João Moreira de Sá

João Moreira de Sá

João Moreira de Sá

Uma mente delirante e não muito normal encerrada num corpo com 42 anos (embora um teste da Sábado diga que na realidade tenho 47). Engenheiro, embora possa e insista em provar que é apenas Bacharel em Línguas e Turismo, tem uma Graduação acentuada na lente esquerda e alergia aos ácaros. Presentemente desempregado por estar na moda mas com boas perspectivas de conseguir vir a trabalhar num call-center. Escrevo porque não gosto lá muito de falar e como irresponsável que sou, acredito que um dia ainda irei conseguir viver da escrita.
Com uma vasta obra literária por editar, lançou em 2008 o seu primeiro livro, “Manjares do Arcebispo de Cantuária”, obra pioneira em Portugal no estilo culinário-humorístico e escreve em diversos blogues enquanto forem gratuitos.

email: jmoreiradesa@gmail.com

Entrevista a Raul Solnado

Partiu fisicamente o talvez maior entre os grandes. Raul Solnado. Dia 8 de Agosto devia passar a Dia Nacional do Humor.

Tenho, como coordenador do PNEThumor a honra de ELE me ter concedido uma entrevista para o site e que hoje opto por re-publicar.
Que não se veja como aproveitamento o que é HOMENAGEM.

João Moreira de Sá

Quem mais apropriado para “inaugurar” as nossas entrevistas que um dos maiores mestres do humor? O PNEThumor teve o prazer e a honra de conversar com Raul Solnado sobre O Humor. Palavras para beber.

O humor é, acima de tudo, para fazer rir ou deve também fazer pensar?
O humor é acima de muitas coisas, criticar de mansinho ou pôr em ridículo o que, ou quem, assim merece. Ainda existe o riso ou sorriso, que apenas podem funcionar como terapia.


Pode dizer-se que , à semelhança da música, há um humor de intervenção?

Há sim, mas não propriamente da música. Nas canções de intervenção, o que vale são as letras.


O humor é mesmo “uma disciplina muito séria”?

O historiador George Minois, no se livro “ História do Riso”, escreve que o riso é um assunto demasiado sério, para ser deixado aos cómicos.


A arte de fazer rir é o parente pobre das artes, do teatro, da escrita, do cinema…?

Num papiro do século III podemos ler: “ Depois, de o deus rir, nasceram os sete deuses que governaram o mundo… Quando ele rompeu às gargalhadas, surgiu a luz (…) Gargalhou segunda vez, e tudo foram águas. À terceira gargalhada, apareceu Hermes; à quarta, a geração; à quinta, o destino, à sexta, o tempo. Depois, antes do sétimo riso, o deus inspirou fortemente, mas tanto riu que até chorou, e das suas lágrimas, nasceu a alma.


Quando o Raul está em palco, quem é que está em palco?

Ou eu próprio, ou o personagem. Não autorizamos a presença de mais ninguém, à excepção de alguns actores que fazem parte do espectáculo. Cenário também. E chega.


Qual é a sensação de dominar as emoções e reacções de uma plateia sem abrir a boca, fazendo uso apenas da expressão facial, no que o Raul é mestre?

No dia em que eu começasse a empreender nessas minudências, nunca mais podia pensar em pisar um palco. Nem sequer olhar para a fotografia da porta de um teatro.


Concorda com Vítor Pavão dos Santos que, independentemente do que faça, o público espera sempre de si “rir com ele numa nova variação da Guerra de 1908”?

Durante alguns anos fiquei refém desse personagem, contador de histórias. Há dezenas de anos que isso não acontece. Foi para mim um sufoco.


O mundo do teatro, do humor, do espectáculo, dos media a eles associados, são uma guerra?

Nada disso. É natural que cada um queira tirar, o melhor possível na sua própria carreira. É completamente legítimo.


Hoje é preciso fazer mais telefonemas para entrar para a guerra?

Nããããão Na guerra, a comunicação hoje não é rápida: é veloz. Todos os beligerantes falam através de mísseis.


No teatro, e no humor em particular, há corporativismo, na vertente “amiguismo”?

Penso que é muito raro. Tanto o talento como a falta de talento, são demasiadamente visíveis. Além disso, hoje os castings são cada vez mais exigentes. Pouca gente brinca com o serviço.


Hoje em dia valorizam-se mais os nomes que os talentos? (ou “o panorama” não mudou muito?)

Mudou. Os dirigentes da televisão, de há uns tempos para cá, apostam nas audiências de telenovelas. Os actores participantes dividem-se em vários grupos: Os actores que têm uma carreira sólida, com muito estudo e muita prática e a maior parte dos jovens que chegam e apenas fazem uma pequena ideia do que significa representar. Estes, como são fotogénicos, são um apetite para as revistas do estilo. E alguns ficam famosos. Mas a verdade é cruel: o publico, que às vezes assiste a novelas, já com alguns anos, descobre que há já muito tempo, a maior parte desses jovens, ex famosos, desapareceram do ecran para sempre(?). Foram descartados. Os grandes actores ou os actores menos dotados mas com experiência, vão ficando sempre


Porque é que o seu programa-projecto para televisão com as Produções Fictícias não se concretizou?

Os elementos que na altura dirigiam a RTP, devem ter feito confusão com o meu nome. Foi apenas isso.


Há demasiados panarícios e bicos de papagaio a mandar na cultura, nas autarquias, nas programações, nas instituições?

É verdade. O país está completamente infestado e essa razão será a mais importante, para que muitas vezes os portugueses cheguem aos limites da indignação..


Concorda com o Herman quando diz que em Portugal tratamos muito mal as nossas Vedetas, no sentido “histórico” do termo?

O Herman José, desta vez exagerou um pouco.


Somos um país de memória curta?

A memória curta é praticamente um fenómeno generalizado. Temos através da Net, o mundo completamente escancarado. Podemos ver tudo, podemos ler tudo, podemos saber tudo. A comunicação social , desaba em cima nós a cada minuto tudo o que é acontecimento.

Não há memória que aguente aquela tempestade. E o que é grave, é que muitas vezes retemos as futilidades e não fixamos as noticias que mais nos podem interessar.


Sabemos fazer-nos o favor de ser felizes ou nem tentamos?

A felicidade é uma emoção pontual e quando a recebemos, temos que segura-la até aos limites.


O que é que o fará voltar a subir a um palco? Uma peça, um texto, que o desafie? 

Subir três pequenos degraus.

Entrevista realizada por João Moreira de Sá