ou, até mesmo, a sua recusa, e o encumear dos sentidos, com a respetiva secundarização do intelecto.

Este é o tema central do filme de Visconti, bem como do conto homónimo de Thomas Mann. Logo no início da película assistimos à estreia de uma Sinfonia de Aschenbach, que é, depois, incrivelmente pateada. No diálogo que se segue, um dos grandes amigos do maestro grita-lhe dizendo que o insucesso que ele acabara de experimentar era mais do que merecido, já que ele criara uma sinfonia puramente racional (geométrica?), de onde os sentidos tinham sido abolidos, isto é, Aschenbach desenvolvera a tese pitagórica (convém não esquecer que Kepler e Einstein não andaram muito longe de correspondências análogas!) da correspondência entre os números e as nota musicais, urge também referir, aliás, que em Platão o conhecimento matemático funcionava como uma mera propedêutica ao saber filosófico.

Esta relação matemática/ filosofia vigora ainda hoje em algumas Escolas filosóficas! O amigo de Aschenbach salta, então, para o piano e ataca uns acordes, continuando a gritar que a obra de arte, a Beleza, não pode ignorar os sentidos, as emoções.

Esta situação dilemática atravessou, e atravessa, toda a nossa cultura: na literatura podemos encontrá-la em Stefan Zweig (Confusão dos sentimentos), Hermann Hesse (Narciso e Goldmund), Julien Green (Terre Lointaine), etc. No entanto, este tema não aparece só na literatura assumidamente homoerótica ou, como é o caso no conto de Mann, naquela outra em que a heterossexualidade de uma personagem sofre um qualquer abanão (Veja-se o filme “Oito mulheres” de Ozon), podemos encontrar esta temática, por exemplo, no cinema: em “Para além das Nuvens” de Antonioni, vemos que Kim Rossi Stuart sofrendo de uma paixão avassaladora por Chiara Caselli, depois de muito peregrinar e quando se encontrou, finalmente, a sós com ela num quarto, não deixou que a sua mão tocasse o corpo nu da amada (que o conspurcasse?): a mão aproxima-se e, a uns 3/4 centímetros da pele daquela porque tanto ansiara, a dita mão recolhe-se, e Rossi Stuart abandona o quarto abruptamente, fugindo rua afora.

Esta recusa do corpo é exatamente a mesma que esteve na base da surpresa de Alcibíades, que, segundo os historiadores, era extremamente belo e nada – mulher ou homem – lhe escapava, mas que “agora” não entendia como é que aquele velho feio e imundo (Sócrates) tinha dormido a seu lado e nem sequer lhe tocara (Cf. final do “Banquete”).

Esta linha de raciocínio e comportamental podemos encontrá-la ainda hoje, passando por obras como, por exemplo, “Estudios sobre el amor” de Ortega y Gasset. Se por um lado temos todos estes quadros mentais, por outro acena-nos Aristóteles com o seu privilegiar dos sentidos, embora depois, reconheçamos, os ideais de Felicidade e de AMIZADE (tão necessária àquela!) já não tenham nada a ver com o sensorial.

Esta tentativa de vivenciar o aristotelismo no quotidiano foi sempre marcada por um certo insucesso, e nem a afirmação de Averróis de que a alma era mortal e que, de facto, havia um intelecto, mas que este era uno e partilhado por toda a espécie… nem sequer esse averroísmo latino conseguiu singrar, que o digam Sigério de Brabante exilado na corte papal e depois estranhamente assassinado, bem como um Boécio incansavelmente perseguido.

Aristóteles – e o averroísmo latino – passaram a vigorar, sim, mas através da leitura de Tomás de Aquino. Os sentidos contavam, mas vigiados pela razão!

Claro que encontramos grandes exceções: Sade, Condillac… e contemporaneamente Miller, Genet e Tony Duvert, mas tudo isso não passa de exceção (Duvert, que tem um livro em português traduzido pela Luiza Neto Jorge, não encontra hoje, em França, quem o publique!).

É com este dilema que Aschenbach, e após a morte da filha, parte para Veneza, para o Lido. Aí, nessa solidão procurada, o Destino coloca-o à prova! O tal corpo belo, que Platão, no Fedro, afirma só servir de ponto de partida e deve ser imediatamente afastado, o tal corpo belo atenaza-lhe diariamente “o coração”. Coração esse que o matará!

Repare-se em toda a simbologia! É confrangedora a cena em que Aschenbach, no barbeiro, tenta o “alindar do corpo”. Não restam dúvidas que a atração do maestro é correspondida, mas não restam também dúvidas que ela, para permanecer, deve ser irrealizável e com a distância de permeio.: o Absoluto, onde o amor (incorpóreo) fusional se pode concretizar só é passível de ser encontrado no para-lá-do-aqui, por isso no final do filme Tadzio levanta o braço e aponta o horizonte.

Será interessante incorporar aqui algumas leituras como, por exemplo, os místicos do século XVI: quem ler “Os caminhos da Perfeição” de Teresa d’Ávila e “A subida ao Carmelo” de S. João da Cruz verá que não se está assim tão longe de Mann, de Visconti e do “Morte em Veneza”.

Notas

a) quando refiro obras que privilegiam os sentidos não refiro certos pseudo-decadentismos que andam por aí, pois as caricaturas não são a minha especialidade, isto caso eu tenha alguma;

b) não referi propositadamente o “Teorema” de Pasolini, e outros trabalhos dele, pois em breve sairá um artigo meu sobre o tema nesse autor;

c) convém não esquecer também, no filme, as interpretações de Silvana Mangano e de Marisa Berenson

d) quanto a Tony Duvert, a primeiro livro que li dele, era eu menino e moço, e andava com a cunhada do Ricardo Pais pela feira do livro de Madrid, quando comprei o “Diario de un inocente”: ia tendo um enfarte.

SPINOZA, LEITOR DE MAQUIAVEL | por Marcos Bazmandegan, in Facebook

Em termos políticos e não só, Spinoza foi um leitor atento de Maquiavel e Hobbes. Contudo, era para Maquiavel que a sua admiração se voltava. Chamando-o de “agudíssimo” e “prudentíssimo” em seu Tratado Político, última obra da sua vida que não pôde completar. A visão política de Maquiavel não se fundava numa visão utópica da natureza humana, mas na realidade do que ela é, com as suas paixões e ambições, forças e fraquezas. Uma política realista deveria ser feita em função dessa perspetiva de humanidade e não daquelas idealizadas por Platão, Aristóteles e pelos moralistas posteriores.

De certo modo, Spinoza transferiu essa mesma noção, não só para a sua política, mas também para a sua metafísica. Ou melhor, construiu uma metafísica que fundamentasse essa visão política totalmente realista e atenta ao ser humano real e não imaginário. 

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GIORDANO BRUNO (1548-1600) | in temposdecolera.blogs.sapo.pt

A 8 de Fevereiro, Giordano foi publicamente degradado e excomungado do seio da Igreja. De pés descalços, ajoelhado, com a cabeça inclinada para o chão, ele ouviu, perante a assembleia solene dos cardeais, inquisidores e teólogos, presidida pelo papa e pelo governador de Roma, o veredicto há tanto tempo esperado. Seria queimado vivo, no Campo dei Fiori, oito dias mais tarde.

Erguendo-se em desafio, no fim da sentença, gritou alto e forte: «Vós que pronunciais essa sentença, estareis porventura mais assustados do que eu que a cumprirei.»

Uma última vez, era-lhe dado a exprimir a noção de reviravolta, que invertia os papéis. Gelou o sangue nas veias dos acusadores. Como Acteon, ao surpreender a divindade, já não tinha de procurá-la fora de si próprio.

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NATUREZA E PODER: GIORDANO BRUNO E SPINOZA |  de Saverio Ansaldi

Existe sem dúvida entre Giordano Bruno e Spinoza uma “afinidade eletiva” que vai além de qualquer tentativa de estabelecer uma filiação filológica ou uma derivação textual entre os dois autores. Com efeito, independentemente de uma certa “convergência” biográfica (perseguição por parte de autoridades políticas e religiosas, exílio, reputação sulfurosa dos escritos), Giordano Bruno e Spinoza partilham questões filosóficas e questões de grande importância conceptual.

Com efeito, para além de uma hermenêutica de origem idealista e historicista que pretende sublinhar uma forte homogeneidade conceptual entre Giordano Bruno e Spinoza, parece-nos que estes dois autores procuram responder à mesma e extremamente precisa questão: quais são as consequências antropológicas da infinitização da natureza? Esta questão é, por assim dizer, imanente aos temas e tensões que regem as suas respectivas filosofias e ao mesmo tempo está implícita nos conteúdos e debates que caracterizam a cultura filosófica do seu tempo.

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BARUCH SPINOZA | Tratado da Reforma do Entendimento

Baruch (de) Espinoza (em hebraico, ברוך שפינוזה), também referido como Baruch (de) Espinosa ou Baruch Spinoza[1][2] ou, ainda, na literatura em português, como Bento (de) Espinosa e, após o herem de 1656, como Benedictus de Spinoza [3] (Amsterdão24 de novembro de 1632 – Haia21 de fevereiro de 1677[4]foi um filósofo de origem judaico-portuguesa, nascido nos Países Baixos, filho de uma família perseguida pela inquisição, em Portugal, que se refugiara na Sinagoga Portuguesa de Amsterdão.[5][6]

Um dos primeiros pensadores do Iluminismo[7] e da crítica bíblica moderna,[8] incluindo das modernas concepções de si mesmo e do universo,[9] ele veio a ser considerado um dos grandes racionalistas da filosofia do século XVII.[10] Inspirado pelas ideias inovadoras de René Descartes, Spinoza se tornou uma figura filosófica importante da Idade de Ouro Holandesa. O nome de batismo de Spinoza, que significa “Bem-aventurado”, varia entre as diferentes línguas. Em hebraico, seu nome completo é escrito ברוך שפינוזה. Na Holanda, usava o nome português Bento.[11] Em suas obras em latim e em holandês, usava a forma latina desse nome, Benedictus.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Baruch_Espinoza

O segredo de Espinosa | por Paulo Rezzutti

Ele foi um dos filósofos mais importantes do período barroco. Suas ideias eram tão revolucionárias que ele foi perseguido tanto por católicos quanto por judeus. Mas isso não adiantou, a sua filosofia acabou influenciando até pensadores do século 20. Tudo isso sem nunca ter ensinado numa universidade, porque ele não queria perder a independência de seu pensamento.

El Estado nació de la violencia! Maquiavelo, Hobbes, Spinoza, Locke VII Filosofía moderna

El estado nació de la violencia, de la necesidad de regular el caos y la anarquía. Así el estado se convierte en el único que puede ejercerla por el bien de los individuos. La filosofía política como la conocemos actualmente tiene sus orígenes en cuatro autores muy importantes: Maquiavelo, Hobbes, Spinoza, Locke.

Albert Einstein, de uma entrevista de 1929 com George Sylvester Viereck

Sou determinista. Como tal, não acredito no livre-arbítrio. Os judeus acreditam no livre arbítrio. Acreditam que o homem molda a sua própria vida. Rejeito filosoficamente esta doutrina. A este respeito, não sou judeu… Acredito com Schopenhauer: podemos fazer o que queremos, mas só podemos desejar o que devemos. Na prática, porém, sou obrigado a agir se existisse liberdade de vontade. Se quero viver numa comunidade civilizada, tenho de agir como se o homem fosse um ser responsável. “Não estou reivindicando nada. Tudo é determinado, começo e fim, por forças sobre as quais não temos controle. É determinado para o inseto, bem como para a estrela. Pó humano, vegetal ou cósmico, todos dançamos ao som de uma melodia invisível, cantada ao longe por um jogador misterioso. “Sou artístico o suficiente para explorar a imaginação livremente. A imaginação é mais importante do que o conhecimento. O conhecimento é limitado. A imaginação rodeia o mundo.”

~ Albert Einstein, de uma entrevista de 1929 com George Sylvester Viereck. (Albert Einstein por Lotte Jacobi.)

A filosofia genial de Carl Jung (O VIDEO DO ANO)

O que diferencia os humanos dos outros animais? Biologicamente, temos hardware semelhante ao de outros animais, como chimpanzés e gorilas. Braços, pernas, olhos, ouvidos, cérebro, etc. Também temos o mesmo sistema operacional de instintos básicos que outros animais que nos dizem o que fazer. Procuramos instintivamente por comida, encontramos um companheiro para procriar e buscamos a companhia de outras pessoas. Então, se o hardware e o sistema operacional são iguais ou muito semelhantes aos de nossos parentes mais próximos, como símios, macacos e até mamíferos, então o que nos torna humanos? A resposta está no software ou na nossa psicologia, mas mais especificamente na nossa capacidade de contar histórias. Carl Jung, o genial psicanalista suíço, olhou para humanos de diferentes culturas e continentes e descobriu algo extraordinário. Todos nós temos mitos e histórias muito semelhantes, religiosos e não religiosos.

Elsa Morante (8 de agosto de 1912 – 25 de novembro de 1985) | Foto Marta Zgierska – Asilo

O erotismo é uma afirmação espontânea da vida e um elemento vital da substância humana.

E não pode ser tratado como um sujeito desprezível quando a integridade da pessoa humana é respeitada.

O vício de certas sociedades e religiões é que cortaram a pessoa humana em duas, declarando-a meio nobre e metade desprezível.

E tivemos de esperar até às vésperas da era atómica para que a ciência proclamasse esta realidade: que também a frustração do erotismo, tal como o sono da razão, gera monstros.

Frederico Lourenço | Uma lasanha com Horácio

A trindade dos poetas supremos da Antiguidade está claramente identificada numa passagem dos «Poemas Lusitanos» de António Ferreira (contemporâneo de Camões), obra publicada postumamente em 1598. Os nomes são três: Homero, Vergílio e «Horácio, a quem obedeço». É evidente que nenhum poeta consegue competir com Homero e Vergílio, que são os dois vultos inigualáveis da história da literatura. Horácio chega-lhes perto, mas fica sempre aquém – a não ser numa coisa. A poesia de Horácio dá-nos a ver e a sentir aquilo que procuraremos sempre em vão na epopeia homérica e vergiliana: a vida real, contemporânea do poeta.

Horácio é uma janela aberta sobre a Roma do tempo dele. Sobre Roma entendida em termos políticos, sem dúvida: afinal, ele conheceu pessoalmente protagonistas da história de Roma como: Bruto, assassino de Júlio César; o imperador Augusto; Mecenas, o grande patrocinador dos poetas; o futuro imperador Tibério. Foi amicíssimo de Vergílio. Mas a janela que Horácio nos abre é também sobre a Roma real, da vida real.

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Franz Kafka (1883-1924) | História em francês

À 40 ans Franz Kafka (1883-1924) qui ne s’est jamais marié et n’avait pas d’enfants, se promenait dans le parc de Berlin quand il rencontra une petite fille qui pleurait parce qu’elle avait perdu sa poupée préférée. Elle et Kafka ont cherché la poupée sans succès.

Kafka lui a dit de le rencontrer le lendemain et ils reviendraient la chercher. Le lendemain, quand ils n’avaient pas encore trouvé la poupée, Kafka donna à la petite fille une lettre “écrite” de la poupée qui disait : ” S’il te plaît ne pleure pas. J’ai fait un voyage pour voir le monde. Je vais t’écrire sur mes aventures.” C’est ainsi que commença une histoire qui se poursuit jusqu’à la fin de la vie de Kafka.

Lors de leurs rencontres, Kafka lisait les lettres de poupée soigneusement écrites avec des aventures et des conversations que l’enfant trouvait adorables. Enfin, Kafka lui ramena la poupée (en acheta une) qui était de retour à Berlin. “Elle ne ressemble pas du tout à ma poupée”, dit la petite fille.

Kafka lui a remis une autre lettre dans laquelle la poupée écrivait : “mes voyages m’ont changée.” La petite fille a embrassé la nouvelle poupée et l’a ramené toute heureuse à la maison.

Un an plus tard, Kafka est mort. Plusieurs années plus tard, la petite fille désormais adulte a trouvé une lettre dans la poupée. Dans la minuscule lettre signée par Kafka, il y avait écrit : “Tout ce que tu aimes sera probablement perdu, mais à la fin l’amour reviendra d’une autre façon.” | Lu dans Ferré Baudelaire …

Frases | Bento de Espinosa

1 – O máximo de liberdade que o ser humano pode aspirar é escolher a prisão no qual quer viver!
A liberdade é uma abstração!
Diga-me qual é a sua tribo e eu direi qual é a sua clausura!
Só há liberdade se sua vida for produzida por você mesmo. | Baruch Spinoza

2 – Se o conhecimento estivesse ao alcance da mão e pudesse ser encontrado sem qualquer dificuldade, seria certamente negligenciado. Tudo que é nobre é tão difícil quanto raro. | Baruch Spinoza

3 – A mente humana é parte do intelecto infinito de Deus. | Baruch Spinoza

A Filosofia de Bento de Espinosa | Deus ou seja a natureza | Spinoza e os novos paradigmas da Física | Roberto Leon Ponczek

Ficheiro PDF completo (352 páginas) no final do artigo

Segundo Goethe:
Esse homem que me modificou tão maravilhosamente e que estava destinado
a afetar de forma tão profunda o meu modo inteiro de pensar, era Espinosa
(…) Depois de procurar em vão por todo o mundo um meio para desenvolver
a minha natureza, deparei-me com a Ética desse filósofo (…) Na Ética encontrei apaziguamento para minhas paixões; pareceu-me que se abria ante meus olhos uma visão ampla e livre sobre o mundo físico e moral. A imagem deste mundo é transitória; desejaria ocupar-me somente das coisas duradouras e conseguir a eternidade para meu espírito, de acordo com a doutrina de Spinoza.
.
Ponczek_Deus ou seja a natureza.pmd 24/8/2009

DEUS OU SEJA A NATUREZA
O filósofo existencialista Karl Jaspers, a menos de um “quase”, também
deixa poucas dúvidas quanto a sua admiração por Spinoza:
Em Spinoza a visão intelectual do universo apresenta-se, de um só golpe,
quase perfeita.

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Sócrates y Platón | Serie Documental: Filosofía | Episodio 02 | Estamos filosofando

Presentamos Sócrates y Platón. El segundo episodio 02 de la serie documental de historia de la filosofía. Incluye: 0:00 Títulos 0:22 Introducción a los clásicos 8:05 El método socrático 14:30 ¿Qué es el bien? 20:13 El juicio de Sócrates 31:53 Diálogos de Platón 41:12 Mitos de Platón 46:46 Alegoría de la caverna 53:47 Las ideas de Platón 59:32 Crítica al mundo de las ideas 01:04:02 Amor platónico 01:10:04 Amor según Platón 01:15:39 El alma y el carro alado 01:21:49 Filosofía política de Platón 01:29:40 La cosmología de Platón

Los Presocráticos | Serie Documental: Filosofía | Episodio 01 | Estamos filosofando

Presentamos Los Presocráticos. El primer episodio 01 de la serie documental de historia de la filosofía. Incluye: 0:00 Introducción 0:37 Qué es la filosofía 5:48 ¿Por qué la filosofía comienza en Grecia? 12:30 Introducción a los presocráticos 18:27 Los jonios: Tales de Mileto, Anaximandro, Anaxímenes. 25:28 Pitágoras y los pitagóricos 35:08 Parménides y los eleatas 46:50 Heráclito 57:50 Los atomistas: Demócrito y Leucipo 01:10:20 Los pluralistas: Empédocles y Anaxágoras 01:21:44 Los sofistas. 01:30:21 Dialéctica de los presocráticos según Hegel

A ETERNIDADE DAS ALMAS NA FILOSOFIA DE SPINOZA | L’ÉTERNITÉ DES ÂMES DANS LA PHILOSOPHIE DE SPINOZA | Victor Brochard

Original em francês no URL colocado no final do texto.

Os historiadores não concordam sobre o significado e o alcance que
deve ser atribuído à doutrina da eternidade das almas exposta no segundo
metade da quinta parte da Ética.
Que não seja sobre imortalidade
no sentido vulgar da palavra, é o que está expressamente atestado no próprio texto da Proposição XXI, onde a memória e a imaginação são consideradas
ligada à vida presente. Além disso, é indubitável que a existência da alma em
sua relação com a duração cessa com a do corpo. A eternidade da alma afirmada por Spinoza é atribuído apenas à essência e, ao longo desta última parte
da Ética, é apenas da essência oposta à existência que é pergunta.

Mas como devemos compreender esta eternidade da essência?

Pudermos à primeira vista, fique tentado a acreditar que se trata de uma eternidade completamente impessoal, mais ou menos análogo ao que Aristóteles atribui ao intelecto ativo que vem
iluminar a alma humana por um tempo sem deixar de pertencer à divindade, ou
novamente como a centelha do fogo divino que, segundo os estóicos, ilumina um instante
a alma humana e, na morte do corpo, reúne-se com o fogo universal. Também pode
ser tentado a acreditar que esta essência eterna, oposta à existência em
duração, é em última análise reduzida a uma pura possibilidade.

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Nietzsche (I): La vida de un filósofo atormentado | La March

Diego Sánchez Meca, director de la edición castellana de las Obras Completas de Nietzsche y catedrático de Filosofía Contemporánea en la UNED, analiza la vida de Friedrich Nietzsche. Destaca su trayectoria tumultuosa, el rechazo académico, las enfermedades crónicas y los traslados constantes. Se abordan aspectos como la ruptura con Wagner, su estilo de escritura aforístico y el culto distorsionado que se formó después de su muerte, vinculándolo erróneamente con el nacionalismo y el nazismo.

Epicuro y algunos epicúreos | Carlos García Gual

En la segunda conferencia del ciclo “La filosofía helenística. La búsqueda de la felicidad”, el académico, traductor, ensayista y catedrático emérito de Filología Griega, Carlos García Gual, expone la figura del filósofo ateniense Epicuro –nacido en Samos en torno al 341 a. C.– y presenta las líneas fundamentales del epicureísmo, cuya práctica estaba orientada a la búsqueda de la felicidad individual mediante el gozo de las alegrías cotidianas y los placeres serenos y naturales. En su origen la escuela de Epicuro se desarrolló como un círculo de reunión en torno a la amistad y la sabiduría. “El combate contra el escepticismo, de un lado, y contra el determinismo, por otro, es una clara apuesta por la libertad, y el amor a la ciencia es un rechazo de las dudas y terrores de la superstición”, afirma el conferenciante sobre este sistema de pensamiento. En la segunda parte de la sesión se analiza la pervivencia de Epicuro a través de cuatro de sus seguidores: Lucrecio, Filodemo de Gadara, Diógenes de Enoanda y Diógenes Laercio.

Spinoza: ¡No era panteísta! | Dios o Naturaleza | VII Filosofía moderna 07 | T07 E07

En este video presentaremos una guía a la obra fundamental de Spinoza: la ética demostrada según el orden geométrico, expondremos su frase Dios o naturaleza, mostraremos cómo no era un filósofo panteísta así como su ética y teoría de los afectos. | 0:00 Introducción 9:23 Ontología 24:23 Problema mente-cuerpo 27:13 Teoría del conocimiento 31:31 Ética y teoría de los afectos 36:49 La servidumbre humana 39:17 Intuición y amor a Dios 47:14 Qué leer y créditos

En 1967, Jean-Paul Sartre et Simone de Beauvoir se racontent à la télévision canadienne

En 1967, Radio-Canada produit en exclusivité ce documentaire et le diffuse à l’émission Dossier du 28 mars 1967. Jean-Paul Sartre et Simone de Beauvoir expliquent leurs pensées et racontent leurs vies d’intellectuels parisiens aux journalistes et amis Claude Lanzmann et Madeleine Gobeil. Un document historique unique sur un couple mythique.

Spinoza. Wittgenstein. Freud. Um olhar em perspetiva | Marcos Bazmandegan

Ler Spinoza à luz de Wittgenstein: a grande questão de Wittgenstein pela existência de uma ordem a priori na natureza e se sim, qual. Todo o questionamento sobre a linguagem visava responder a esta pergunta. E a conclusão de que estamos presos à linguagem, que ela é miragem que nos possibilita conceber o inexistente, questionar pelo inquestionável. Wittgenstein deixa-nos uma chave de leitura para todas as proposições da Ética de Spinoza. Eis um caminho infindável de análise. Outro: Freud e o método psicanalítico. Outra chave, uma chave mestra. Com ela podemos ler o Spinoza e também o Spinoza lido depois de Wittgenstein, porque também podemos analisar Wittgenstein através dos olhos de Freud. E depois, analisar Freud e analisar a própria psicanálise freudiana à luz das suas relações com Deus, o judaísmo e o pai e voltar a Spinoza.

E se deitássemos Spinoza no divã de Freud? E se interpretássemos a sua vida e pensamento à luz do método psicanalítico? Qual seria uma possível leitura psicanalítica do seu Deus sive Natura, quando sabemos que Deus está relacionado com a figura paterna e a Natureza com a materna? Como compreender a rutura com o Judaísmo após a morte do seu pai e qual o impacto que a morte prematura da mãe teve no relacionamento com o feminino, na sua vida e na sua obra? Como compreender a sua atividade filosófica e a última parte da Ética através do conceito de sublimação? Como olhar para a Ética à luz do conflito interior paterno/materno e masculino/feminino?

Marcos Bazmandegan | 27-10-2023

“Espinosa foi um dos maiores filósofos de todos os tempos e três povos podem reclamá-lo como o seu maior: o neerlandês, o judeu e o português”

Com este seu O Segredo de Espinosa, José Rodrigues dos Santos dá-nos a conhecer um judeu português de Amesterdão cujo pensamento, maldito na época para muitos, foi revolucionário, sobretudo na forma de entender Deus. O romancista e jornalista respondeu por escrito ao DN, abordando tanto as origens do filósofo e o contexto cultural em que viveu, como o impacto das suas ideias e ainda o “grande crime” que foi a expulsão e perseguição dos judeus portugueses há 500 anos. Livro é lançado hoje às 17h na Sociedade de Geografia de Lisboa. | Leonídio Paulo Ferreira | 21 Outubro 2023

Bento Espinosa cresce na comunidade judaica portuguesa de Amesterdão no início do século XVII. Não existe qualquer dúvida de que a sua língua materna é o português? Tanto o pai, oriundo da Vidigueira, como a mãe, cuja família vivera no Porto, falavam português como língua do dia à dia?
O debate sobre as origens de Espinosa está encerrado. Durante muito tempo pensou-se que ele era espanhol, mas agora todos já sabemos que era português. Os judeus portugueses de Amesterdão falavam português em casa e na rua e os serviços religiosos na sinagoga eram conduzidos em português. Sendo portugueses, Espinosa e os seus pais e avós falavam todos português como língua materna. Existe até uma carta de Espinosa a um amigo neerlandês em que diz que se conseguiria explicar melhor se pudesse exprimir a sua ideia na sua língua materna. Ou seja, ele pensava em português.

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A arte de ser feliz | por Frederico Lourenço

O poeta romano Horácio tem-se revelado para mim, nos últimos anos, o melhor professor da arte mais difícil de aprender na vida: a arte de ser feliz.

Ao longo da minha vida deparei-me com muitas coisas difíceis de aprender, mas nenhuma aprendizagem se mostrou ser mais difícil do que ser feliz. A leitura mais aprofundada de Horácio tem-me ajudado a perceber as armadilhas em que tive sempre tendência para cair.

A primeira de todas – e que compromete a felicidade de tantas pessoas – é compararmo-nos com os outros e com a vida afortunada que lhes atribuímos. Sim, porque quem sabe se, na verdade, os felizardos da nossa imaginação são mesmo tão felizes como nós imaginamos?

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Ética, V, 38, Demonstração | Bento de Espinosa

A essencialidade da Alma consiste no conhecimento; quantas mais coisas a Alma conhecer, tanto maior será a parte dela que permanece eterna.

“A Ética exige leitores não preguiçosos, discretamente dotados e sobretudo que tenham muito tempo disponível. Se a ela se concede tudo isso, em contrapartida, oferece muito mais do que se pode razoavelmente esperar de um livro.”

Experimentos de conformidade de Asch

Os experimentos de conformidade de Asch ou experimentos de conformidade com o grupo de Asch foram uma série de experimentos realizados em 1951 por Solomon Asch, que demonstraram significativamente o poder da conformidade nos grupos.

Asch é mais conhecido por seus experimentos de conformidade. Sua principal descoberta foi que a pressão dos colegas pode mudar de opinião e até de percepção. Asch perguntou: 1) Até que ponto as forças sociais alteram a opinião das pessoas? 2) Qual aspecto da influência do grupo é mais importante — o tamanho da maioria ou da unanimidade de opinião?

https://pt.wikipedia.org/wiki/Experimentos_de_conformidade_de_Asch

Bento de Spinoza e Albert Einstein, em Nova Iorque, com a estátua da Liberdade ao fundo, por Marcos Bazmandegan

Esta imagem foi produzida por IA e foi-me cedida por Jorio Eduardo Maia. Ela representa uma conversa contemporânea entre Bento de Spinoza e Albert Einstein, em Nova Iorque, com a estátua da Liberdade ao fundo.

Ao lado, o símbolo do infinito e do tempo a servir de legenda para uma possível conversa sobre a temporalidade e o eterno.

Poderia ficar horas a olhar para esta imagem e a imaginar não só as conversas, mas também a analisar as atitudes de um para o outro. Primeiramente, admiração mútua. Depois, uma amizade fácil entre os que procuram a verdade e se guiam pela razão. Mas também um sem fim de afinidades de ordem pessoal, ambos descendentes de judeus, que em determinado momento das suas vidas se afastaram das práticas e crenças religiosas, sem com isso negar a sua pertença à civilização judaica. Depois a América, terra da liberdade e do livre pensamento, lugar natural e destino certo de ambos pensadores ávidos de liberdade individual. A estátua da Liberdade preside o encontro, ali podem falar e trocar ideias que muito poucos podem compreender profundamente.

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Dostoiévski | 11 de novembro de 1821 a 9 de fevereiro de 1881

Nietzsche: O único psicólogo com quem aprendi alguma coisa foi Dostoiévski.

Freud: Se não fosse Dostoiévski, a psicanálise teria que esperar um pouco.

Einstein: Dostoiévski me deu mais do que qualquer outro cientista, até mesmo Gauss.

Albert Camus: Pela primeira vez depois de ler Crime e Castigo, senti uma certa dúvida sobre a minha capacidade. Considerei seriamente a possibilidade de desistir deste trabalho.

Cemal Süreya: Li Dostoiévski e não tive paz desde aquele dia.

Stefan Zweig: Dostoiévski é o psicólogo dos psicólogos.” “Dostoiévski penetrou mais profundamente no mundo subterrâneo do inconsciente do que médicos, advogados, peritos criminais e psicopatas”, diz e acrescenta. O limite final de toda a humanidade não é ninguém senão Dostoiévski.

Murathan Mungan: Dostoiévski nos ensinou a misericórdia muito melhor do que nossas mães e pais.

Um jovem pede a Oğuz Atay que lhe recomende um livro.

A resposta de Oğuz Atay é clara: “Primeiro leia Dostoiévski, termine. Depois venha…

Viés de confirmação

“Viés de confirmação, também chamado de viés confirmatório ou de tendência de confirmação,é a tendência de se lembrar, interpretar ou pesquisar por informações de maneira a confirmar crenças ou hipóteses iniciais.”

Isso é uma coisa do nosso cérebro: buscamos informações que confirmem o que já acreditamos. O processo de formação de uma conclusão é invertido: ao invés de buscar informações que te permitam chegar a uma conclusão, já temos uma conclusão pré-concebida e então vamos buscar informações que sirvam de respaldo ao que concluímos. Durante esse processo, tendemos a ignorar ou não dar tanta importância a informações que apontam para uma conclusão contrária.

Frases de Filósofos | in “Toda Matéria”

Algumas frases de filósofos sobre o conceito de filosofia:

  • A admiração é própria da natureza do filósofo; e a filosofia deriva apenas da estupefacção.” (Platão)
  • “Se queres a verdadeira liberdade, deves fazer-te servo da filosofia.” (Epicuro)
  • A superstição põe o mundo em chamas, a filosofia apaga-as.” (Voltaire)
  • Não se ensina filosofia, ensina-se a filosofar”. (Kant)
  • Um pouco de filosofia leva a mente humana ao ateísmo, mas a profundidade da filosofia leva-a para a religião.” (Bacon)
  • O truque da filosofia é começar por algo tão simples que ninguém ache digno de nota e terminar por algo tão complexo que ninguém entenda.” (Bertrand Russell)
  • A filosofia é a que nos distingue dos selvagens e bárbaros; as nações são tanto mais civilizadas e cultas quanto melhor filosofam seus homens.” (Descartes)
  • Temos na filosofia uma medicina muito agradável, pois, nas outras, sentimos o bem-estar apenas depois da cura; esta faz bem e cura ao mesmo tempo.” (Michel de Montaigne)
  • O primeiro raciocínio do homem é de natureza sensitiva… os nossos primeiros mestres de filosofia são os nossos pés, as nossas mãos, os nossos olhos.” (Rousseau)
  • A filosofia é a arte de formar, de inventar, de fabricar conceitos… O filósofo é o amigo do conceito, ele é conceito em potência… Criar conceitos sempre novos é o objeto da filosofia.” (Deleuze e Guattari)
  • https://www.todamateria.com.br/o-que-e-filosofia/

CIÊNCIA E DETERMINISMO | DAVID BOHM

David Bohm, um físico teórico renomado, é conhecido por sua abordagem peculiar na interpretação da mecânica quântica e sua defesa do determinismo. Sua visão é uma das interpretações menos convencionais da física quântica e difere das interpretações predominantes, como a interpretação de Copenhague.

Bohm desenvolveu uma interpretação da mecânica quântica conhecida como “Interpretação de Bohm” ou “Teoria de Bohm”. Esta interpretação é determinista e afirma que, apesar das aparências de aleatoriedade e incerteza na mecânica quântica, existe uma realidade subjacente determinística.

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Baruch Spinoza | Jorge Luis Borges

Bruma de oro, el Occidente alumbra
La ventana. El asiduo manuscrito
Aguarda, ya cargado de infinito.
Alguien construye a Dios en la penumbra.
Un hombre engendra a Dios. Es un judío
De tristes ojos y de piel cetrina;
Lo lleva el tiempo como lleva el río
Una hoja en el agua declina.
No importa. El hechicero insiste y labra
A Dios con geometría delicada;
Desde su enfermedad, desde su nada,
Sigue erigiendo Dios con la palabra.
El mas pródigo amor le fue otorgado,
El amor que no espera ser amado.

Jorge Luis Borges | “Poesía Completa”, pág. 461 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016

Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo Buenos Aires, 24 de agosto de 1899 — Genebra, 14 de junho de 1986 foi um escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino. Nasceu a 24 Agosto 1899 (Buenos Aires, Argentina), Morreu em 14 Junho 1986 (Genebra, Suíça)

Confúcio | filósofo e pensador chinês

No ano 551 antes de Cristo, a 27 de agosto, nasce o filósofo chinês Confúcio, que desenhou os caminhos da ética. É o autor de um princípio partilhado na atualidade: “Não faças aos outros o que não gostas que façam a ti mesmo”.

Confúcio foi um filósofo e pensador chinês, cujo pensamento sublinhava a moralidade, procedimentos corretos nas relações sociais, a justiça e a sinceridade. Estes valores ganharam relevo na China, perante outras doutrinas da Dinastia Han. De acordo com os princípios de Confúcio, deveriam imperar uma lealdade familiar forte (a família deveria ser a base para um governo ideal) e a veneração e respeito para com os idosos. É da autoria de Confúcio um conhecido princípio praticado na atualidade: “Não faças aos outros o que não gostas que façam a ti mesmo”. Trata-se de uma das versões mais remotas da ética da reciprocidade.

A escola filosófica de Confúcio foi seguida pelos seus discípulos, que espalharam estes ideais pelos estudantes – mais tarde, funcionários em diversas cortes reais chinesas. O túmulo de Confúcio localiza-se em Qufu, província de Shandong, na China.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Conf%C3%BAcio

Modelo Quântico de Consciência proposto por Stuart Hameroff e Roger Penrose (1990)

Uma teoria fascinante, mas não verificada

Roger Penrose e Stuart Hameroff apontam em sua complexa análise da consciência a possibilidade de que a alma permaneça além da morte de cada indivíduo. E que essa informação está, talvez, em algum lugar desconhecido, em alguma área inexplorada. Ciência, misticismo ou poesia? De tudo um pouco.

A mecânica quântica estabelece que a matéria pode estar em mais de um estado físico ao mesmo tempo – pense, por exemplo, em uma “moeda quântica”, que seria capaz de dar cara e coroa ao mesmo tempo. Esse estado “misto”, chamado de estado de superposição, é bem conhecido dos físicos, e funciona muito bem em objetos pequenos – elétrons, por exemplo. Mas sistemas físicos maiores e mais complexos – qubits, por exemplo – parecem estar em um estado físico consistente porque interagem e se “entrelaç am” com outros objetos em seu ambiente. Este entrelaçamento – há quem prefira emaranhamento – faz com que esses objetos mais complexos “decaiam” para um único estado – cara ou coroa, por exemplo. É este processo de quebra da “mágica quântica” que os físicos chamam de decoerência. A decoerência é uma espécie e ruído, ou interferência, atrapalhando as sutis inter-relações entre as partículas quânticas. Quando ela entra em cena, a partícula que estava no ponto A e no ponto B ao mesmo tempo, subitamente passa a estar no ponto A ou no ponto B.

AULA ABERTA | Introdução ao Pensamento de Spinoza

Mariana Monteiro nos apresenta e passa um breve panorama de seu novo curso INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO DE SPINOZA.

Doutora em Sociologia e Direito da Universidade Federal Fluminense, mestre em Direito Constitucional e Teoria do Estado pela PUC-Rio e graduada em Direito pela PUC-Rio/UniFMU-SP.

É professora do curso de aperfeiçoamento em filosofia para o vitaliciamento e promoção na carreira de juiz da Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro (EMERJ) e no curso de graduação em Direito da Universidade Gama e Souza. Professora de cursos livres de filosofia da Casa do Saber.

Bento de Espinosa | A Alma Humana

A Alma Humana é Eterna !

A alma humana não pode destruir-se completamente com o corpo mas dela perdura algo, que é eterno.

(Ética, V, 23)

O que sobrevive, porém, é o conhecimento enquanto essência da alma.

A essencialidade da Alma consiste no conhecimento; quantas mais coisas a Alma conhecer, tanto maior será a parte dela que permanece eterna.

(Ética, V, 38, Demonstração)