FUNDAÇÃO MÁRIO SOARES | Uma Casa Comum para uma memória partilhada | por LUÍS MIGUEL QUEIRÓS in Jornal Público de 9 de Dezembro de 2018

Com mais de 2,2 milhões de objectos digitais, o arquivo da FMS é hoje tão importante para a história da oposição ao Estado Novo como para salvaguardar a memória das lutas de libertação das ex-colónias.

O arquivo da Fundação Mário Soares (FMS) arrancou em 1996, quando o líder socialista terminou o seu segundo mandato na Presidência da República, e o objectivo inicial era digitalizar e disponibilizar na Internet o gigantesco acervo documental reunido por Mário Soares (só fotografias, são mais de cem mil), testemunho do seu extenso e notável percurso político, iniciado ainda nos anos 40.

Mas atrás do arquivo de Soares vieram outros, muitos outros, e a FMS tem hoje à sua guarda um vasto conjunto de fundos documentais, alguns tão obviamente relevantes para a historiografia portuguesa como os de Afonso Costa ou Bernardino Machado, ou tão incontornáveis para a memória das lutas de libertação das ex-colónias como o Arquivo da Resistência Timorense ou os arquivos de Mário Pinto de Andrade (1928-1990), fundador e presidente do MPLA, que mais tarde se oporia a Agostinho Neto, e de Amílcar Cabral (1924-1973), fundador do PAIGC, cujos papéis foram resgatados in extremis de um edifício bombardeado e saqueado.

Ao todo são mais de 200 arquivos, que ocupam cerca de 2,5 km lineares e cobrem praticamente todo o século XX em Portugal e nos países de língua portuguesa, com um foco evidente, mas não exclusivo, na oposição ao Estado Novo e no combate ao colonialismo. E não menos significativa do que a sua dimensão física, é a componente digital deste arquivo. A FMS apostou, desde o início, em digitalizar e disponibilizar na Internet, tão rapidamente quanto possível, os materiais que ia recebendo, uma estratégia absolutamente pioneira nesses meados dos anos 90, e cujos reconhecidos bons resultados ajudam decerto a explicar – a par do prestígio, das relações pessoais e do empenho do próprio Mário Soares –, que tanta gente tenha tomado a iniciativa de confiar os seus papéis à fundação. Somando as digitalizações de documentos textuais às fotografias, registos sonoros e vídeos, os arquivos da FMS reúnem hoje mais de 2,2 milhões de objectos digitais.

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JOSÉ PACHECO PEREIRA | OPINIÃO | Aprender com a crise da Fundação Mário Soares | in Jornal Público

A crise na FMS tem outro efeito perverso que é a desconfiança de que a entrega de espólios e acervos a instituições que pareciam sólidas se revele instável com o tempo.

Este artigo pode ser entendido como manifestando um conflito de interesses. Fica já isto dito à cabeça, embora pense que na verdade não o seja, visto que o que me move é uma questão de interesse público que está muito para além de também eu “andar aos papéis” para o Arquivo Ephemera.

O assunto é, como é óbvio, a crise da Fundação Mário Soares (FMS), uma instituição com enorme mérito, que muito estimo e que acompanho praticamente desde a sua criação. Aproveito, aliás, para dizer que o que se diz pelas redes sociais e nos comentários, mesmo de leitores do PÚBLICO, sobre essa crise me merece a maior repulsa e um sentimento de vergonha pelos meus semelhantes capazes de se regozijarem com o que se está a passar em nome do ódio a Mário Soares. Esse ódio justifica para eles uma política de terra queimada, o equivalente a queimar livros numa pira como se fazia nos tempos do nacional-socialismo. A crise da FMS empobrece-nos a todos e torna Portugal pior.

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